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Hamlet na VaLiSe

Posted in Hamlet, literatura, literature, Magritte, poesia, Poetry, semiótica, Shakespeare, teatro on 23 abril, 2009 by Marco Aqueiva

magritte

 

Valise ficcional baseada na cena em que Hamlet e Horácio

observam o coveiro trabalhar.

 

por Régis Closel


Hamlet diz:
Que ofício mais nobre tem aquele senhor, Horácio.
Prepara o último quarto que deitamos para dormir.
Um leito para onde nada levamos, nem somos nós
Perdoados pela terra, que nos oferece aos vermes.

Nascemos com um grande grito e muita alegria,

Despedimo-nos em total silêncio e choro ao redor.

Morrer é apenas isso? Entregar tudo que temos

Àqueles que não cuidarão como nós, enquanto vamos
a Terras da viagem sem volta, o descanso desconhecido.

Quem lembrará que o nobre Hamlet viajou às pressas
Com as despesas pagas pelo próprio irmão??
O que ele carregou para a terra? Nada além do silêncio?
Ou aquilo que não pôde levar junto deixou comigo?

E sem dormir e sem agir não consigo dar a meu pai o descanso.

Somos aquilo que eles deixam em nós: muito mais que bens,
muito mais que posses e criados, meu querido Horário.
Carregamos na vida tudo aquilo que os outros nos deram para suportar.
Faremos isso quando for a nossa vez, como foi feito através dos tempos.
Um homem não é nada sem que deixe para o outro, algo para que ele possa ser lembrado.
Sem essa bagagem, de que viveriam grandes homens? Não de ossos nem de pó.
Vivem de algo mais que o ser humano. Algo mais discreto que o silêncio…

 

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Imagem: Magritte

VaLiSeS meta-PoéTicAs iV

Posted in António Ramos Rosa, Antonio Carlos Secchin, Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa, literature, Magritte, Metalinguagem, Poética, poema, poesia, Poetry on 22 março, 2009 by Marco Aqueiva

cegueira_iluminismo1

 

Biografia

por Antonio Carlos Secchin

 

O poema vai nascendo

num passo que desafia:

numa hora eu já o levo,

outra vez ele me guia.

 

O poema vai nascendo,

mas seu corpo é prematuro,

letra lenta que incendeia

com a carícia de um murro.

 

O poema vai nascendo

sem mão ou mãe que o sustente,

e perverso me contradiz

insuportavelmente.

 

Jorro que engole e segura

o pedaço duro do grito,

o poema vai nascendo,

pombo de pluma e granito.

 

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Eu vi entre as amendoeiras a formosa Astreia

por António Ramos Rosa

 

Escrevo não para saber mas para criar um espaço de palavras

que correspondam à ingenuidade da minha aspiração

que quer pisar um solo de claras pedras e vibrar

ao ritmo de uma duração monótona e solar

equivalente à hora e ao espírito do olvido e da ignorância aberta

É um momento apenas em que as minúsculas janelas subterrâneas

se abrem para o fulgurante repouso de uma matéria adorável

adormecida numa concha de pedra como um corpo imaginado

A graciosa visão do desejo ama este sossego luminoso

e para o prolongar reflui para o seu centro cego

onde recolhe as cintilações e as desenha repousadamente

para que a integridade respire com a indolência de um puro embalo

Tal é a invenção da palavra que se fende como um fruto vermelho

e oferece os gomos de onde escorre o seu sumo de leite e sangue

 

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por Silvana Menezes

 

 

Quero escrever meus versos

No teu corpo nu

Que minhas mãos façam

Sonetos em ti

 

Que minha boca declame

Beijos na hora exata

Da entrega dos amantes

Que o desejo ultrapasse o frevo

 

De uma noite de carnaval em Olinda

E os confetes e serpentinas

Sejam os nossos poros abertos

No calor dos sussurros

 

Quero que você componha

Sua música em mim

E assim, nos tornaremos

Belos, simplesmente

 

Não quero mais saber

De escrever poemas em frios papéis

Quero sim, que minha palavra

Seja apenas esse ato de amor!

Uma VaLiSe contra os olhos

Posted in Magritte, poesia, semiótica, Valises on 8 fevereiro, 2009 by Marco Aqueiva

 

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Magritte

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por Marco Aqueiva

Passantes sem olhos

alheio vaivém

 

Encontrão na esquina

a valise se abre

resvala entre os dedos

uns fios de segredos

 

Alheio vaivém

passantes sem olhos