Archive for the Crítica Literária Category

QuaNDo o JoGo Não poDe SeR inTeRRoMpiDo

Posted in Crítica Literária, José Geraldo Neres, Literatura Brasileira, literature on 3 setembro, 2012 by Marco Aqueiva

por Marco Aqueiva

Depois da leitura dos originais de um belo texto de José Geraldo Neres.

“Um pedaço de chuva no bolso. A pele desfiada num rosário de carnes: as cores e as sombras brincam no relógio, sentam-se para chorar a colheita de espelhos, mares de espelhos a arrastar o tempo no interior do corpo.”

“Um pedaço de chuva no bolso” é um texto desafiador. E o tomamos – diga-se desde logo – no justo desafio de intentarmos compreender seu sentido como uma só carne, um sentido agregador que lhe subjaz o imaginário simbólico.

O leitor que aceita os termos do jogo que se impõe à leitura – e receio que lamentavelmente sejam poucos – vê-se seguidamente deslocado das certezas dadas pelos mecanismos lógicos da linguagem. Os belos versos e imagens traem a expectativa do leitor de concatenação imediata. Tudo que se afirma à frente é interpretação arriscada: risco com todo o sacrifício do erro! O firmamento é acessível com todo o risco de não se alcançar mais que uma nesga de céu.

Para a compreensão do texto, exige-se do leitor intuição. Desejável alguma familiaridade com a gramática analógica das grandes correntes simbólicas. A chave talvez seja o simbolismo judaico-cristão.

O simbolismo do jogo, caro ao texto, organiza a gramática do texto: o poético se vale do universo religioso, como dissemos. O texto só aparentemente se abre profano. De “Entre vozes” o mundo do pesadelo entre paredes: a subjetividade (narrador) que aprisiona sua vítima retoma Fortunato de O barril de amontillado. Ruínas e a vítima em sacrifício: o Homem que se pensa próspero é vítima da soberba, representação do tema da vingança e daquele que se vê aquém da possibilidade de salvação.

Anjo e corvos (novamente Poe à vista), Maria (a figura bíblica), o céu religioso e novamente o inferno existencial. Muito bonito o avanço tonal nesse O cálice na voz do corvo. Os brutos poderes da poesia desde aí assumem um tal dinamismo desde O sangue não tem portas, passando por Pupilas iluminadas, quando vem Elisa (a prometida) trazer a certeza do Jogo ao Narrador e ao Leitor.

“Ela (Elisa), uma chave, uma janela a provocar a curiosidade. Brinda pela vida, seu próprio destino. Quem chegará para entender seus jogos?”

Jogo que talvez seja paródia do casamento entre Narrador e narrado, entre Leitor perdido e texto, entre a direção do texto e “o rumo dos jogos, só com o prazer de se perder no labirinto: Elisa”.

Por essa perspectiva, pensamos que não é forçar dizer que Emanuel se traduz como o jogo está conosco. E não podemos Pará-lo. O sentido da vida e o sentido da Poesia e do texto estão infernalmente interligados. Estejam prontos para Este José Geraldo Neres.

 

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Retornar ao que é perene e distantemente mais próximo de nós (Marco Aqueiva)

Posted in Crítica, Crítica Literária, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, Literatura sem fronteiras, literature, Pedro Maciel on 28 fevereiro, 2012 by Marco Aqueiva

No romance Retornar com os pássaros, de Pedro Maciel, em lugar da esperada ênfase na narrativa, o texto aposta na busca: a escolha, o gesto de liberdade e recusa; o caminho como excentricidade, disseminação e errância de opções e sentidos. Busca que combina informação científica e revelação mítica com expressão poética. É um texto perturbador na medida em que experimenta novos caminhos para a prosa ficcional. É um texto ideológico que parte de conceitos ou posições prévias, fato, a nosso ver, já atestado desde o início do livro, combinando simultaneamente os modos poético e irônico da expressão literária.

Leia mais em: Retornar ao que é perene e distantemente mais próximo de nós (Marco Aqueiva).

Imagens da noite: diálogo com muitas vozes

Posted in Art, arte, Chico Science, Crítica, Crítica Literária, Cronópios, Ensaio, Fred Zero Quatro, literatura, Literatura 2011, Literatura Brasileira, literatura latino-americana, Nação Zumbi, Poética, poesia, Poetry, prosa poética, semiótica, Valises on 25 fevereiro, 2011 by Marco Aqueiva

Há poucos dias foi publicado no CRONÓPIOS o primeiro texto de uma série em que dialogo com vozes da atual produção poética brasileira.

Ficarei bastante contente e satisfeito se acompanharem a publicação.

Confiram o início

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4909

 

Anníbal Augusto Gama na VaLiSe

Posted in Crítica, Crítica Literária, Cronópios, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literatura latino-americana, literature, Poética, poema, poesia, Poetry on 23 setembro, 2010 by Marco Aqueiva

Quem é Anníbal Augusto Gama?

Wilson Martins: “poeta desconhecido que é também um dos melhores nos quadros históricos da poesia brasileira em qualquer tempo.”

“Annibal Augusto Gama, em primeiro lugar, é um poeta insubstituível, de inspiração muito pessoal, que não lembra nem de longe nenhum outro poeta consagrado, de hoje ou de ontem. Sua poesia é feita da honesta fruição do mundo por alguém que se julga um homem comum, quando, na verdade, é excepcional” (Gilberto de Melo Kujawski)

Para saber mais desse grande poeta e conhecer alguns poemas seus, confira o link abaixo.

 http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4746

VaLiSeS aFoRa

Posted in Crítica, Crítica Literária, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literatura latino-americana, Literatura Portuguesa, Metalinguagem, Poética, poesia, Poetry, prosa ficcional, prosa poética, semiótica, Valise 2010, Valises on 31 janeiro, 2010 by Marco Aqueiva

Caros Amigos:

 

………………………..         Nas cordas da lira

       ………………………..  canto em brancos versos

                …………………..   valises afora

………………………..         em falsete o sangue

           ……………………..   que dos olhos jorra

 

Caso apenas déssemos atenção aos números, não valeria a pena ir além das estatísticas e probabilidades. Se levasse em consideração as expectativas de resultado imediato, não daria continuidade a este projeto.

 

Posto isto, direi que tenho agora dois objetivos para o Valise em 2010:

 

1) Retomar textos temáticos em torno da ideia/símbolo valise: Receber de vocês POETAS & PROSADORES quaisquer textos que apresentem referência à valise, registrando textualmente a importância do referido objeto. Lembro que ao longo de 2008 mais de 40 autores contribuíram com esta proposta. Maravilhoso decuplicar este número. Por isso, convido-os a conferir os arquivos antigos, os de 2008.

 

2) Continuar apresentando as VaLiSeS meta-PoéTicAs, desenvolvidas em 2009. Dependo também de vocês POETAS & PROSADORES para a ampliação desta proposta.

 

Conto com vocês. Aguardo ansiosamente suas contribuições.

Escrevam para marcoaqueiva@yahoo.com.br .

 

Marco Aqueiva

recontAmoS AS VAliSeS

Posted in Art, arte, Crítica Literária, literatura, Literatura Brasileira, literature, Pedro Du Bois on 11 dezembro, 2009 by Marco Aqueiva

NÚMEROS RECONTADOS

por Tânia Du Bois

            O que carregamos nas valises das nossas vidas? Ao findar o dia não termos esquecido de efetuar os pagamentos. Mas, do sorriso e da bondade que não contamos, será o caso do dia? Recontamos os números? Ou pesamos a valise?

            Ordenamos, classificamos, quantificamos, qualificamos e recordamos os fatos através dos números, que tornamos marcas da vida, como encontramos no livro de Pedro Du Bois, Números Recontados.

            Números são importantes na vida; recontamos nossa trajetória através de calendários. Datas são o questionamento do dia-a-dia. Nascimentos, aniversários e mortes. Quando menos se espera, a palavra dita é número: multiplicação da vida; partilhada com os amigos; o sentido simbólico aprisionado em tantas datas, pois os números ocupam um lugar reservado no tempo: passado, presente e futuro – em bifurcações de tantas outras vidas contabilizadas que nos acompanham.

 

            “É cedo rapaz // undécima hora / composição atrasada / na partida //  vida inquieta / trocando os trilhos / descarrilando a passagem / induzindo novos caminhos // É cedo rapaz / verdadeira hora / de  revelações / e acomodações.”

            Passado tempo, os números ocupam o primeiro lugar nas atividades diárias; a sociedade em mudança transforma tudo em senhas; códigos secretos para abrirmos a nossa valise.

            Passado tempo, nada muda na contagem dos dias, apenas retemos na memória a história como se apresenta no caminho (multiplicação da vida), na espera continuada que faz de você eternidade em que vive esses anos todos.

 

            “Robusto ao nascer / dois anos prodígio / falando palavras, fazendo          contas // quatro alfabetizado / sete, expressando-se em inglês / dez, boa  pontaria / atirando em passarinhos e galinhas / doze penugens no rosto / prenunciando a barba, bigode e pentelhos // dezesseis, emancipado para ser comerciante / não foi nem mesmo ambulante // dezoito, eleitor por obrigação / vinte e um, esvoaçante / na maioridade / não tivesse sido emancipado aos dezesseis // vinte e quatro, travesti / prazeres e   trabalhos / em domicílio, hotéis baratos / vinte e sete, defunto.”

            Vidas viciadas, dependentes dos números.

            Somos o dízimo da sociedade? Recontamos as valises?

            Ou somos incontáveis sonhos de horas perdidas?

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Imagem: http://www.ioffer.com/i/DISINTEGRATION-OF-MEMORY-Dali-Long-Sleeve-Shirt-Mens-XL-100157037

MagisTéRio de LiTeRaTuRa

Posted in Crítica Literária, Euclides da Cunha, Fábio Lucas, Leitura, literatura, Literatura Brasileira, Professor on 10 outubro, 2009 by Marco Aqueiva

Fabio Joaquim Betty

Fábio Lucas (ao centro); Joaquim Botelho (à esquerda) e Beth Vidigal (à direita)

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por Marco Aqueiva

É inexplicável quanto nos valem os livros para viver. As palavras exatas de Montaigne não me pertencem infelizmente à memória. Só Deus sabe o quanto me dói na carne apreciar tanto um texto (um poema sobretudo) e muitas vezes não conseguir retê-lo magicamente exato como um eco perene e sempre original. É inexplicável o quanto nos vale a palavra para viver. Sim, é verdade que as palavras se dissipam muitas vezes em papéis e vozes bífidas. Falsas alegrias e dores são por vezes escovadas e escondem intenções escusas. Tudo isso parece verdade, e já se disse que a mentira e seu contrário celebram igualmente aniversários, formaturas, promoções, glórias e homenagens.

Por isso mesmo, faço uma pequena correção de percurso e digo que é inexplicável mesmo o quanto nos vale a vida e os livros quando o tempo é o nosso tempo. O nosso tempo parece ser marcado, de um lado, pelos grandes engodos de uma sociedade fundada no consumo infrene; por outro, e associado visceralmente àquele, parece estar nosso tempo reduzido a imagens prontas que, onipresentes, desarmam os olhos e ameaçam calar toda palavra e reflexão. Não concordo, todavia, com aqueles que alardeiam o fim da literatura. Por outro lado, tenho receio de que a palavra que seguíamos percorrendo volumes continue a ceder ainda mais espaço ao império da imagem a ponto de, alguém disse, trocarmos as letras pelos emoticons e afins.

Porque a motivação destas linhas é sim a literatura que se compõe de e na vida, distribuir literatura é tarefa do escritor e do leitor, qualquer que seja ele: o próprio autor, o crítico, o professor. Porque sabemos que a literatura é uma interrogação do escritor lançada à vida, compreendemos o quanto é importante estarmos preparados para ler satisfatoriamente literatura. O quanto é importante ser um leitor ativo, aquele de consciência crítica. Ensinar a ser um leitor ativo, de consciência crítica, é tarefa específica de crítico e professor. É tarefa de professor e crítico dar as condições suficientes para que o ato cognitivo da leitura seja proveitoso ao leitor. Sabemos o quanto a competência em leitura contribui para o desenvolvimento cultural de qualquer país. Comprometer-se, dizia, com o ensino da literatura é profissão. O que podemos dizer de quem há mais de cinqüenta anos (50 anos!) dedica-se à crítica e ao ensino da literatura: Fábio Lucas. Curiosos e reveladores transistores os da história da língua que denunciam o laço de parentesco entre magistério, maestro e mestre, predicados de Fábio Lucas.

 

Por que temer o panegírico quando ele explica mais uma vez a missão cumprida do homem comprometido com sua vocação? Mestre Fábio Lucas, acompanhado de Beth Vidigal e Joaquim Maria Botelho (todos os três diretores da União Brasileira de Escritores), veio palestrar para a Faculdade de Ciências e Letras de Bragança Paulista sobre o legado de Euclides da Cunha, neste ano do centenário de morte do autor de Os Sertões. Todos os três professores, e o foram de tal modo competentes e convincentemente professorais que seguramente contribuíram para o conhecimento deste grande autor da literatura brasileira.

 

Nós, professores e alunos da faculdade, mais a comunidade bragantina, agradecemos.