Arquivo para junho, 2010

anTeNe-Se na VaLiSe inConSpuRcáVeL (parte Ii)

Posted in Art, arte, Arte engajada, artes plásticas, Carlos Pessoa Rosa, conto, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, Musica cubana, narrativa, prosa ficcional, semiótica, Silvio Rodriguez, Valise 2010, Valises on 29 junho, 2010 by Marco Aqueiva

PITANGAS IMPLODEM MÊNSTRUO 

por Carlos Pessoa Rosa

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lances de escada avançam sobre a língua de fogo. o rei debulha grãos de idéias sobre o tapete vermelho enquanto a mulher rosna melancolias e roça ostras no fundo de saco. há uma chuva melancólica de fim de tarde que abraça o vazio contendo em seu corpo a morte. que túmulo receberá o corpo sorumbático de um rei sem coroa enquanto a mulher gralha a melancolia transgênica em fim de tarde?

(úmida tarde onde repousa um véu crepuscular e o homem é espremido como pasta de dente. de seu interior sai o branco das baratas.)

ao longe estradas descansam mundanas. no céu desponta a Lua diante dos dedos do cego de Diderot. ah, delírios dos impertinentes! da ferradura de Baco, da papoula incandescente da loucura, do pó branco que avassala a ordem das palavras. é da mulher o mênstruo incontido do gozo; do homem a umidade das uretras virgens. há uma escada que sobe sobre as chamas a caminho do inferno, um rei uma rainha um homem uma mulher nos óvulos da noite que nenhuma criança ou poeta alcançam nesta orgia de palavras frases imagens soltas.

(mão de obra é a orgia incandescente da escravidão quando as mãos de miseráveis ardem no calor das injustiças.)

vasculha basculha entorse dor de dente mão no bolso bueiro. plúmbea chove
urubus e rosas. pitangas implodem mênstruo, o clitóris adocicado da boceta dos deuses. o imaginário frestas raios porvir. há uma ave migrante de solo pátrio estrangeiro e a cruz no chamamento. plúmbea chuva ostras e rastros. pássaros gorjeiam gozos. umidade no campo ora. o sino cala a igreja onde Deus imola e o poeta masturba palavras. há palavras soltas no pasto, loucura de Eros, cobra em posição de bote, no aguardo. não demora carrapatos festejam o sangue quente de quem venceu tânatos e as heras continuam a agarrar-se nas paredes.

(natal ao miserável é consumir a falta. dois cães aguardando restos seria mais aceitável, mas são seres humanos os dois de cócoras roçando o fundo de latas na calçada.)

cúmulus em tarde ensoluada, o vento descansa no prado, tudo é silêncio nos galhos e copas das árvores. em algum lugar homens guerreiam (por aqui nem uma bala perdida). cercas blocos argamassa vagas não arredam pé do descanso. meu corpo como churrasco nos vãos dos mistérios, noite se achegando fria à caça de sonhos e pesadelos, arremedos do que na vida claustrofóbico. o diabo arranca água e duas luas de um coco. ao longe o apito de um trem, de uma estrada de ferro inexistente…

(e os viajantes na impossibilidade de um destino.)

 

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Imagem: Marco Aqueiva

Das VaLiSeS Dos CéSaReS VenCiDoS

Posted in Art, arte, artes plásticas, crônica, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica, Valise 2010, Valises with tags , , , on 24 junho, 2010 by Marco Aqueiva

Em quanta estrada os Césares

perderam-se após vitórias.

O futebol embaralha

risos lógica e história.

 

Balão sobe e desce

Cai Paris cai Roma

Vai pra casa França

Itália agora a segue

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texto e imagem: Aqueiva

Da VaLiSe Que TuDo LeVa…

Posted in literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, poema, poesia, Poetry, semiótica, Valise 2010, Valises, Walter Franco on 22 junho, 2010 by Marco Aqueiva

 

Agá dois horas

Posted in Cronópios, Ensaio, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature on 19 junho, 2010 by Marco Aqueiva

por Carlos Pessoa Rosa

     

Se não todos, pelo menos a maioria dos escritores vive entre o vazio claustrofóbico da criação e o olhar voyeur do leitor. Não são muito afeitos a contatos, também é verdade. Detestam compartilhar. Bem diferente dos adeptos das filmadoras, estes sim adoradores das luzes, sombras e imagens. Texto e imagem podem formar um amálgama que não é literatura nem filme, mas outra coisa, um alinhavar de palavras, um fazer bainhas, um entorse de imagens, cronos e ópio. Poesia é esse antever o cinema. Agá dois horas, estilhaços líquidos, onde saudade é crocodilo e o tempo: capitão Gancho. Devaneio H2Horas é

para acessar o notável ensaio na íntegra, clique no link abaixo

http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=4613

pEquEnaS SãO aS VaLiSeS

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, poema, poesia, Poetry, semiótica, Valise 2010, Valises on 17 junho, 2010 by Marco Aqueiva

AnTeNe-Se na VaLiSe inConSpuRcáVeL (parte i)

Posted in Art, arte, artes plásticas, Chico Science, Copa 2010_alternativa, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, mangue beat, Mangue boys, Metalinguagem, Nação Zumbi, Poética, poema, Poetry, semiótica, Valise 2010, Valises on 15 junho, 2010 by Marco Aqueiva

pelas manhãs

cafés e analgésicos

 

à tarde

antitérmicos e coca

com limão e gelo

 

à noite

classe executiva

recarregar a valise

com chips whisky mais drogas

da net

 

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texto e imagem: Marco Aqueiva 

Poets in New York

Posted in Chico Buarque, Ferreira Gullar, Garcia Lorca, literatura, literature, poema, poesia, Poesia espanhola, Poetry, Poets in New York, provocações, Raimundo Fagner, semiótica, Terrorismo de Estado, Valise 2010 on 5 junho, 2010 by Marco Aqueiva

Federico GARCIA LORCA, fuzilado pelos franquistas em 1936, como profeticamente registrou seu compatriota GOYA, nasceu em 5 de junho, em uma remota Espanha de cais deprimido e regras inacianas.

Entre junho de 1929 a março de 1930, Lorca esteve em Nova York. Sob os efeitos da Grande Depressão de 29 escreveu talvez os poemas de temática social mais contundentes da lírica ocidental.

Uma pequena medida da sensibilidade e força destes versos vemos na interpretação de Leonard Cohen, na postagem anterior.

Veja-se agora que poema certeiramente pungente, na tradução de Ferreira Gullar, acompanhado de interpretação de Chico Buarque e Raimundo Fagner.

A Aurora

A aurora de Nova Iorque tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de pombas
que explode as águas podres.

A aurora de Nova Iorque geme
nas vastas escadarias
a buscar entre as arestas
angústias indefinidas.

A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe
porque ali a esperança nem a manhã são possíveis.
E as moedas, como enxames,
devoram recém-nascidos.

Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham:
não haverá paraíso nem amores desfolhados;
só números, leis e o lodo
de tanto esforço baldado.

A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade
e as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones
como se houvessem saído
de um naufrágio de sangue.

 

hAdeS nA fAixA dO gOzO

Posted in crônica, Garcia Lorca, Leonard Cohen, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, Poets in New York, semiótica, Valise 2010 on 5 junho, 2010 by Marco Aqueiva

por Carlos Pessoa Rosa

Entre o Paraíso e a Consolação, a faixa do gozo, do adensamento capitalista, terra dos fundamentalistas ‘Wall Street’. Gaza também é aqui, tal Haiti. Ai de ti, periferia! Mucambos, favelas… Muralhas de prédios separam nos quatro quadrantes. E o mar… Navios com seus containeres de ouro. Antes, depósitos de gente. Há sempre uma ponte, um acima e um abaixo. A tragédia revisitada em Goya e Steerage. A miséria é o espetáculo, o reality show urbano. As correntes invisíveis das senzalas são cifras definidas nos porões da economia. Hades é o mundo inferior. Sem moeda, os miseráveis são ignorados por Aqueronte. O cão ladra nas madrugadas, entre o Paraíso e a Consolação. Não há fuga possível. Sombras… A ponte de Stieglitz é o paraíso capitalista. As armações de guerra vestem os  Cérberos pós-modernos, tubarões à espera de carne fresca. Os eleitos são apenas os seres da vez. Haverá sempre o herói a levantar os braços e a comer os projéteis manipulados com a mais moderna tecnologia. Mas a maioria é Copa do Mundo!

 

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Imagem: Alfred Stieglitz, “The Steerage”
Video: Leonard Cohen, “Take this waltz” – Poets in New York de Federico Garcia Lorca

uM cOnTra TOdOs, MenOs Um

Posted in conto, crônica, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, Terrorismo de Estado, Valise 2010 on 2 junho, 2010 by Marco Aqueiva

Saídos enfim da Liberdade, entre Paraíso e Consolação, entramos eu, Creúsa e tropa, absolutos e definitivos, em Gaza trazendo a cura.  Desde então adotamos por força da paz a estratégia de monitorar, com os cem olhos de argos, todos os acessos ao território porque tínhamos armas e o remédio. Entrada e saída rigorosamente controlados. Havia a casa dos recém-chegados. Depois os refugiados eram encaminhados para casas inclusivas. Havia a das crianças de pré-escola. A das crianças irrealizáveis. A das gestantes crepusculares. A dos idosos incompletos. Quando nos informaram da chegada dos barcos, tínhamos improvisado não aqui, mas lá, mais além da paciência mediana, um porto improvisado. Fomos ao encontro deles que reagiram. Sim, sabemos que com estilingues e bolas de vidro. Sim, também sabemos que encontramos caixas e caixas de espelhos e água mineral. Somos os eleitos. Determinamos o centro, o meio e a extensão do mundo. Dominus vobiscum, que cabe sim a nós escolher como dar visibilidade ao terror.

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Texto: Marco Aqueiva

Imagem: Francisco Goya

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                                                                  chave sígnica:

                                                                  uM = Israel

                                                                  Um = Estados Unidos