anTeNe-Se na VaLiSe inConSpuRcáVeL (parte Ii)

PITANGAS IMPLODEM MÊNSTRUO 

por Carlos Pessoa Rosa

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lances de escada avançam sobre a língua de fogo. o rei debulha grãos de idéias sobre o tapete vermelho enquanto a mulher rosna melancolias e roça ostras no fundo de saco. há uma chuva melancólica de fim de tarde que abraça o vazio contendo em seu corpo a morte. que túmulo receberá o corpo sorumbático de um rei sem coroa enquanto a mulher gralha a melancolia transgênica em fim de tarde?

(úmida tarde onde repousa um véu crepuscular e o homem é espremido como pasta de dente. de seu interior sai o branco das baratas.)

ao longe estradas descansam mundanas. no céu desponta a Lua diante dos dedos do cego de Diderot. ah, delírios dos impertinentes! da ferradura de Baco, da papoula incandescente da loucura, do pó branco que avassala a ordem das palavras. é da mulher o mênstruo incontido do gozo; do homem a umidade das uretras virgens. há uma escada que sobe sobre as chamas a caminho do inferno, um rei uma rainha um homem uma mulher nos óvulos da noite que nenhuma criança ou poeta alcançam nesta orgia de palavras frases imagens soltas.

(mão de obra é a orgia incandescente da escravidão quando as mãos de miseráveis ardem no calor das injustiças.)

vasculha basculha entorse dor de dente mão no bolso bueiro. plúmbea chove
urubus e rosas. pitangas implodem mênstruo, o clitóris adocicado da boceta dos deuses. o imaginário frestas raios porvir. há uma ave migrante de solo pátrio estrangeiro e a cruz no chamamento. plúmbea chuva ostras e rastros. pássaros gorjeiam gozos. umidade no campo ora. o sino cala a igreja onde Deus imola e o poeta masturba palavras. há palavras soltas no pasto, loucura de Eros, cobra em posição de bote, no aguardo. não demora carrapatos festejam o sangue quente de quem venceu tânatos e as heras continuam a agarrar-se nas paredes.

(natal ao miserável é consumir a falta. dois cães aguardando restos seria mais aceitável, mas são seres humanos os dois de cócoras roçando o fundo de latas na calçada.)

cúmulus em tarde ensoluada, o vento descansa no prado, tudo é silêncio nos galhos e copas das árvores. em algum lugar homens guerreiam (por aqui nem uma bala perdida). cercas blocos argamassa vagas não arredam pé do descanso. meu corpo como churrasco nos vãos dos mistérios, noite se achegando fria à caça de sonhos e pesadelos, arremedos do que na vida claustrofóbico. o diabo arranca água e duas luas de um coco. ao longe o apito de um trem, de uma estrada de ferro inexistente…

(e os viajantes na impossibilidade de um destino.)

 

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Imagem: Marco Aqueiva

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5 Respostas to “anTeNe-Se na VaLiSe inConSpuRcáVeL (parte Ii)”

  1. Li, reli e no gozo das palavras, desatei muitos nós… Que bela orgia em ato vocabular!

    Um beijo

    Carmen Silvia Presotto
    http://www.vidraguas.com.br

  2. Carmen, fico muito contente que compartilhe o grande prazer que senti ao ler o texto. Como sabe, é o esperável em se tratando de Pessoa Rosa.grande abraço,
    +1

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