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VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxii

Posted in João Cabral, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Murilo Mendes, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 20 maio, 2009 by Marco Aqueiva

João cabral

 

Murilograma a João Cabral de Melo Neto

por Murilo Mendes

 

2

 

Sim: não é fácil chamar-se
João Cabral de Melo Neto.
Força é ser engenheiro
Mesmo sem curso & diploma,
Pernambucano espanhol
Vendo a vida sem dissímulo;

Construir linguagem enxuta
Mantendo-a na precisão,
Articular a poesia
Em densa forma de quatro,
Em ritmos de ordem serial;
Aderir ao próprio texto
Com o corpo, escrever com o
Corpo;
Exato que nem uma faca.

Força é abolir o abstrato,
Encarnar poesia física,
Apreender coisa real,
Planificar o finito;

Conhecer o vivo do homem
Até o mais fundo do osso,
Desde o nove de um Mondrian
Até o zero dum cassaco
Espremido pelos homens
Na sua negra engrenagem;
Radiografar a miséria
Consentida, estimulada
Pelos donos da direita,
Levantar-se contra a fome
Sem retórica gestual;

 

Descobrir o ovo, a raiz,
o núcleo, o germe do objeto;

Ter linguagem contundente,
“A palo seco”; e portar
– Sem nenhum superlativo –
Olho e mão superlativos
Com o suplente microscópio.

 

                   Roma 1964

 

(*(*(*(*(*(*)*)*)*)*)*)

 

A um poeta

 

         A Yhana Riobueno

 

por Antonio Carlos Secchin

 

Há poemas que transportam

num tapete rente ao chão.

Poemas, menos que escritos,

bordados, talvez, a mão.

 

Outros há, mais indomados,

que são contra e através,

coisa arisca e tortuosa,

versos quebrados pelos pés.

 

E há poemas muito impuros,

onde não vale a demão.

Deles brotam versos duros,

poemas para ferro e João.

 

(*(*(*(*(*(*)*)*)*)*)*)

 

Esmero

por Edson Cruz

 

retocar a canção

chegar até

 

a imperfeição

 

de mero josé

a impossível joão

 

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Collage por Marco Aqueiva

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxi

Posted in Art, arte, artes plásticas, João Cabral, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Paul Klee, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 17 maio, 2009 by Marco Aqueiva

Paul Klee_highway_valises copy

 

A Lição de Poesia

por JOÃO CABRAL DE MELO NETO

 

1

Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2

A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3

A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis – naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

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Imagem: Paul Klee tratado à base de Valises por Marco Aqueiva