Archive for the Liberdade Category

Rajadas soldados ausência and tango & mazurcas

Posted in Guerra, Liberdade, literatura, Literatura Brasileira, literature, poema, poesia, Poetry, semiótica on 29 junho, 2009 by Marco Aqueiva

ernst

 

O Retrogesto

por PEDRO DU BOIS

 

O soldado assenta o fuzil ao ombro e dispara

a esmo, o tiro pela culatra destrói seu corpo:

o defeito como negócio rende ao dono

lucros para corromper o burocrata

que em refrigerado escritório aspira

se tornar gerente e garante

ao vendedor astuto a metade na divisão

escabrosa das atividades

 

o soldado sofre a explosão do osso

sob a carne exposta ao relento

e a primeira mosca se aproxima

 

o chefe em carro oficial – ar refrigerado

e motorista – segue ao encontro do assessor

do ministro (que também viaja)

 

nenhuma viagem tem por destino o ambulatório

do hospital improvisado onde o corpo

exausto do soldado não lhe permite saber

a extensão da perda: o braço e parte

do pulmão em retro-descarga

 

a família do ministro honrada com o convite

do alto escalão: a festa nos salões do palácio

 

o médico trata os ferimentos do soldado e sonha

palácios encantados intercalados em monstros

e florestas habitadas por gnomos: a droga cessa

o efeito: a cabeça estala e o mundo cai sobre os ombros

em depressão: treme as mãos e os olhos embaçam

 

fogos de artifício iluminam a comemoração

pela guerra em laços de vitória:

 

mais algumas ações de alcance limitado

e os soldados voltarão para casa

 

ilesos como saíram

inúteis como se foram

imersos como estavam

no que não havia

 

o brinde transmitido pelas ondas de rádio

chega ao soldado aos poucos acordado

na ausência de sua parte

 

o médico acode aos gritos desencontrados

 

o brinde explode bebidas em taças cristalizadas

de imaculadas imagens

 

o soldado geme a perda

o médico repensa a armadilha

o filho do fabricante das armas que explodem

ao contrário agita a bandeira desfraldada em papel

e madeira: pátria conquistada.

 

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Imagem: Max Ernst

… ou maLaS sem aLçaS

Posted in crônica, Liberdade, literatura, literature, provocações on 2 abril, 2009 by Marco Aqueiva

giorgiodechirico

Giorgio De Chirico

Viagem para o centro do poder, ou malas sem alças.

por Nilza Amaral

  

O Poder deslumbra, insinua, “ambush”, cativa, demanda, desmanda, vislumbra, domina, escraviza, corrompe, corrói, impele, repele, angaria,  arrecada, consome.

O Poder tem armas: mata, desnuda, estupra, desfigura, maquia, finge, dita, desdita, embrutece, humilha, dobra.

O poder elimina a sociedade, e o indivíduo. Anula o homem, estatela.

O poder reflete inércia, depressão, brutalidade. O mundo gravita em torno do Poder.

O trono do poder refulge, atrai, convida, alucina. Os meios para o poder são todos válidos: a usurpação, a enganação, as trocas, as armação, a religião, a fraqueza humana. A Natureza esvazia-se de sensibilidade, enche-se de hostilidade. Vinga-se. Transforma-se. O Poder é passageiro. O tempo do Poder não é o nosso tempo. É o tempo dos deuses. O Poder é o brinquedo dos deuses. Até que eles se cansem e transformem o Poder em Decadência. Essa substituta do Poder é a razão e a consequência dos poderosos. E chega-se a uma verdade: toda ação tem uma reação contrária. A reação é o Caos.

Porém, àquele estadista nada disso importava, ou achava que com ele  jamais aconteceria, afinal estava pensando no Povo, ignorando, ou querendo ignorar, que o Povo é a mola propulsora do Poder; é pelo Povo que os heróis se arriscam, se sobrepujam, é com  o aval dele, que se enfrentam.

Em se expondo, se infiltrando, trazendo para si a atenção do mundo, proclamando que sua única intenção era salvaguardar a cidadania de uma população sofrida e esquecida pela humanidade, apoiado pelos órgãos da paz mundial que talvez com a melhor das intenções buscavam um líder para seus propósitos  ou uma justificativa para sua existência.

Sua figura tornou-se conhecida da população, todos admiravam aquele homem desprendido, belo como um deus que largava o conforto de seu lar, a vida cômoda que conseguira, para dedicar-se a pessoas desconhecidas, do país desconhecido  apenas lembrado como um depósito de miseráveis.

Na verdade  o Estadista não percebia a manipulação de sua mente agindo sub-repticiamente,  muito menos desconfiava que seguia a máxima antiga de “em terra de cegos quem tem um olho é rei”. Não, ele  não se aproveitaria do Poder se o conquistasse. Pensava nas crianças abandonadas pelas ruas das cidades, órfãos da guerra sem sentido, que explodira naquela minúscula nação que morria de fome. Muitos lutavam  ali  pelo Poder de ditar as regras de como distribuir felicidade na terra de ninguém.

Impulsionado pela febre que acomete o corpo, pela excitação e pela ambição, inspirado pelas leituras shakespeareanas, pelas aventuras épicas de heróis medievais, julgou-se um novo salvador. E assim arregaçou as mangas. Escolheu adeptos, nacionalizou empresas estrangeiras, construiu centros médicos, oficializou o ensino e a saúde. O Povo não questionava porque aquele homem que passou a chamar de protetor lutava por ele,  e não pelos carentes de seu país tão necessitados quanto ele. Ele possuía a resposta: solidariedade entre irmãos da mesma raça.

O Povo entusiasmado pela expectativa de uma vida melhor, aclamava e aplaudia. Contra a massa não há resistência. Principalmente a massa sofrida e espoliada. O tempo ajudava. Tudo muito rápido.

Instala-se o novo Poder. Exalta-se o herói. As riquezas do país baseiam-se na produção de alimentos  e nas pedras preciosas que proliferam nos veios das montanhas. Em nome do Estado todo o extrativismo permanece no país.

O mundo exterior exige eleições. Querem o Poder da democracia. O Poder da economia baseada no valor faccioso do dinheiro. Na importação e exportação. A resistência provoca invasões e proclama direitos. A necessidade da guerra para a paz exige resposta.

O Poder enfraquece. O Povo exige direitos. O estadista está só. A solidão do Poder instala-se, e o herói perde o momento certo de dizer não. O país está à beira do Caos.

Novo salvador, novas regras. O Povo tem novas esperanças. Novas valises. Novas viagens.

 

MAReMAR KAFkaNIAno

Posted in conto, Kafka, Liberdade, literatura, literature, Opressão, semiótica on 11 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

kafka-kfkaniano

por Carlos Pessoa Rosa

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Resolvi mudar o rumo… Sem olhar para trás. Ficar longe das vaidades inúteis. As últimas economias serviram para comprar a passagem. Tiracolo, uma valise. Leve, muito leve. Carrego o essencial, poderia dizer. Se bem que isso nada diria aos outros. Aliás, meus interesses nunca sincronizaram com o comum. Só não esperava por isso. Um sujeito fardado indicando-me um longo corredor. Faço com a cabeça que não concordo. Sinaliza para outro segurança. Achei melhor pegar o atalho. Depois do corredor, um balcão com outro segurança, o sujeito ordena que abra a valise. Perda de tempo, digo-lhe. Inútil tentativa de levá-lo a desistir. É minha função, vamos, abra logo a valise, responde-me, rispidamente. Ao abri-la, percebo certo desconforto no rosto do homem. Afinal, o que é isso? Nada… Como nada, qual o sentido disso? Nenhum… O senhor está a brincar comigo? Não! Então, o que significa isso? O que o senhor carrega nessa valise? Respiro fundo antes de responder: o silêncio. Pare de brincar comigo! Não estou brincando, é tudo o que sobrou de meu passado… O senhor será detido! Detido por carregar o silêncio… o senhor está louco? Detido por não informar adequadamente o que está carregando nessa valise. Mas já lhe disse que carrego o silêncio. O senhor está querendo gozar de mim? Seguranças, levem esse homem, ele está detido. Ainda tentei que me esclarecesse o crime… Preso por não informar ao fisco o que está carregando, sonegação de informação e, possivelmente, de imposto, além do fato de o silêncio não fazer parte da lista de possibilidades da bagagem de qualquer viajante. Apreenderam a valise para averiguações e me jogaram dentro de outro silêncio, o dos presídios, uma sala fria, de cores frias, junto de outras pessoas também detidas, mas não por carregarem uma valise onde se encontrasse o silêncio pessoal. Não demorou para me chamarem. Da valise, restos de couro e o fecho sobre a mesa. Um homem gordo, de rosto rosado, olha-me com desconfiança. O senhor é um terrorista, descobriu uma arma invisível, nos mostre como detectá-la e prometo que o libero. Digo-lhe que ninguém conseguirá apalpar ou enxergar o meu silêncio, que ele não fará mal a ninguém… O senhor talvez seja um terrorista muito bem treinado. Vamos deportá-lo! Não podem fazer isso comigo, gastei minhas últimas economias… Não temos opção. Então, devolva-me o que restou de minha valise. Viu? Praticamente confessa que há algo muito importante nessa valise. Já disse, só carrego meu silêncio. A valise ficará retida para novas averiguações. Sem minha valise eu não saio daqui, vocês terão que me matar. Mataremos, então!

(Mas não sem me devolverem o silêncio, formato de uma valise, está sobre a mesa, que eu pego e saio atravessando as paredes. Ao redor, o silêncio das profundezas, absoluto… kafkaniano.)         

Arte: Marco Aqueiva