Archive for the Infância Category

a VaLiSe aMaReLa eNcanTaDa

Posted in Art, arte, artes plásticas, crônica, Infância, Leitura, literatura, semiótica on 20 fevereiro, 2010 by Marco Aqueiva

 

A VALISE AMARELA ENCANTADA 

por Tânia Du Bois

 

         Na valise amarela carregavam tudo das crianças, enquanto bebês. Depois, foi transformada em biblioteca ambulante e, por isso, encantada e indispensável na vida de Júlia e Luísa.

         As crianças adoram sonhar. A imaginação infantil se apresenta em diversas situações, sendo uma delas o hábito pela leitura ou o seu acompanhamento (fundamental para o desenvolvimento infantil).

         Júlia (4 anos) e Luísa (2 anos) carregam sempre a valise amarela. Ela é pequena, mas repleta de grandes obras, como os clássicos da literatura infantil, em que Luísa, ao ouvir a leitura d’O Soldadinho de Chumbo, cria novo rosto, muda o personagem, e o chama de A Bailarina de Chumbo. Ou as princesas que encantam a vida de bailarina de Júlia. Os contos do Fundo do Baú, Fábulas de Ouro, as histórias de Monteiro Lobato.

         Júlia e Luísa são donas de imaginação que vai às alturas, incorporam os super-heróis a cada momento. Quando uma história lhes é contada, há trocas emocionais e, nessas ocasiões, é que verificamos a boa influência da valise amarela em suas vidas.

         Na valise encantada encontram-se, entre tantos escritores, esses que são verdadeiros mágicos por transformarem tudo em motivo para a criação, como:

Ruth Rocha – faz uma arte entrelaçada; Ana Maria Machado – Eu era um dragão; Maria Clara Machado – palavras novas em estilo simples e claro, com divertido ritmo, Lila e Sibila na Praia; Cecília Meireles – Isto ou Aquilo; Tatiana Belinki – Limeriques, histórias contadas em 5 linhas, ritmadas e bem maluquinhas. 

         Ainda, Ziraldo, “A letra N e o nascimento da Noite” – “A noite é o casamento / da letra N e de Oito…” Carlos Nejar, “As águas que conversam” – “Andar em roda / gigante / no tenro alpendre / das ondas…” José Saramago, “A maior flor do mundo” – “Era uma flor… E como este menino era especial de história, achou que tinha que salvar a flor…” Chico Buarque, “Chapeuzinho Amarelo” – “Tinha medo de tudo, … Ouvia conto de fada e estremecia. Depois, acabou o medo e ele ficou só com o lobo…” Gabriel Garcia Márquez, “A luz é como a água” – “Totó me perguntou como é que a luz acendia, só com a gente apertando um botão… A luz é como a água – respondi – A gente abre a torneira e sai…” 

         A valise amarela é poderosa porque contém esses e tantos outros consagrados da literatura infantil. É a sinfonia que contagia Ju e Lu a participarem dessa viagem sem fim que é ter a vida como um palco.

         Elas curtem, brincam e conversam com os livros e seus personagens. Fazem da sua casa um picadeiro, onde cada uma apresenta uma atração diferente. Arregalam os olhos e deixam o coração, a emoção, outra vez, rodopiar no circo da imaginação, como passarinho a bater as asas em uma orquestra.

         Além de se divertirem, a fantasia faz com que elas compreendam e aceitem o mundo em que habitam e a lidar com as “bruxas”.

         Luísa e Júlia não estão apenas carregando a valise amarela, estão, através do lúdico, aprendendo a viver.

         Saramago pergunta: “E se as histórias para as crianças passassem a ser leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?”

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Imagem: Marco Aqueiva

 

VaLiSeS à InFâNciA iv

Posted in Art, arte, conto, Infância, literatura, literature, semiótica on 4 março, 2009 by Marco Aqueiva

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CAIXA DE MEMÓRIAS:  OS TACOS

por HENRIETTE EFFENBERGER

 

 

 

Poucas vezes ela se lembrava de seu passado. Não havia nada mais desgastante do que conversas nostálgicas, lembranças adormecidas que afloram, sentimentos esquecidos que retornam com força  vigor, a despeito de se terem passado mais de quarenta anos…

Sua vida é o presente – costumava dizer… Jamais permitiu que se falasse em coisas do nosso tempo. Nosso tempo é agora!  É hoje! É o tempo em que estamos vivendo, oras !

         Porém, naquele dia, começou a revirar a velha caixa de memórias. Escolheu, ao acaso, uma data muito remota, completamente amarelada pelo tempo. Aos poucos as cores foram voltando até se tornarem cada vez mais forte e adquirirem vida.

Lembrou-se de que tinha por volta de cinco anos de idade e um machucado no joelho, que sangrava e ardia. Podia sentir as grossas lágrimas escorrendo-lhe pelas faces; subitamente o nariz começou a respingar, a garganta doía, o peito apertava-se de dor e medo. Lembrou-se ainda de uma mão forte e ao mesmo tempo carinhosa lavando-lhe a ferida; recordava-se de como era fria a água, de como ardia o mercúrio-cromo e da suavidade do algodão…

Os soluços começaram a espaçar-se, as lágrimas estancavam-se pouco a pouco, a mesma mão forte ajudou-lhe a assoar o nariz com um providencial lenço de papel, surgido não se sabe de onde, e ela começou a respirar aliviada. Ouvia uma voz que lhe dizia: Antes de casar, sara! Encostou sua cabeça no peito amigo e enquanto seus cabelos eram acariciados, uma sonolência a invadiu e ela quase cochilou, desfrutando daquele momento de segurança, o qual, durante toda sua vida, nunca mais se repetiria com a mesma intensidade…

Sentiu, outra vez, grossas lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto, a garganta doendo, o peito apertado, além de uma insistente coriza.

Instintivamente, passou as mãos no joelho em busca da cicatriz, que já tinha desaparecido, assim como o frescor da água, o cheiro do mercúrio cromo, a suavidade do algodão e as mãos do seu avô…

 

Henriette Effenberger – do livro Linhas Tortas – 2008

Três VaLiSeS à InFâNciA ii

Posted in Blasnavski, Infância, literatura, literature, poesia, semiótica, Valises on 14 fevereiro, 2009 by Marco Aqueiva

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Blasnavski

 

DE CASEBRES

por VERA LÚCIA DE OLIVEIRA

 

de casebres

era feita a infância

de paredes brancas

de quintais inchados de pássaros

 

e uma dor lenta

nalgum lugar

que nem mãe nem pai

sabiam de noite ninar

 

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in Lagartixa – Revista de Poesia – 2003

Três VaLiSeS à InFâNciA i

Posted in conto, Infância, literatura, literature, Mario Campello, semiótica, Valises on 14 fevereiro, 2009 by Marco Aqueiva

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CAIXA DE MEMÓRIAS:  OS TACOS

por HENRIETTE EFFENBERGER

        

         O chão da sala de minha casa era recoberto por tacos de madeira pequenos, escuros  e cuidadosamente encerados. Talvez, pelos muitos anos de uso ou, quem sabe,  porque tenham sido mal colocados, alguns deles se soltaram e eu, menina, imaginava que debaixo do piso de cimento estaria enterrado um tesouro.

 Mas o cimento era duro e impossível de ser perfurado, apesar de todos meus esforços. E eu me utilizava  de pedaços de pau, pedra ou qualquer outro objeto pontiagudo que me caísse às mãos! Para mim continuava o mistério: e se  não fosse um tesouro e sim uma passagem secreta para o reino mágico de fadas e duendes minúsculos?

         Às vezes, acontecia de alguma formiga se refugiar sob o taco solto e  o fato aguçava minha imaginação e fortalecia minhas conjecturas de criança, imaginando  que poderia  montar o inseto como se fosse um cavalo e descobrir através das frestas e rachaduras do cimento os segredos tão bem guardados e as fadas que me realizariam as vontades. Chegava a me angustiar  ante a possibilidade de me ser permitida a expressão de apenas um desejo e me atormentava a  dúvida entre pedir a boneca “Amiguinha” ou uma  bicicleta (na qual nunca aprendi a andar).

         Mas eu tinha outros desejos  bem mais fáceis de serem atendidos: não precisar comer toda a comida que me punham no prato, livrar-me das botas pesadas que corrigiriam meus pés chatos” ou ter cabelos compridos que nunca precisassem ser desembaraçados…

         Fantasiava também que  a fada me daria o poder de fazer com que determinadas pessoas desaparecessem para sempre e eu já via  indo pelos ares a vizinha gorda de sorriso asqueroso, o homem da carrocinha que recolhia  cachorros e o dono do açougue com seu avental sujo de sangue…

         Jamais consegui localizar o tesouro secreto. As fadas e os duendes também nunca me apareceram. Nem mesmo, quando eu já não tinha nenhuma dúvida sobre qual seria meu único e definitivo desejo : ter meu pai, de novo, em casa.

 

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Do LIVRO  LINHAS TORTAS  – 2008