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A busca na VaLiSe de Hilda Hilst

Posted in Art, arte, Ensaio, Erotismo, escatológico, Hilda Hilst, literatura, literature, semiótica on 4 fevereiro, 2009 by Marco Aqueiva

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Hilda Hilst e a busca pelo Tríplice Acrobata

                                 por Rubens da Cunha

 

Em 4 de Fevereiro de 2004 a morte, a “velhíssima pequenina”,  encontrou Hilda Hilst, “duas fortes mulheres na sua dura hora”, como ela escreveu em Da morte. Odes Mínimas. Foram quase 50 anos dedicados à escrita de uma das mais provocadoras obras literárias do cenário contemporâneo brasileiro.

Na década de 60, depois da leitura de “Carta a El Grecco” de Nikos Kazantzakis, Hilda resolveu se afastar de uma vida social intensa para se dedicar unicamente à literatura. Começou a pensar que não haveria mais tempo para dizer tudo o que precisava dizer. Construiu uma casa nos arredores de Campinas- SP, a Casa do Sol, e a partir desse momento deu-se início a viagem de Hilda ao cerne da palavra, para tentar resolver o principal tema de sua obra: a busca por Deus. Para isso, ela traça dois percursos: a poesia e a prosa.

Na poesia, Hilda seguiu um caminho mais seguro, mantendo sempre a linguagem elevada, aproximada de características clássicas, como as cantigas de amor e de amigo. Livros como Jubilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), Da morte. Odes Mínimas (1980), Poemas Malditos, Gozosos e Devotos (1984) Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995), entre outra dezena de títulos, demonstram uma poeta dona de versos hipnotizadores. A voz dos poemas de Hilda é quase sempre a da mulher que espera, que dialoga com alguém que está sempre de partida, ou para chegar, mas nunca presente. O amado, a poesia, a morte, Deus, fundem-se no canto hilstiano demonstrando a beleza e a melancolia dessa ausência.

Mas foi na prosa o espaço escolhido para os embates, as grandes provocações, os encontros entre o nojo e o sublime, a escatologia, o delírio da linguagem. A prosa de Hilda foi a causadora de alguns adjetivos que a acompanharam, principalmente na fase final da vida: a velha louca, devassa, pornográfica, a escritora maldita e difícil.

O medo da morte, a velhice, o sexo, a loucura, a metalinguagem, são os elementos principais usados por Hilda na busca por Deus. Os textos vêm sempre repletos de referências literárias, filosóficas, religiosas, são densos porque escritos em fluxo descontínuo, entremeados por poemas, diálogos, digressões. O narrador quase nunca é definido, o foco narrativo muda constantemente, estamos dentro de cabeças perturbadas, geralmente tripartidas: “eu sou três, eu amo Ruisis e amo Ruiska, odeio Ruisis e odeio Ruiska, amodeio Rukah” grita Ruiska, personagem de Fluxo, do livro inicial em prosa Fluxo-Floema, publicado em 1970. Estamos dentro de vozes externas e internas, de pensamentos velozes e conturbados, capazes de nos tirar o fôlego e todas as certezas. Ruiska, Qadós, Agda, Hillé, Tadeu, Crasso, Karl, Vitório, são algumas dos personagens-máscara de Hilda. Muitos são escritores, todos são preenchidos pela ideia obsessiva da busca por Deus.

Outro ponto marcante dessa obra é o erotismo, sempre presente, no entanto aprofundado na famosa trilogia pornográfica: O caderno Rosa de Lori Lambi (1990), Contos de Escárnio. Textos Grotescos. (1990) e Cartas de um Sedutor (1991), três livros que causaram polêmica porque num primeiro momento acreditou-se que a grande escritora tinha se tornado uma escritora pornográfica, superficial. Ledo engano, Hilda apenas aprofundou uma característica essencial de sua obra, o erotismo, e adensou o humor escrachado que já vinha praticando anteriormente. O que temos são três livros em que todas as questões essenciais de Hilda permanecem inalteradas. A diferença é que essas questões são colocadas enquanto os personagens fornicam, ou fodem, para usar um termo mais Hilstiano.

O último livro de Hilda foi Estar Sendo. Ter Sido. (1995) uma espécie de testamento literário, onde se encontraram todos os gêneros, as buscas, e muitos dos personagens anteriores. Estar Sendo. Ter Sido. fecha o projeto da busca com a seguinte constatação decepcionada: “… minha vontade de livrar-me de todos e só encontrar o Cara-mínima. afinal fomos feitos pra quê, hen? afinal você aprende aprende, quando está tudo pertinho da compreensão, você só sabe que já vai morrer. que judiaria! que terror! o homem todo aprumado diz de repente: quase que já sei, e aí aquela explosão, aquele vômito, alguns estertores, babas, alguns coices, um jato de excremento e pssss… o homem foi-se.”

Para chegar a essa conclusão, Hilda Hilst escreveu mais de 30 livros, carregou a amargura de ser pouco lida, pouco compreendida, mas manteve-se sempre fiel à palavra. Prova disso está nos versos iniciais de Amavisse (1989) que é também um resumo de si mesma e de sua busca:

 

Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia

quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível

porque de barro e palha tem sido essa viagem

que faço a sós comigo. Isenta de traçado

ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem

hei de levar apenas vertigem e fé:

para teu corpo de luz, dois fardos breves.

Deixarei palavras e cantigas. E movediças

embaçadas vias de ilusão.

Não cantei cotidianos. Só a cantei a ti

Pássaro-Poesia

e a paisagem-limite: o fosso, o extremo

a convulsão do homem.

 

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Rubens da Cunha, poeta, cronista do Jornal A Notícia, caderno Anexo, mestrando em literatura pela UFSC.

 

viagem

Ele dizia:

Fugir! Largar a vela da saudade!

Jogar sobre as pupilas cansadas das insônias

a paisagem das ilhas e dos mares…

Corrigir enquanto é tempo e o sangue corre célere nas veias

O erro da quietude conformista!

                                  Sérgio Milliet

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Imagens: Magritte, Monet e Gauguin por Marco Aqueiva

PerVERsões na VaLiSe – enTÃO o DESfecho !

Posted in Antropofagia, Art, arte, Belo escatológico, conto, escatológico, literatura, literature, narrativa, Pós-antropofagia, Perversão, semiótica on 14 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Os assassinos e o juiz

por Carlos Pessoa Rosa

 

Atentos aos cantos e às imagens santas, poucos peregrinos reparavam o conteúdo da banca improvisada. Os não tão fiéis, diante da carne em início de putrefação, faziam o sinal da cruz sussurrando cruz-credo e seguiam o séquito em veneração às imagens cristãs, mais devotos que antes.

O que poderiam fazer ali três sanguinários, frios assassinos, com as partes de duas – que me permitam os mais pudicos – putas que encontraram na rua e esquartejaram como não se faz nem com um animal, com as mãos ainda sujas de sangue, distantes da fé que escorria diante dos olhos, fiéis nunca os mesmos, como as águas de um rio?

Procuravam o diabo segundo a receita do sujeito dos batuques do terreiro que frequentavam, único modo de expurgarem a praga que caíra sobre eles. Disse-lhes o mirrado de branco e charuto vagabundo na boca, em transe: vai fio, pega duas muié de rua, separa as parte e dê de cumê aos rato, a sobra coloqui na rua onde vai passá a pocissã, o que o diabo aparece…

A carne apodrecia quando um dos sectários aproximou-se dos três, observou atentamente os pedaços, remexeu até encontrar o que procurava. Os companheiros entreolharam-se e, tal como falavam a mesma língua, tiveram idêntico pensamento: afinal, o que faria o diabo com a buceta de duas putas?

Quando a coisamá, sem chifre ou rabo, perguntou-lhes o preço, o mais velho foi logo dizendo, como haviam sido orientados no terreiro, que Era de graça, pagamento de dívida, prá não si preocupá. O comprador seguiu, então, sentido contrário ao culto, sendo observado pelos três que ainda acreditavam ver o rabinho balançando no ar, mas que um longo casaco não permitiria enxergar. Satisfeitos, assim que o diabo desapareceu na dobra da rua, certos que haviam liquidado a dívida com o capeta, jogaram todo o resto no bueiro próximo e saíram dali para um boteco, onde tomaram algumas pingas e o acerto foi uma dezena de balas no corpo do dono.

Não saberiam, nem precisava, que o sujeito era um fiel respeitador do dízimo, assíduo nas missas, respeitado publicamente e profissionalmente, dono de um martelo que fazia cumprir a lei com rigor, mas que tinha lá sua perversão. Leitor de Guillaume Apollinaire, não o pensador, mas o escritor de “As onze mil varas”: Aqui jaz o príncipe Vibescu/ Único amante das onze mil varas/ Valeria, melhor, passante, saiba disto, / Desvirginar as onze mil virgens.

Como o livro chegara até ele, já não sabia, mas era certa, à época, a timidez e a dificuldade de se aproximar das mulheres. Aquele parágrafo no livro, despertou-lhe estranhas fantasias com cadáveres: Mony espancou então aquele traseiro que se revolvia e cujos lábios da buceta engoliam e vomitavam celeremente a coluna cadavérica.

Muitos crimes cometidos em causa própria, enterrou no calabouço, com réu julgado e condenado por ele mesmo, mas inocente. Foi a oferta de venda de cadáver plastificado pelo médico alemão Gunther Von Hagens que levantou a possibilidade de não correr tantos riscos diante de uma tara que se transformara em uma possessão, com necessidade diária de satisfazê-la. Conseguiu, então, junto aos pares, argumentando interesse científico e médico legal, um estágio no serviço do patologista, o que lhe permitiu conhecer toda a técnica.

Voltou decidido a plastificar vaginas, teria seu problema resolvido, o que não esperava era encontrá-las à venda na rua, durante a procissão, vendida por três sujeitos de índole assassina, conhecia-os pelo cheiro e a expressão que carregavam no rosto, aquele ar de sujeito sem tempo, tão própria dos coveiros, mas que, diferentemente destes, nada lhe cobraram para ter o objeto de desejo. Em casa, retirou o casaco, levou as duas vaginas para uma oficina no fundo do quintal, retirou o ar presente na carne e plastificou o sexo das duas putas.

Os marginais foram presos meses depois, incertos de terem vendido a carne ao diabo, dúvida desvendada no dia do julgamento. Tinham diante deles, dando o veredicto, aquele que pensavam ser o capeta…

Moral da história: Um cu deve ter cheiro de cu/ E não de água de colônia…

 

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Perversões na VaLiSe – quando o desfecho?

Posted in Antropofagia, Art, arte, escatológico on 13 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Quem sabe, saberá mesmo de perversões?

A vida sabe,  saberá do opalão que guincha no asfalto bruto?

Sabe saberá dos três brutos homens que em mesas bem toalhadas estendem a formosura fendida esquartejada aos convivas engravatados?

— Domingo, 14, a conclusão desta short story.

Perversões na VaLiSe IV

Posted in Antropofagia, Art, arte, conto, escatológico, literatura, literature, Perversão, semiótica on 12 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

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Arte: Marco Aqueiva à base de olhares focados em Buñuel, Santa Maria Egipcíaca e Opalão.

(3) Sob os olhos do terceiro

por Carmen Presotto

       ———————-

Um abraço insuspeito nossa amizade.

 

Triste, no entanto, no corpo apenas as marcas do duelo…

 

Éramos três

era um Opala Preto

era um domingo à noite

 

Nas ruas, apenas os que abominam o Fantástico

ou enrolam as bandeiras suadas do futebol…

 

É!

 

Como dizer a eles que, mesmo sofrido, pior era nossa Solidão dividida a três.

 

Ela, nem mesmo Opala tinha para recontar os mal-ditos encontros de lataria.

Isso mesmo!

eles são os mesmos que em segundos a delatariam, ou mulher não seria isso: um tiro alvo ao serial 3d?

Então,mesmo que doa, assim, ela Existe…

 

Bem, há os que não assistem o sempre-fantástico e preferem outras peladas, mas desses não temos mais do que rastros dos amortecedores… e quer saber?

 

Já está tarde, amanhã, é uma palavra sempre de nativaIdade e numa época em que o sexo não tem mais réu…, deixemos tudo com Nelson Rodrigues.

 

Sim!

 

Ao escrever, guisadinho e feijoada d’elas, ainda faremos canapés de olas bem calçadas, em Ondas Fantásticas…

 

Perversões na valise III

Posted in Art, arte, conto, escatológico, literatura, literature, Pós-antropofagia, Perversão, semiótica on 10 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

 

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(2) Sonhos do segundo

Cunhé cunhé cunhé cunhé. Minha vó, dá perninha de moça pra mim comer. Só tem papo de anjo, filhinho. Mas falta calda de fruta. Assim, fiozinho, quando serpente der o bote no descampado verde, traga melão, melancia, moranguinho. Antes vá lá no chão batido e pegue uns trocinhos de carvão. Não se esqueça de pôr seu narizinho de ciclope e levar a klaxon de seu avô carcamano. Põe dez real de gasosa que ninguém segura o opalão.

 

Alegria, alegria, não vim ao mundo pra ser pedra. Ninguém segura este opalão. Cracatá cracatá cracatá – melão melancia moranguinho – asa de galinha miúdos e toucinho. Cracatá cracatá cracatá. Não vim ao mundo pra ser pedra. Ninguém segura este opalão.

 

Encontrou dois enormes melões com olhos de crack, mais um figura de falências e protestos. Foi em frente dispensando a ambição robusta.

 

A melancia caiu-lhe no capô ameaçando a visibilidade. Deitou-lhe fora já na floração da vulva. Como ir além se as paisagens não se vêem tamanho o pandeiro aberto?

 

A terceira invadiu-lhe a mata resumida da tela. Sorriso, lagartixo e espadachim, fartando-se atracado a moranguinho. Chupou-lhe o penacho os bigodes e os pêlos de onde saiu ainda menino ainda pálido e magro, ainda em seu opalão preto, atrás de sua história. Atrás das frutas, com olho torto nos passarinhos e no pomar.

 

Alegria, alegria, sempre diz Eros. Pão com ovo ou banana no pão.

Não vim ao mundo para ser pedra. Cunhé cunhé cunhé cunhé.

Texto e Arte: Marco Aqueiva

Perversões na Valise I: – Os três HoMeNS, suas VaLiSeS e o OpaLÃO PREto

Posted in Art, arte, conto, escatológico, Pós-antropofagia, semiótica on 5 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Valise de onde a CID-11

A Carlos Pessoa Rosa

por Marco Aqueiva

 

Os três homens entraram no Opalão preto. Cada um deles com sua valise. Recolheram a primeira vagabunda logo na Aurora. Deram a volta e, no mesmo lugar, abordaram a segunda, que, resistindo, obrigou o maior deles a dar-lhe um pescoção e jogá-la para dentro. São João à frente, rodaram muito até o Tremembé. Pararam num galpão abandonado. Um dos homens abriu sua valise e tirou dela um sonho voraz que lhe estendeu uma banqueta, uma enorme lona preta e um alicate. Um por um os dentes de cada uma das putas foi retirado. O mais velho não perdeu tempo. Sentado na banqueta, tirou da valise a câmera digital. O terceiro, que carregava a maior das valises, trancou as duas no porta-malas com dúzia e meia de famintos filhotes de ratazana por uns bons vinte minutos.

 

Já caía o crepúsculo, quando, com um triste sorriso de mártir, os três artífices da paixão retornaram ofertando o que semelhava vagamente a ventre sexo vísceras seios, em praça pública, numa barraquinha de lona preta, aos peregrinos em romaria à gruta de Santa Maria Egipcíaca.

 

Ao fim, discretamente, o Opalão preto seguiu em frente atirando para trás as continhas finais, dentes, artelhos, orelhas, narizes, rosário de sobras de nudez e santidade, à turba de zumbis viciosos, isolados em frente a simuladores 3D de prazer em tempo real.

Arte: Marco Aqueiva à base de Españoleto, Monica Piloni e brinquedos.