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A valise do viajante

Posted in literatura, literature, narrativa on 9 setembro, 2008 by fbrito

 

por Lisa Carvalho Vasconcelos

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Em maio de 1952, Guimarães Rosa partia em uma viagem pelo sertão mineiro. Acompanhava um grupo de vaqueiros que deveria levar uma boiada da fazenda de Sirga, localizada no município de Três Marias, até Araçaí. A empresa foi programada por seu primo Francisco Moreira, dono da fazenda e da boiada. Mas o guia da excursão foi ninguém menos que Manuel Narde, vulgo Manuelzão, inspirador da personagem principal do segundo conto de Corpo de Baile.

 

O vaqueiro Zito, já morto há alguns anos, deu um último testemunho dessa viagem em 2001, na Revista Cult. Segundo ele, Guimarães Rosa esqueceu em casa uma série de itens pessoais que lhe fizeram falta durante a expedição. Durante os dez dias que levou no percurso, ele nenhuma vez se barbeou, pois não tinha consigo qualquer tipo de lâmina para isso. Sua comida, na falta de uma marmita trazida de casa, foi a mesma dos outros vaqueiros: arroz, feijão, carne seca e farinha. O café que tomou, que poderia ter sido mantido quente em uma garrafa térmica, tinha que ser tomado rapidamente logo depois de coado.

 

A preocupação com esses pequenos esquecimentos, entretanto, era exclusiva de Zito e não atingia Guimarães Rosa. Muito pelo contrário, no que concerniam seus objetivos de escritor, sua bagagem não poderia ter sido mais apropriada. No pescoço Rosa carregava sempre um caderno, no qual anotava tudo o que se passava. Bichos, plantas, pessoas, costumes, nada ficou de fora. O que ele levou do sertão nessa pequena valise de palavras se transformou mais tarde nas duas obras primas Grande sertão: veredas e Corpo de Baile, publicadas quatro anos depois.

 

A correspondência entre Rosa e seu tradutor italiano, Eduardo Bizarri, dá testemunho de alguns dos seus achados que foram posteriormente usados nos livros. Palavras como sipituba[1], xexe[2], pé-de-flor, bufúrdio[3] e loxias[4] são só algumas das incluídas em Corpo de Baile, que foram originalmente ouvidas de gente do interior de Minas. Sabemos os significados da maioria delas, mas às vezes o próprio Guimarães Rosa confessa sua ignorância frente ao vocabulário sertanejo. Ao ser indagado a respeito do termo “Sarajava” que aparece n` “A festa de Manuelzão”, ele responde: “[..] o verbo sarajava, eu o ouvi, e o contador não soube explicar-me o que é. Verbo só em aa, belíssimo!”. (ROSA, 2001, p. 60)

 

Também é esse o caso dos versos que abrem o volume de contos e que tem várias passagens obscuras:

“ ‘Da mandioca quero a massa e o beiju,

Do mundéu quero a paca e o tatú;

 da mulher quero o sapato, quero o pé!

— quero a paca, quero o tatu, quero o mundé…

Eu, do pai, quero a mãe, quero a filha:

também quero casar na família.

Quero o galo, quero galinha do terreiro,

quero o menino  da capanga do dinheiro.

Quero o boi, quero o chifre, quero o guampo;

do cumbuco do balaio quero o tampo.

Quero a pimenta, quero o caldo, quero o molho!

— eu do guampo quero o chifre, quero o boi

Qu`é dele, o dôido, qu`é dele, o maluco?

Eu quero o tampo do balaio do cumbuco…’

 

(Coco de festa, do Chico Barbós, dito Chico Rabeca,

dito Chico Precata, Chico do Norte, Chico Mouro, Chico Rita – na Sirga, Rancharia da Sirga, Vereda da Sirga, Baixio da Sirga, Sertão da Sirga)”

(ROSA, 2006, p. 7).

 

Independentemente de nossa compreensão limitada, podemos perceber nesses versos o sabor de uma terra distante. Foi justamente isso o que Rosa nos quis trazer dessa viagem.

 

Referências:

FILHO, João Correia. “Remembranças”. Revista Cult. Fevereiro, 2001. nº 33. p. 50-55. 

ROSA, João Guimarães. João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano.3a Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, 207 p.

ROSA, João Guimarães. Corpo de Baile. 2v. Ed. Comemorativa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.


[1] “Fazedor de canoas primitivas pelo processo de queimar o tronco de uma árvore, para escavá-lo” (ROSA, 2003, p. 56).

[2] “Gentil” (ROSA, 2003, p. 53).

[3] “Cavalhada, galopada, tropel e confusão […]” (ROSA, 2003, p. 59).

[4] “Sabedorias complicadas” (ROSA, 2003, p. 69).