QuaNDo o JoGo Não poDe SeR inTeRRoMpiDo

por Marco Aqueiva

Depois da leitura dos originais de um belo texto de José Geraldo Neres.

“Um pedaço de chuva no bolso. A pele desfiada num rosário de carnes: as cores e as sombras brincam no relógio, sentam-se para chorar a colheita de espelhos, mares de espelhos a arrastar o tempo no interior do corpo.”

“Um pedaço de chuva no bolso” é um texto desafiador. E o tomamos – diga-se desde logo – no justo desafio de intentarmos compreender seu sentido como uma só carne, um sentido agregador que lhe subjaz o imaginário simbólico.

O leitor que aceita os termos do jogo que se impõe à leitura – e receio que lamentavelmente sejam poucos – vê-se seguidamente deslocado das certezas dadas pelos mecanismos lógicos da linguagem. Os belos versos e imagens traem a expectativa do leitor de concatenação imediata. Tudo que se afirma à frente é interpretação arriscada: risco com todo o sacrifício do erro! O firmamento é acessível com todo o risco de não se alcançar mais que uma nesga de céu.

Para a compreensão do texto, exige-se do leitor intuição. Desejável alguma familiaridade com a gramática analógica das grandes correntes simbólicas. A chave talvez seja o simbolismo judaico-cristão.

O simbolismo do jogo, caro ao texto, organiza a gramática do texto: o poético se vale do universo religioso, como dissemos. O texto só aparentemente se abre profano. De “Entre vozes” o mundo do pesadelo entre paredes: a subjetividade (narrador) que aprisiona sua vítima retoma Fortunato de O barril de amontillado. Ruínas e a vítima em sacrifício: o Homem que se pensa próspero é vítima da soberba, representação do tema da vingança e daquele que se vê aquém da possibilidade de salvação.

Anjo e corvos (novamente Poe à vista), Maria (a figura bíblica), o céu religioso e novamente o inferno existencial. Muito bonito o avanço tonal nesse O cálice na voz do corvo. Os brutos poderes da poesia desde aí assumem um tal dinamismo desde O sangue não tem portas, passando por Pupilas iluminadas, quando vem Elisa (a prometida) trazer a certeza do Jogo ao Narrador e ao Leitor.

“Ela (Elisa), uma chave, uma janela a provocar a curiosidade. Brinda pela vida, seu próprio destino. Quem chegará para entender seus jogos?”

Jogo que talvez seja paródia do casamento entre Narrador e narrado, entre Leitor perdido e texto, entre a direção do texto e “o rumo dos jogos, só com o prazer de se perder no labirinto: Elisa”.

Por essa perspectiva, pensamos que não é forçar dizer que Emanuel se traduz como o jogo está conosco. E não podemos Pará-lo. O sentido da vida e o sentido da Poesia e do texto estão infernalmente interligados. Estejam prontos para Este José Geraldo Neres.

 

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