Arquivo para junho, 2009

VaLiSeS meta-PoéTicAs XxiX

Posted in Art, arte, Crítica, crônica, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poesia, Poetry, semiótica on 16 junho, 2009 by Marco Aqueiva

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À Mãe Poesia

por RUBENS DA CUNHA

Inspirado em minha mãe e pelo dia que dizem ser seu.

 

            Poesia, teu filho anda sem esperas, anda com esporas sobre o lombo. Cavalo do tempo. Melhor dizendo, muar do tempo: daqueles que carregam cestos cheios de pedra à beira dos precipícios. Tenho sentido tua falta, Poesia. Tuas ternuras, teus aprofundamentos de mãe que tanto me apetecem.

            Não que eu tenha te abandonado, bem sabes das minhas visitas constantes, dos meus esforços em te honrar. Eu sonho é com algo mais livre, mais liberto das rotinas, das obrigações. Morar sempre contigo, nunca esquecer dos teus aconchegos. Sentar naquele sofá-estrofe no canto da página. Beber um verso-café feito na hora e nada ouvir além da chuva teimosa compondo um outono frágil. Chegar em ti é bom e fácil. O que dificulta tudo é o sair, o ausentar-se.

            O mundo me chama, me exila dentro de uma casca-homem. Cumpro meu destino, meu desatino diário. Uso neste cumprimento o que tu me ensinaste: não ser tão reto, nem tão áspero ou pontiagudo, preferir sempre as formas curvas, as obliqüidades, os desníveis. Acredito em ti, mãe, mas o mundo, esta vasteza de solidões, exige-me o contrário, exige-me aquilo que não me ensinas. Aprendo, é certo, mas a que preço?  Apesar deste conflito com o mundo, há em mim cisternas de agradecimentos. Eu sou teu filho. Excessivo, cheio de rebuscamentos, pretensioso. Eu sei que tu desprezas um pouco os enfeites na linguagem, os excessos. Perdoa-me, mãe, que sou criança e desconheço limites e perigos. Tento a cada dia ser menos expansivo, escrever menos bonito e mais cerne.

            Não, Poesia, não reclamo demais, mas é contigo, é em ti que desaperto as algemas, que desengasgo a garganta. Tu vives de palavras. As minhas estão aí, amargas quase todas, não que eu queira, mas assim elas se fazem em mim, assim elas acontecem neste teu filho. Às vezes, vejo meus irmãos tão apegados à felicidade. Eles te visitam sempre com poemas tão leves, tão descarregados de dor, tão feitos de algodão e açúcar. E tu recebes a todos. Nós, os amargos, acreditamos intensamente que temos a tua preferência, mãe. Que nenhum poeta venceu o mundo cantando a felicidade. Foram apenas os que se apoiaram sobre as mazelas humanas, os desvios, as reverberações do ser, que tiveram honra e glória. E ainda fazemos listas, desafios, apontamos cânones para comprovar a nossa verdade. Tu ris, passas a mão sobre minha cabeça, agasalha-me em teu colo. “Ah! Menino tolo, tenho por todos os meus filhos o mesmo apreço. Apenas olho mais de perto os frágeis”. E assim, tonto de fraqueza, deito-me em teu colo e sereno.

 

 

  

Com atraso, uma VaLiSe ao Dia dos Namorados

Posted in Art, arte, artes plásticas, Dia dos namorados, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 13 junho, 2009 by Marco Aqueiva

À Fátima,

senhora de todos os dias

de meus dias

 

Dia seguinte ao dia dos namorados_V2 copy

o Dique pinta-Se

Posted in Art, arte, artes plásticas, semiótica on 10 junho, 2009 by Marco Aqueiva

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No princípio era o verbo fazendo Arte. Embarcadouro : nada assenta ou repousa / as cores acompanham o embarcadouro nesse estado ´originalizante´ de ´estar-aí´ mutante : o dique pinta-se feito metalinguagem onde a existência faz-se morada.

Arte adesiva, não encerrada / estanque : clareia serpenteando a esmo num acaso objetivo: o mundo aqui é onde cor vai adentrando seu enredo.

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Estudo sobre projeto ´´Cores no dique´´

de Maurício Adinolfi

por

 Flávio Viegas Amoreira

publicado em Cronópios

http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4016

AFOrisMOs dA VaLiSe ii

Posted in Aforismos, Crítica Literária, literatura, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 9 junho, 2009 by Marco Aqueiva

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por Jean Cristtus Portela

 

Não se deve ler um poema tendo como primeiro horizonte a representação da realidade imediata, como se ele fosse o comentário das coisas que existem, um apêndice à existência material do mundo (M. Rifatterre). O poema é único, fechado em si, ainda que nele habite a força primordial de todos os poemas já escritos (O. Paz).

 

publicado em http://jeanportela.blogspot.com/

VaLiSeS meta-PoéTicAs XxviiI

Posted in literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 9 junho, 2009 by Marco Aqueiva

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Perguntas

 

por IZACYL GUIMARÃES FERREIRA

 

 

Tantas largas solidões

tanto aflito amanhecer,

sobre as horas, que me pedem?

 

Que me querem tantos dias

idos ou sonhados, rios

como flâmulas em fuga

devolvida, irresoluta?

 

Tanto verde copioso,

tanta esmeralda suada

pelos ramos, que me entrega

ou acende, se não crescem

mãos em mim para colhê-la?

 

Que tempo modula aqui

sua afluência marinha

entre galopes quebrados,

lisas praias estendidas?

 

Quem vela um mundo iminente

sem resolvê-lo em palavra?

Un sombrero en la VaLiSe

Posted in Art, arte, artes plásticas, fotografia, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Mayte Bayón, Nicolau Saião, poema, poesia, Poetry, semiótica on 7 junho, 2009 by Marco Aqueiva

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Imagens e poema por NICOLAU SAIÃO

                     (4 flashes de Mayte Bayón)

 

 

Chapéu

 

 

Serve para quase tudo: para honrar, desonrar

os planetas, as putas, os homens.

 

4

Como uma alma disforme, já foi visto

esmagado sob o cu de uma duquesa

sentada num canapé, distante

e distraída. Como a luz, também pode

ser uma figura de retórica.

Levou tiros, rolou

no pó dos pátios, entrou

brutal nas sinagogas; e é sempre um elemento

combinado, composto

de círculos e recordações. Às vezes

tira-se o chapéu se a carteira não presta.

Nunca se concluiu

se verdadeiramente foge às responsabilidades: contudo

é animal capaz para o deserto

de baixo ou de cima

livre na velha terra dos dicionários

ou dos cactos. Raramente é tão-só uma ilusão

ou miragem.

 

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Se nos cai da cabeça

por mera distracção

ou golpe de vento

há sempre alguém que o pise ou o apanhe

o chapéu é que já não é o mesmo

porque entretanto aprendeu muito

sobre como se comportar em sociedade

ou na rua.

                                   

É muito raro ficar

na cabeça dos mortos

ao contrário da camisa

que é de uso obrigatório. Rola sempre

para o lado da aurora

aos arrancos ou com grande doçura

como uma estrela

pendurada

 

num cabide.                                        

 

 

in “OS OBJECTOS INQUIETANTES”

 

3

AFOrisMOs dA VaLiSe i

Posted in Aforismos, Antonio Carlos Secchin, Crítica Literária, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 6 junho, 2009 by Marco Aqueiva

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por Antonio Carlos Secchin

 

A poesia representa a fulguração da desordem, o mau caminho do bom senso, o sangramento inestancável da linguagem, não prometendo nada além de rituais para deus nenhum.