Archive for the Crítica Literária Category

VaLiSeS meta-PoéTicAs XxxiI

Posted in Crítica, Crítica Literária, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Manuel Alegre, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 22 junho, 2009 by Marco Aqueiva

__VALISE_metapoéticas

 

O homem sentado à mesa

por MANUEL ALEGRE

 

Eis o homem sentado à mesa 
Diante da folha branca. 
Um longo, longo caminho, 
Da vida para a palavra. 

Decantação, purificação 
Para chegar ao pássaro. 

O homem que está à mesa 
Atravessou muitos desertos 
Virou do avesso a certeza 
Naufragou nos mares do sul. 

Entre ditongo e ditongo 
Para chegar ao pássaro 
Tu próprio terás de ser 
Cada vez mais substantivo. 

Irás de sílaba em sílaba 
Ferido por sete espadas 
Diante da folha branca 
Serás fome e serás sede 
Como o homem que está à mesa, 

O homem tão despojado 
Que a si mesmo se transforma 
No pássaro que busca a forma. 

Este é tempo do homem 
perdido na multidão 
Como ser desintegrado 
Na folha branca da cidade. 

Tempo do homem sentado 
À mesa da solidão. 

Há palavras como asas, 
outras mais como raízes. 

O pássaro voa por dentro 
Do homem sentado à mesa. 
Vai de fonema em fonema 
Sobre as cordas dos sentidos. 
  
Se vires o homem que passa 
Como se fosse no ar 
Já sabes: é o homem que está 
Diante da folha branca. 
  
Às vezes levanta vôo 
Para outro espaço, outro azul 
E deixa dentro das sílabas 
Um rastro como de sul. 
  
Quando recordas, 
Quando a tristeza 
toca demais as cordas do coração 
  
Quando um ritmo começa 
Dentro das palavras, 
  
Um sapateado inconfundível 
(Malagueña, malagueña!) 
E a folha branca é uma Espanha 
Para cantar, para dançar 
Para morrer entre sol e sombra 
Às cinco em sangue… 
  
Então verás chegar 
O homem sentado à mesa 
Às cinco en sombra de la tarde 
Malagueña, Malagueña! 
Diante da folha branca 
Como por terras de Espanha. 
  
Nos descampados deste tempo 
Nos aeroportos auto-estradas 
Nos anúncios sob as pontes 
Talvez no marco geodésico 
  
No fumo do lixo ardendo 
No cheiro do alcatrão 
Nos dejectos de lata e plástico 
Nos jornais amarrotados 
Nas barracas sobre a encosta 
Na estrutura de betão 
Sobre o gasóleo e a tristeza 
Sobre a grande poluição 
Onde nem folha ou erva cresce 
  
Seco, duro, estéril tempo 
Diante da folha branca 
Da solidão suburbana 
Onde a multidão se perde 
Entre tristeza e tristeza 
  
Às vezes um coração: 
Talvez um pássaro verde 
Ou talvez só a canção 
Do homem sentado à mesa 
  
O homem que está à mesa 
Tem qualquer coisa que escapa 
Qualquer coisa que o faz ser 
Ausente quando presente 
  
Às vezes como de mar 
Às vezes como de sul 
  
Um certo modo de olhar 
Como atravessando as coisas 
Um certo jeito de quem 
Está sempre para partir. 
  
O homem sentado à mesa 
Não está sentado: caminha 
Navega por sobre os mares 
Ou por dentro de si mesmo. 
  
Vem de longe para longe 
Do passado para agora 
De agora para amanhã 
Está no avesso da hora! 
  
Solta o pássaro, não pára, 
Tem outro espaço, outro azul 
Às vezes como de mar 
Às vezes como de azul 
  
E não se tem a certeza se está do lado de cá 
Ou se está do outro lado, deste lado onde não está. 
Mesmo se sentado à mesa 
Não é possível detê-lo 
O homem que tem um pássaro 
É sempre um homem que passa. 
  
Tem qualquer coisa que nem se sabe 
O quê nem de quem 
  
É talvez um mais além 
Algo que sobe e que voa 
Entre o Aqui e o Ali 
Algo que não se perdoa 
Ao homem quando ele tem 
Um pássaro dentro de si… 
  
Há um tocador a tocar 
As harpas de cada sílaba 
  
Diante da folha branca 
Tudo é guitarra e surpresa. 
  
Escutai o pássaro e o canto 
Do homem sentado à mesa!

AFOrisMOs dA VaLiSe ii

Posted in Aforismos, Crítica Literária, literatura, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 9 junho, 2009 by Marco Aqueiva

_2008_Valise_Aforismos

 

por Jean Cristtus Portela

 

Não se deve ler um poema tendo como primeiro horizonte a representação da realidade imediata, como se ele fosse o comentário das coisas que existem, um apêndice à existência material do mundo (M. Rifatterre). O poema é único, fechado em si, ainda que nele habite a força primordial de todos os poemas já escritos (O. Paz).

 

publicado em http://jeanportela.blogspot.com/

AFOrisMOs dA VaLiSe i

Posted in Aforismos, Antonio Carlos Secchin, Crítica Literária, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 6 junho, 2009 by Marco Aqueiva

_2008_Valise_Aforismos

 

por Antonio Carlos Secchin

 

A poesia representa a fulguração da desordem, o mau caminho do bom senso, o sangramento inestancável da linguagem, não prometendo nada além de rituais para deus nenhum.

Da VaLiSe de FeRnanDo PeSSoa

Posted in Art, arte, Crítica, Crítica Literária, Fernando Pessoa, literatura, Literatura Portuguesa, literature, semiótica on 10 abril, 2009 by Marco Aqueiva

_fernando-pessoa

por Natali Mazuchelli Camargo

 

A marca registrada de Fernando Pessoa consiste em sua heteronímia. À medida que vou conhecendo suas obras e seu desdobrar-se em outras personalidades, cada vez mais me encanto com seu universo particular.

Partindo de Fernando Pessoa ele-mesmo, passando pelos poemas do mestre Alberto Caeiro, lendo as odes de Ricardo Reis e encontrando Álvaro de Campos ao fim desta “trilogia heteronímica”, alcançamos uma concepção muito ampla do que é ser um poeta: livre. Sim, um poeta é livre para criar, não somente a partir de suas próprias emoções ou julgamentos, mas principalmente através da imaginação.

Pessoa, ao criar seus heterônimos, faz isso: liberta-se de suas próprias concepções para ir além, explorando todas as possibilidades. Neste que chamo de universo particular, há a criação de mais de setenta heterônimos! Isso é o mais fascinante em Pessoa, ele não pára de surpreender. Em cada heterônimo encontramos um novo autor, como se fosse de fato uma outra pessoa.

O poeta não revolucionou somente a literatura lusitana, mas tornou-se, sem dúvida nenhuma, um autor universal justamente pela sua inovação. Não tentemos buscar explicações psicológicas que expliquem o seu universo, mas intentemos enxergar em cada heterônimo a manifestação de um poeta que ousou criar e reinventar-se em cada autor que concebia.

Sendo assim, de sua valise, o poeta consegue trazer ao leitor obras tão diferentes entre si, mas que são de somente uma alma: a de Fernando Pessoas

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Arte:Marco_Aqueiva                                                                                                                                                                                             

MACABÉA mal cabe na valise?

Posted in A Hora da Estrela, cinema, clarice lispector, Crítica Literária, literatura, literature, narrativa, poesia, semiótica on 11 setembro, 2008 by Marco Aqueiva

Macabéa que não se acha muita gente

mameluca maluca que mal cabe

fora da própria sombra em vez de dentro

vida desabitada de si mesmo

levada a tapa e a coice do mundo

 

Macabéa, mal se vê nela o que cabe

no espelho em que se vê mal cabe ela

o cachorro quente mal cabe nela

a datilógrafa nortista virgem

a estrela de mil pontas, o amarelo

 

Mal se vê ou se sente o que é ela

mal cabem nossos olhos cegos sobre

ela – um canto sem sombra Macabéa

 

(pronto, passou a estrela de mil pontas)

 

E Macabéa por não ter existido

irradia sobre nós outro destino

outro enredo ou brilho? Repousemos

que Macabéa mal cabe na valise

do leitor seguro de seu futuro

        

        Marco Aqueiva

Macabéa na Valise: collage por Marco Aqueiva a partir de imagens de Marcélia Cartaxo e José Dumont do filme A hora da estrela, dirigido por Suzana Amaral.