Archive for the fotografia Category

Un sombrero en la VaLiSe

Posted in Art, arte, artes plásticas, fotografia, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Mayte Bayón, Nicolau Saião, poema, poesia, Poetry, semiótica on 7 junho, 2009 by Marco Aqueiva

tn

 

Imagens e poema por NICOLAU SAIÃO

                     (4 flashes de Mayte Bayón)

 

 

Chapéu

 

 

Serve para quase tudo: para honrar, desonrar

os planetas, as putas, os homens.

 

4

Como uma alma disforme, já foi visto

esmagado sob o cu de uma duquesa

sentada num canapé, distante

e distraída. Como a luz, também pode

ser uma figura de retórica.

Levou tiros, rolou

no pó dos pátios, entrou

brutal nas sinagogas; e é sempre um elemento

combinado, composto

de círculos e recordações. Às vezes

tira-se o chapéu se a carteira não presta.

Nunca se concluiu

se verdadeiramente foge às responsabilidades: contudo

é animal capaz para o deserto

de baixo ou de cima

livre na velha terra dos dicionários

ou dos cactos. Raramente é tão-só uma ilusão

ou miragem.

 

tn2

Se nos cai da cabeça

por mera distracção

ou golpe de vento

há sempre alguém que o pise ou o apanhe

o chapéu é que já não é o mesmo

porque entretanto aprendeu muito

sobre como se comportar em sociedade

ou na rua.

                                   

É muito raro ficar

na cabeça dos mortos

ao contrário da camisa

que é de uso obrigatório. Rola sempre

para o lado da aurora

aos arrancos ou com grande doçura

como uma estrela

pendurada

 

num cabide.                                        

 

 

in “OS OBJECTOS INQUIETANTES”

 

3

Nosso guri na valise

Posted in fotografia, literatura, literature, narrativa, política, semiótica on 4 outubro, 2008 by Marco Aqueiva

por Ana Luiza Penha

Papel pesa e muito, descobri  nas muitas viagens feitas. Pesa muito mais quando o papel que abriga tudo, não garante o que nele contém,  sejam promessas em carta de amor,  pedidos de perdão, desculpas esfarrapadas ou códigos quebrados numa época em que a vida humana tem tão pouco valor perante a lei, tão pouca consideração diante dos estatutos criados.

No fundo da valise transitando pelas Prefeituras, Governos de Estado, Secretarias de Estado, estabelecimentos de ensino públicos, professores, Conselhos Tutelares vigora o Estatuto da Criança e Adolescente, num país onde as crianças e adolescentes de periferia temem pelo futuro.

Uma população crescente e crescendo à margem da sociedade que lhe nega o direito à educação, oferece precários recursos  na área da saúde e cultura.

Como acreditar na  sociedade  que escolhe dentre os excluídos numa permanente roda-vida de exclusão.

De quem é o sonho desfeito, a dureza das esquinas, em que pele dói o desamor, as noite violentadas, os sorrisos escavados da podridão do lixo. 

Que  será feito dos curumins, das meninas carvoeiras, das  descascadoras de mandioca, das mães meninas, das sem mães, dos meninos das esquinas.

Quem será este  que  agora lhe assalta e leva consigo a valise de muitas palavras escritas e  poucas cumpridas, roubando de você a paz e suas noites de sono. 

Saibam  a quem interessar possa: ele é o meu guri.  

 

Crédito de Imagem: Collage por Marco Aqueiva a partir de imagem de criança sudanesa, de Kevin Carter, e Madonna col Bambino, de Michelangelo