Poets in New York

Federico GARCIA LORCA, fuzilado pelos franquistas em 1936, como profeticamente registrou seu compatriota GOYA, nasceu em 5 de junho, em uma remota Espanha de cais deprimido e regras inacianas.

Entre junho de 1929 a março de 1930, Lorca esteve em Nova York. Sob os efeitos da Grande Depressão de 29 escreveu talvez os poemas de temática social mais contundentes da lírica ocidental.

Uma pequena medida da sensibilidade e força destes versos vemos na interpretação de Leonard Cohen, na postagem anterior.

Veja-se agora que poema certeiramente pungente, na tradução de Ferreira Gullar, acompanhado de interpretação de Chico Buarque e Raimundo Fagner.

A Aurora

A aurora de Nova Iorque tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de pombas
que explode as águas podres.

A aurora de Nova Iorque geme
nas vastas escadarias
a buscar entre as arestas
angústias indefinidas.

A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe
porque ali a esperança nem a manhã são possíveis.
E as moedas, como enxames,
devoram recém-nascidos.

Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham:
não haverá paraíso nem amores desfolhados;
só números, leis e o lodo
de tanto esforço baldado.

A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade
e as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones
como se houvessem saído
de um naufrágio de sangue.

 

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