Archive for the Murilo Mendes Category

VaLiSeS meta-PoéTicAs XxxviiI

Posted in literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Murilo Mendes, Poética, poema, poesia, Poetry on 25 outubro, 2009 by Marco Aqueiva

ojo dios copy

Mais uma partida perdida (mas também ganha)

a Murilo

 

Novíssimo Orfeu

Murilo Mendes 

 

Vou onde a poesia me chama.

O amor é minha biografia,
texto de argila e fogo.

Aves contemporâneas
largam do meu peito
levando recado aos homens.

O mundo alegórico se esvai,
fica esta substância de luta
de onde se descortina a eternidade.

A estrela azul familiar
Vira as costas, foi-se embora!
A poesia sopra onde quer.

 

_+_+_+     ***     +_+_+_

 

 

Controverso

Marco Aqueiva

 

Não sou nem nunca poderei ser quem

concedeu fogo ao homem e o apagou

resgatou-o das águas e o afogou

 

Não: nunca mesmo poderei ser quem

enterrou versos olhos empoeirados

enforcou na palmeira o sabiá

 

Pela última vez digo: não serei

 

o ar na garganta sem chegar ao verso

terra à palma da mão sem continente

água às sombras mais amplas sem moldar

massas de erros torcidos no ano zero

 

: fogo restaurador de chão e inícios

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VaLiSeS meta-PoéTicAs XxxviI

Posted in Art, arte, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Murilo Mendes, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 18 outubro, 2009 by Marco Aqueiva

jupiter prometeu

 

Novíssimo Prometeu

por Murilo Mendes


Eu quis acender o espírito da vida,
Quis refundir meu próprio molde,
Quis conhecer a verdade dos seres, dos elementos;
Me rebelei contra Deus,
Contra o papa, os banqueiros, a escola antiga,
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho,
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas três dimensões:

Então o ditador do mundo
Mandou me prender no Pão de Açúcar:
Vêm esquadrilhas de aviões
Bicar o meu pobre fígado.
Vomito bílis em quantidade,
Contemplo lá embaixo as filhas do mar
Vestidas de maiô, cantando sambas,
Vejo madrugadas e tardes nascerem
– Pureza e simplicidade da vida! –
Mas não posso pedir perdão.

 

+ – + – +  –    __    – + – + – + 

 

Retorno a Murilo Mendes

por Marco Aqueiva

 

Aceitou a lavagem do contraforte
o implante de mármore e granito em suas encostas
a rede de holofotes desvelando seu olhar espesso
a ampliação dos acessos junto às dores de seu corpo

Teria menos espaço para contorcer-se
mas sabia que a dor há séculos rolava na memória
a suportaria com a impassibilidade da pedra
o que daria aos seus nervos e músculos
o equilíbrio sísmico, e seu orgulho se reagigantaria

Microrrecortes fizeram-se em seu corpo
sua pele oferecia-se como papel de paredes do windows-XP
internautas conheciam-se em macroexcursões
– tornou-se um grande site em 3D

Seu fígado foi revirado
porém não se foi além do próprio umbigo

Não poderia continuar aceitando
entre a cerração e a glória esperada
a indiferença

entre o que se ignora e a crescente ignorância
os ossos da indiferença

entre os fios de alta tensão e as parabólicas
o sangue derramado com tanta indiferença

e assim reapareceu a sombra de Murilo Mito

 

—–

Imagem:   Heinrich Friedrich Füger, c. 1817 Prometheus brings Fire to Mankind

 

 

 

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxii

Posted in João Cabral, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Murilo Mendes, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 20 maio, 2009 by Marco Aqueiva

João cabral

 

Murilograma a João Cabral de Melo Neto

por Murilo Mendes

 

2

 

Sim: não é fácil chamar-se
João Cabral de Melo Neto.
Força é ser engenheiro
Mesmo sem curso & diploma,
Pernambucano espanhol
Vendo a vida sem dissímulo;

Construir linguagem enxuta
Mantendo-a na precisão,
Articular a poesia
Em densa forma de quatro,
Em ritmos de ordem serial;
Aderir ao próprio texto
Com o corpo, escrever com o
Corpo;
Exato que nem uma faca.

Força é abolir o abstrato,
Encarnar poesia física,
Apreender coisa real,
Planificar o finito;

Conhecer o vivo do homem
Até o mais fundo do osso,
Desde o nove de um Mondrian
Até o zero dum cassaco
Espremido pelos homens
Na sua negra engrenagem;
Radiografar a miséria
Consentida, estimulada
Pelos donos da direita,
Levantar-se contra a fome
Sem retórica gestual;

 

Descobrir o ovo, a raiz,
o núcleo, o germe do objeto;

Ter linguagem contundente,
“A palo seco”; e portar
– Sem nenhum superlativo –
Olho e mão superlativos
Com o suplente microscópio.

 

                   Roma 1964

 

(*(*(*(*(*(*)*)*)*)*)*)

 

A um poeta

 

         A Yhana Riobueno

 

por Antonio Carlos Secchin

 

Há poemas que transportam

num tapete rente ao chão.

Poemas, menos que escritos,

bordados, talvez, a mão.

 

Outros há, mais indomados,

que são contra e através,

coisa arisca e tortuosa,

versos quebrados pelos pés.

 

E há poemas muito impuros,

onde não vale a demão.

Deles brotam versos duros,

poemas para ferro e João.

 

(*(*(*(*(*(*)*)*)*)*)*)

 

Esmero

por Edson Cruz

 

retocar a canção

chegar até

 

a imperfeição

 

de mero josé

a impossível joão

 

—————————

Collage por Marco Aqueiva

VaLiSeS meta-PoéTicAs ii

Posted in Art, arte, literatura, literature, Metalinguagem, Metamorfoses, Murilo Mendes, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 15 março, 2009 by Marco Aqueiva

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Cancro

por Carlos Pessoa Rosa

 

de que oceanos
estas pedras de ouro?
de que hortas
estes homens de ferro?
de qual poema
esta inspiração papoula?

e o carro
segue no desdentado da pausa
no tom ascendente de crimes estrelares
entre o riso do fruto
e o choro minguante de orquídeas prenhes
que o parto é logo ali
no debruçar do vento alijado de sopros

de que mina
estas águas empoçadas?
de que fonte
estes frutos em ferrugem?
qual papoula
o poeta serviu ao poema?

e a pausa
escorre nos segundos da neve
no frio cadavérico das mesas de alumínio
entre a náusea do feito
e o vômito de um corpo apodrecido
que o fim é logo ali
no tempero de flatos recheados de legumes

: de quando nascentes
aspiram regras de triângulos isósceles
se poema amorfo
não pega doenças venéreas?

 

 

 

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A Criação e o Criador

por Murilo Mendes

 

 

O poema obscuro dorme na pedra:

 

“Levanta-te, toma essência, corpo”.

 

Imediatamente o poema corre na areia,

Sacode os pés onde já nascem asas,

Volta coberto com a espuma do oceano.

 

O poema entrando na cidade

É tentado e socorrido por um demônio,

Abraça-se ao busto de Altair,

Recebe contrastes do mundo inteiro,

Ouve a secreta sinfonia

Em combinação com o céu e os peixes.

 

E agora é ele quem me persegue

Ora branco, ora azul, ora negro,

É ele quem empunha o chicote

Até que o verbo da noite

O faça voltar domado

Ao pó de onde proveio.

 

 

+_+_+_+_+_+_+_+_

 

 

 

A Inicial

por Murilo Mendes

 

 

Os sons transportam o sino.

 

Abro a gaiola do céu,

Dei vida àquela nuvem.

 

As águas me bebem.

 

As criações orgânicas

Que eu levantei do caos

Sobem comigo

Sem o suporte da máquina,

Deixam este exílio composto

De água, terra, fogo e ar.

 

A inicial da minha amada

Surge na blusa do vento.

Refiz pensamentos, galeras…

Enquanto a tarde pousava

O candelabro aos meus pés.