Archive for the António Ramos Rosa Category

VaLiSeS meta-PoéTicAs Vii

Posted in António Ramos Rosa, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 27 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Fotografia de Robert and Shana ParkeHarrison, The book of life

 

Mediadora da escrita

por António Ramos Rosa

 

Precipita-se ou vacila cintilante

subterrânea selvagem

a transparente espuma atravessando.

Desenhando os obstinados traços

 

busca a figura do desejo e do repouso

numa superfície plana e verde.

Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,

interrompe, acumula, esquece.

 

forma a sua própria forma. Contornos

mais vibrantes do que o círculo.

A face que ela imprime é a do corpo.

 

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Fonte: António Ramos ROSA. Mediadoras. Lisboa: Ulmeiro, 1985.

VaLiSeS meta-PoéTicAs iV

Posted in António Ramos Rosa, Antonio Carlos Secchin, Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, literature, Magritte, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 22 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Biografia

por Antonio Carlos Secchin

 

O poema vai nascendo

num passo que desafia:

numa hora eu já o levo,

outra vez ele me guia.

 

O poema vai nascendo,

mas seu corpo é prematuro,

letra lenta que incendeia

com a carícia de um murro.

 

O poema vai nascendo

sem mão ou mãe que o sustente,

e perverso me contradiz

insuportavelmente.

 

Jorro que engole e segura

o pedaço duro do grito,

o poema vai nascendo,

pombo de pluma e granito.

 

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Eu vi entre as amendoeiras a formosa Astreia

por António Ramos Rosa

 

Escrevo não para saber mas para criar um espaço de palavras

que correspondam à ingenuidade da minha aspiração

que quer pisar um solo de claras pedras e vibrar

ao ritmo de uma duração monótona e solar

equivalente à hora e ao espírito do olvido e da ignorância aberta

É um momento apenas em que as minúsculas janelas subterrâneas

se abrem para o fulgurante repouso de uma matéria adorável

adormecida numa concha de pedra como um corpo imaginado

A graciosa visão do desejo ama este sossego luminoso

e para o prolongar reflui para o seu centro cego

onde recolhe as cintilações e as desenha repousadamente

para que a integridade respire com a indolência de um puro embalo

Tal é a invenção da palavra que se fende como um fruto vermelho

e oferece os gomos de onde escorre o seu sumo de leite e sangue

 

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por Silvana Menezes

 

 

Quero escrever meus versos

No teu corpo nu

Que minhas mãos façam

Sonetos em ti

 

Que minha boca declame

Beijos na hora exata

Da entrega dos amantes

Que o desejo ultrapasse o frevo

 

De uma noite de carnaval em Olinda

E os confetes e serpentinas

Sejam os nossos poros abertos

No calor dos sussurros

 

Quero que você componha

Sua música em mim

E assim, nos tornaremos

Belos, simplesmente

 

Não quero mais saber

De escrever poemas em frios papéis

Quero sim, que minha palavra

Seja apenas esse ato de amor!