Archive for the narrativa Category

anTeNe-Se na VaLiSe inConSpuRcáVeL (parte Ii)

Posted in Art, arte, Arte engajada, artes plásticas, Carlos Pessoa Rosa, conto, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, Musica cubana, narrativa, prosa ficcional, semiótica, Silvio Rodriguez, Valise 2010, Valises on 29 junho, 2010 by Marco Aqueiva

PITANGAS IMPLODEM MÊNSTRUO 

por Carlos Pessoa Rosa

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lances de escada avançam sobre a língua de fogo. o rei debulha grãos de idéias sobre o tapete vermelho enquanto a mulher rosna melancolias e roça ostras no fundo de saco. há uma chuva melancólica de fim de tarde que abraça o vazio contendo em seu corpo a morte. que túmulo receberá o corpo sorumbático de um rei sem coroa enquanto a mulher gralha a melancolia transgênica em fim de tarde?

(úmida tarde onde repousa um véu crepuscular e o homem é espremido como pasta de dente. de seu interior sai o branco das baratas.)

ao longe estradas descansam mundanas. no céu desponta a Lua diante dos dedos do cego de Diderot. ah, delírios dos impertinentes! da ferradura de Baco, da papoula incandescente da loucura, do pó branco que avassala a ordem das palavras. é da mulher o mênstruo incontido do gozo; do homem a umidade das uretras virgens. há uma escada que sobe sobre as chamas a caminho do inferno, um rei uma rainha um homem uma mulher nos óvulos da noite que nenhuma criança ou poeta alcançam nesta orgia de palavras frases imagens soltas.

(mão de obra é a orgia incandescente da escravidão quando as mãos de miseráveis ardem no calor das injustiças.)

vasculha basculha entorse dor de dente mão no bolso bueiro. plúmbea chove
urubus e rosas. pitangas implodem mênstruo, o clitóris adocicado da boceta dos deuses. o imaginário frestas raios porvir. há uma ave migrante de solo pátrio estrangeiro e a cruz no chamamento. plúmbea chuva ostras e rastros. pássaros gorjeiam gozos. umidade no campo ora. o sino cala a igreja onde Deus imola e o poeta masturba palavras. há palavras soltas no pasto, loucura de Eros, cobra em posição de bote, no aguardo. não demora carrapatos festejam o sangue quente de quem venceu tânatos e as heras continuam a agarrar-se nas paredes.

(natal ao miserável é consumir a falta. dois cães aguardando restos seria mais aceitável, mas são seres humanos os dois de cócoras roçando o fundo de latas na calçada.)

cúmulus em tarde ensoluada, o vento descansa no prado, tudo é silêncio nos galhos e copas das árvores. em algum lugar homens guerreiam (por aqui nem uma bala perdida). cercas blocos argamassa vagas não arredam pé do descanso. meu corpo como churrasco nos vãos dos mistérios, noite se achegando fria à caça de sonhos e pesadelos, arremedos do que na vida claustrofóbico. o diabo arranca água e duas luas de um coco. ao longe o apito de um trem, de uma estrada de ferro inexistente…

(e os viajantes na impossibilidade de um destino.)

 

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Imagem: Marco Aqueiva

Da VaLiSe de Adam Ant

Posted in Art, arte, conto, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, narrativa, semiótica, Valise 2010 on 9 fevereiro, 2010 by Marco Aqueiva

 

Por Carlos Pessoa Rosa

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Odeio o sujeito. Mas seu rosto é fotografia na parede da memória. Ao chegar, eu já me encontrava imobilizada. Nua. Meu corpo suado debaixo de um cone de luz. Já não apertava mais as coxas para esconder o sexo. Mataram qualquer expressão de vergonha. As pernas abertas como as da prostituta que aguarda a próxima moeda; como o cofre da infância. Um metro e sessenta; não mais. Não me esqueço dos passos do coturno, e da valise que depositava sobre a mesa velha e engordurada. Como esquecer o nariz rosáceo e as enormes sobrancelhas negras… As mãos pequenas a abrir a valise sadicamente, com a lentidão das lesmas. De lá retirava o chicote, o alicate, agulhas de diversos tamanhos, velas, fósforos, gel condutor e chumaços de algodão que enfiava em minha boca para que não gritasse. Quando todos os recursos não me levavam a alcaguetar algum companheiro, abria a braguilha, retirava o pau duro – excitava-se com a tortura – e o levava até minha boca. Naquele dia… Ah! Naquele dia, olhava a valise, havia lá um dente e uma unha que me arrancara um pouco antes… Colecionava nossos pedaços. Decidida, mordi com tanta raiva o membro, que guardei comigo sua glande. Hoje vivo em uma cadeira de rodas, fruto do espancamento que se seguiu. O que senti? Ouça The Ants-Whip in my valise. Há um chicote na minha valise oh yeah/Who taught you to torture? Quem te ensinou a tortura?/ Quem te ensinou?Who taught you to torture?

 

The Ants-Whip in my valise

cOsmOs na VaLiSe

Posted in Art, arte, conto, literatura, literature, Metalinguagem, narrativa, semiótica on 31 março, 2009 by Marco Aqueiva

Arte: collage por Marco Aqueiva à base de gaia e imagem obtida em http://lacomunidad.elpais.com/atrapadordesuenos/2008/6/15/el-aleph-borgesgaia

 

Cosmos

por Fátima Brito

 

         Nurater, terranu, arunater, ertarun… Tantas foram as minhas tentativas infrutíferas de compreender o significado daquela palavra que optei por temporariamente desistir dela. Não me dizia nada. Ela não me dizia em absoluto NADA. Nada. NADA. Saltei as palavras que a sucediam, tropeçando em busca de alguma que me comunicasse algo, um fio qualquer de sentido. Mas nada, nada era o que me restava. Todas me eram insignificantes. Sim, eu as lia sem dificuldade e as pronunciava em voz alta. Algumas vezes tive a impressão de ouvi-las ecoando no apartamento semivazio no alto da avenida Paulista. Adquiriam forma, batiam nas paredes creme e voltavam ameaçadoras para mim. 

         Eu permanecia longas horas de meu dia exercitando-me nessa busca mesmo sem acreditar na possibilidade de sucesso. Quando cansado, sentava-me diante da TV, recostava-me nas almofadas do largo sofá azul e permanecia em silêncio bebendo as saídas das bocas daquelas figuras que também me eram estranhas. Transitava com dificuldade por todos os universos em que tentava me inserir. Quando essa verdade me caía como uma agulha penetrando todo meu corpo a partir do centro da cabeça, eu optava por desistir.  Dirigia-me, após longuíssimos passos, a uma das tantas janelas que me punham em contato com o mundo, e permanecia ali, parado, durante tanto tempo que me esquecia de mim até que o calor do dia nascendo, ou o frio da noite chegando anunciava a mim mesmo minha existência. Então me dirigia até a geladeira, o microondas ou o chuveiro, de acordo com a necessidade mais premente.

         Nessa rotina que durou longos anos, aprendi a contar os passos. Da sala de jantar ao quarto, do quarto à biblioteca, da biblioteca à cozinha, da cozinha ao banheiro social, do banheiro social à biblioteca, da biblioteca à área de serviço, da área de serviço à sala de visitas, da sala de visitas à de televisão, da de televisão para alguma das janelas daquele espaço assombrado que era só o que sentia meu.

         Por todos esses ambientes, palavras escritas desafiavam-me. Ao longo dos anos, fui preenchendo cartazes com centenas delas. Quando o sulfite e a cartolina acabaram, comecei a arrancar páginas dos livros e de tantos outros documentos que habitavam aquele universo. Arrancava-as ora com pesar, ora com raiva. Então, escrevia palavras quaisquer, ouvidas desatentamente nas emissoras de TV e de rádio, nos CDS, nos DVDs, na minha mente insistente, onde elas se reproduziam sem qualquer utilidade a não ser a de confundir-me sempre mais. Às vezes, por total falta de opção saía caminhando com o telefone sem fio, ouvindo a voz eletrônica abstrusa estranha abstrusa absurda. E ria, ria tanto, mas tanto e tanto e tão contente de  não ser mesmo de uma pessoa a voz metálica afinal assustadora que vinha dali. Ria para desafiá-la, afinal ela jamais me alcançaria. De verdade? Sabia ser inalcançável. Eu não queria isso. Mas não tinha como fugir. Nenhuma voz me alcançaria por um tempo tão longo tão longo… tão longo. E tantas vozes ressoavam soavam em mim sem significado. Olhava com ódio até os quadros na parede, e quanta ânsia tive de destruir cada um dos livros que ocupavam as prateleiras daquela biblioteca tão grande, herança de família. Sim, eu permanecia entupido de palavras. Mas era só. Não mais sabia as que me pertenciam. Permaneci angustiado por essa ignorância durante algumas longas vidas.

         Essa relativa escuridão poderia ter me garantido tranquilidade, paz e até alegria. Mas não. Não me deu nada disso. Jogou-me em uma jaula na qual de quase nada valiam minha visão e minha inteligência. Sim, lógico, era sempre possível contar os passos e até quantos carros ou transeuntes passavam lá embaixo.  Do silêncio de minha janela isso era sempre muito possível. Mas era pouco para mim. Assim, segui anos de minha longa existência tentando reencontrar verdadeiramente as palavras. Agora, quase no final da vida, não devo e não quero mentir. Não consegui, mas, ainda que piegamente (você sabe o que é isso?), orgulho-me de ter insistido sem outros receptores além de mim mesmo numa empreitada absolutamente inútil para o século. Quero carregar comigo palavras que afinal me pertencem. Nada mais tenho.  Obrigado.

 

PerVERsões na VaLiSe – enTÃO o DESfecho !

Posted in Antropofagia, Art, arte, Belo escatológico, conto, escatológico, literatura, literature, narrativa, Pós-antropofagia, Perversão, semiótica on 14 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

conclusao-1

Os assassinos e o juiz

por Carlos Pessoa Rosa

 

Atentos aos cantos e às imagens santas, poucos peregrinos reparavam o conteúdo da banca improvisada. Os não tão fiéis, diante da carne em início de putrefação, faziam o sinal da cruz sussurrando cruz-credo e seguiam o séquito em veneração às imagens cristãs, mais devotos que antes.

O que poderiam fazer ali três sanguinários, frios assassinos, com as partes de duas – que me permitam os mais pudicos – putas que encontraram na rua e esquartejaram como não se faz nem com um animal, com as mãos ainda sujas de sangue, distantes da fé que escorria diante dos olhos, fiéis nunca os mesmos, como as águas de um rio?

Procuravam o diabo segundo a receita do sujeito dos batuques do terreiro que frequentavam, único modo de expurgarem a praga que caíra sobre eles. Disse-lhes o mirrado de branco e charuto vagabundo na boca, em transe: vai fio, pega duas muié de rua, separa as parte e dê de cumê aos rato, a sobra coloqui na rua onde vai passá a pocissã, o que o diabo aparece…

A carne apodrecia quando um dos sectários aproximou-se dos três, observou atentamente os pedaços, remexeu até encontrar o que procurava. Os companheiros entreolharam-se e, tal como falavam a mesma língua, tiveram idêntico pensamento: afinal, o que faria o diabo com a buceta de duas putas?

Quando a coisamá, sem chifre ou rabo, perguntou-lhes o preço, o mais velho foi logo dizendo, como haviam sido orientados no terreiro, que Era de graça, pagamento de dívida, prá não si preocupá. O comprador seguiu, então, sentido contrário ao culto, sendo observado pelos três que ainda acreditavam ver o rabinho balançando no ar, mas que um longo casaco não permitiria enxergar. Satisfeitos, assim que o diabo desapareceu na dobra da rua, certos que haviam liquidado a dívida com o capeta, jogaram todo o resto no bueiro próximo e saíram dali para um boteco, onde tomaram algumas pingas e o acerto foi uma dezena de balas no corpo do dono.

Não saberiam, nem precisava, que o sujeito era um fiel respeitador do dízimo, assíduo nas missas, respeitado publicamente e profissionalmente, dono de um martelo que fazia cumprir a lei com rigor, mas que tinha lá sua perversão. Leitor de Guillaume Apollinaire, não o pensador, mas o escritor de “As onze mil varas”: Aqui jaz o príncipe Vibescu/ Único amante das onze mil varas/ Valeria, melhor, passante, saiba disto, / Desvirginar as onze mil virgens.

Como o livro chegara até ele, já não sabia, mas era certa, à época, a timidez e a dificuldade de se aproximar das mulheres. Aquele parágrafo no livro, despertou-lhe estranhas fantasias com cadáveres: Mony espancou então aquele traseiro que se revolvia e cujos lábios da buceta engoliam e vomitavam celeremente a coluna cadavérica.

Muitos crimes cometidos em causa própria, enterrou no calabouço, com réu julgado e condenado por ele mesmo, mas inocente. Foi a oferta de venda de cadáver plastificado pelo médico alemão Gunther Von Hagens que levantou a possibilidade de não correr tantos riscos diante de uma tara que se transformara em uma possessão, com necessidade diária de satisfazê-la. Conseguiu, então, junto aos pares, argumentando interesse científico e médico legal, um estágio no serviço do patologista, o que lhe permitiu conhecer toda a técnica.

Voltou decidido a plastificar vaginas, teria seu problema resolvido, o que não esperava era encontrá-las à venda na rua, durante a procissão, vendida por três sujeitos de índole assassina, conhecia-os pelo cheiro e a expressão que carregavam no rosto, aquele ar de sujeito sem tempo, tão própria dos coveiros, mas que, diferentemente destes, nada lhe cobraram para ter o objeto de desejo. Em casa, retirou o casaco, levou as duas vaginas para uma oficina no fundo do quintal, retirou o ar presente na carne e plastificou o sexo das duas putas.

Os marginais foram presos meses depois, incertos de terem vendido a carne ao diabo, dúvida desvendada no dia do julgamento. Tinham diante deles, dando o veredicto, aquele que pensavam ser o capeta…

Moral da história: Um cu deve ter cheiro de cu/ E não de água de colônia…

 

conclusao-3

A VaLiSe de uma personAGEM quASe aNÔNIMa

Posted in Art, arte, literatura, literature, narrativa on 2 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Marco Aqueiva à base de Magritte e Paul Delvaux

por Carmen Silvia Presotto

 

13h00, 20 de outubro de 2006. Do outro lado do continente, escuto sons diversos. Miro meus olhos nos passantes. São diversos, também em cores e tamanhos. São diferentes e, como se eu fosse uma lente, objetivo meus olhos até me deparar com três pessoas.

Miro melhor, ao fundo está a personagem que acabo de conhecer.

Ela se veste com um casaco preto. Na cabeça, usa um chapéu tipo bolo de noivas, em várias camadas. Em suas mãos está uma sacola, que de quando em quando é aberta. Aparenta uns 80 anos, algo no ar me sopra seu nome: Simone.

Seus olhos buscam escapar dos meus. Parece saber que um escritor é uma porta que se desvia do senso comum, alguém que se deseja ao trocar de tempo.

Na catedral toca o sino.

E Simone me faz lembrar de quando ela era uma jovem de 19 anos, que ficava horas sentada, sempre no mesmo banco, talvez desta mesma praça à espera de seu amado, listado para as forças da SS…

Aproximo mais meus ouvidos e a escuto murmurar que começaram a namorar quando assistiam Cantando na Chuva, por ironia, um filme americano que depois a fez desistir de todos seus sonhos.

Sim, porque eles, certamente, eram os mocinhos que unidos aos ingleses desembarcaram na Normandia e que depois, quando tudo já estava findando, vieram pelo sul da Itália para salvar a Europa… É, provavelmente, encontraram-se com Sergei no Front.

Enquanto meus olhos a focavam, caíam algumas lágrimas. Pergunto-lhe o motivo e ela conta que por muito tempo deixou de ir ao cinema. Fala Nada de Novo no Front, Julgamento em Nuremberg  e eu lhe falo de Mediterrâneo.

Com filmes, atualizamos nossas telas, fronteiras sob os reflexos que choviam de seus olhos. Juntas recordamos quando na  guerra Spencer Tracy, entre outros, cortaram os arames farpados para comemorarem um natal, assim como os italianos que nunca chegaram à Guerra, para das margens do mediterrâneo nos mostrarem como a guerra tem hora, data e agenda marcada.

Simone se alegra, segue conversando, conta-me que há pouco seu terapeuta recomendou que revesse ao Desembarque da Normandia, pois isso a ajudaria a lembrar do esquecimento. Congelando Dunquerque, todos seriam europeus e que tudo vivido seria como um filme, uma tela feita de vidas.

Ao sentir um longo suspiro, pergunto-lhe por sua família. E ela me fala que depois de Sergei, não se encantou por mais ninguém, que ainda guarda suas cartas e abraça a bolsa que segura em seu colo. Olhando longe, fala que a última recebida, fora em Janeiro de 1944.

Desconfiada, curiosa para ver sua sacola, ela me pressente e a agarra com as duas mãos, dizendo-me que ali está sua vida.

Como assim, pergunto?

A minha família, o meu grande amor, a minha esperança, tudo está aqui entre estas alças.

Espero uns minutos. Ofereço-lhe um cigarro. Ela aceita. Ficamos mudas, esperando o tempo acontecer. Ao terminarmos o cigarro, entre fumaças, ela vagarosamente abre a sacola e dela vai desvelando seu templo.

Primeiro, mostra uma moça junto a um jovem de olhos azuis e cabelos negros em lindos trajes. 

Ao mirar a cena, deduzo serem eles, olho para ela e sinto seu olhar amargurado, confirmando o que depois a despiria: uma menina de trança e com sardas num lindo avental xadrez que segue falando, e esta é Íris, minha irmã menor.

Aos poucos, vai abrindo suas comportas, expondo a mim suas entranhas, até chegar a foto de um casal mais maduro, seus pais.

No exato momento da foto que me mostrara, pergunto o que fazia aos 19 anos. Ela responde que estudava para ser arquiteta e, então, estourou a guerra e teve que ir trabalhar como voluntária da Cruz Vermelha.

Convido-a para outro café. Desta vez, sentamos em uma mesa e percebo que ela puxa uma cadeira a mais, e ali deposita sua sacola.

Ossos, penso eu… Vida me diz ela, parecendo ler meus pensamentos.

Ao me ver anotando, retrai-se. Falo-lhe que é para lembrar mais tarde do que ela deseja esquecer e juntas sorrimos.

Nesse momento, já estávamos cúmplices.

Chega o café, enquanto Simone me fala que nascera perto de Nuremberg, em Wolkersdorfen, 30 quilômetros do centro da cidade e que sua gente era de uma família tradicional de tecelãs, faziam tecidos para chapéus.

Bávaros, brinco eu?

Sim, diz ela, bávaros, em camadas e segue recontando sobre sua vida. Diz que teve duas irmãs e um irmão, sendo ela a mais velha e  que com a vinda da guerra foram morar em Luxemburgo, nas terras que eram de seus avôs maternos.

Lá, começaram a viver da colheita de aveia. Mas, que em 1939, viera para cá, aponta a praça da Catedral, onde conhecera Sergei, um francês-judeu, que também estudava arquitetura e que começaram a namorar.

Emudece uns segundos, logo diz que a SS terminou com tudo.

Surpreendo-me com uma alemã falando mal do que viveram, digo isso a ela e escuto: eu sempre fui européia, humana… porém, durante um tempo, este ser alemão foi algo maior, até o chegar dos norte-americanos.

Pergunto o porquê do banco da praça?

Ao que me responde, que nunca mais quis casar, pois passou a se dedicar à família e que ali  é como o corredor de sua casa, ali corre toda a sua vida, todo o tempo, o vivido e o que sempre esteve por vir e não veio.

Como?

Sim, diz ela!

Sento-me aqui neste banco para viajar como se meu corpo fosse a máquina de outro tempo, onde meus olhos pilotam as horas junto a sacola que carregam minhas mãos.

Chega um pombo, ela o alimenta e, como se eu não existisse, segue falando a ele, que talvez devesse anotar meu endereço, perguntar meu nome, mas para quê?

 

Levanto-me, tem momentos que somos demais. A uma história, às vezes, somos um simples vento…

VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO ii

Posted in Art, arte, literatura, literature, narrativa, provocações, semiótica on 18 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Marco Aqueiva a partir de imagem de Tirésias e Odisseu por Johann Füssli e foto de túnel obtida em  http://www.zeroblur.com/blog/2008/01/215

Édipo: “Tirésias! Tu que tudo percebes

         do mais claro ao mais denso dos mistérios

         alto nos céus ou rasteiro na terra,

         hás de sentir, mesmo sem poder ver,

         a desgraça que assola esta cidade…

         Eis, profeta, por que te procuramos

         como última defesa e salvação.”

trad. Geir Campos

 

Que é, pois, o escritor, a olhar à frente, os sentidos despertos?

 

Um olhar que apenas renomeia as coisas e não sabe mais à provocação?

 

Faça também sua

VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO

 

por Tânia Du Bois

 

          Você já ouviu falar na cidade de joão ninguém? É a cidade onde todos mandam, ninguém obedece e poucos respeitam.

          Noel Rosa, em tempos passados, compôs uma letra com o nome de João Ninguém. O poeta teve sensibilidade para compreender o que estava acontecendo à sua volta; foi capaz de traduzir naquela música o seu tempo social. Trabalhou duro a palavra para tentar mostrar o que estava acontecendo em uma cidade saída da Revolução de 1930, num país carente da palavra. Ele soube usá-la para definir o movimento das palavras para com a música:

 

                                         “João Ninguém

                                          Que não é velho nem moço

                                          Come bastante no almoço

                                          Pra se esquecer do jantar

                                         Esse João nunca se expôs ao perigo

                                         Nunca teve um inimigo

                                         Nunca teve opinião.”

 

           Mas, nos tempos atuais, é a cidade em que o povo escuta música em volume excessivo, nos carros, nas ruas, até altas horas; os carros são estacionados de qualquer maneira, em qualquer mão. Nas lojas, parece que cada dono faz o seu próprio horário de atendimento. Não há policiamento. As casas são assaltadas à luz do dia. A novidade é que, agora, os ladrões escalam prédios e até matam para roubar. Os supermercados fixam preços de acordo com a temporada; O saneamento básico é feito e refeito. E como é a cidade de joão ninguém, não são tomadas providências, nenhuma atitude sobre absolutamente nada. Tudo é permitido, tudo podem.

           Álvaro Mutis, poeta colombiano, mostra-nos que a força das armas não contempla a permanência, ao contrário, leva à destruição e ao esquecimento; a ilusão do progresso como atos a reconfigurar a terra em novas formas de compartilhamento:

 

                                      “Senhor das armas

                                       ilusórias, faz tanto tempo

                                       que o olvido trabalha

                                       teus poderes

                                       que teu nome, teu reino

                                       e torre, o estuário

                                       as areias e as armas

                                       se apagaram para sempre…”

 

          E como vivem os forasteiros nessa cidade? Eles entendem que a cidade de joão ninguém é protegida pela natureza. Que o Sol é glorioso e a Lua quando bate no mar reflete os sonhos. Que o entardecer se confunde com as telas de Ivan Freitas. Que o mar é verde como a esmeralda, como pinceladas de Sansão Pereira. Que os pescadores pertencem à tela de Elias Andrade.

          E que, ainda, sentar no terraço e apreciar a paisagem na companhia de Mário Quintana, Jorge Luis Borges e Saramago faz com que consigam esquecer que essa cidade pertence a joão ninguém. A brisa chega com Cecília Meireles e cada momento de “Isto ou Aquilo” é desfrutado com muita sabedoria.

          Assim vivem os forasteiros na cidade de joão ninguém, tentando unir as letras ao povo, dando-lhes lápis e papel para perceberem a realidade; desafiando a cidade a arranjar um amor, uma palavra, como em Pedro Du Bois:

 

                                              “Ante todos

                                              nenhuma resposta.

 

                                              Entre todos

                                              algumas promessas.

 

                                              Tordos

                                              pássaros existentes

                                             em outras terras.”

 

Uma VaLiSe para parTida

Posted in Art, arte, conto, Jacek Yerka, literatura, literature, narrativa on 15 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Jacek Yerka

por Ana Luíza Penha

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Foi encontrada  uma valise de tamanho médio, branca sem ranhura e sem destinatário, necessária abri-la para conhecer seu conteúdo. Em face disto é preciso testemunhas, há prognósticos aqui no Balcão. Que tal fazermos uma aposta sugerem alguns.

Alguém entre os mais sábios e sensatos de mãos magras e delicados dedos pondera. Não nos pertence nada e nem dela advindos.

Noite e dia ela na terceira prateleira, entre chapéus, embrulhos, bolsas  com frutas desenhadas, livros pálidos, e documentos perdidos.

Cada dia resplandece sua brancura, fará falta  depois de alguns dias vendo-a ali simples e majestosa ao alcance de todos, sem, no entanto,  provocar cobiça.

Nenhum odor dela emana.  Nenhuma marca indicando peso demais para seus domínios. Em não sendo procurada no tempo devido, o ajuntamento é realizado ao fim de uma tarde de poucas lembranças. 

Um dos  presentes, com ar  monárquico, sugere uma cerimônia, sua textura de pelica macia  e seu modelo estilo “bolsa do doutor” impõe  respeito. Baixam-se as portas, há um segredo a ser desvendado e agora. Eis o  impasse como violar segredos, pensou-se em dinheiro, roubo de jóias de família, atiçou-se a ganância dos que brincando pedem para dividir.

Em torno da mesa gasta, com um bisturi e perícia é rompido o lacre, aparecendo varias caixas, e dentro delas outras tantas  e ao fim, em uma minúscula delicada, o segredo  revelado, com uma breve frase: “Te amo, perdoe-me por não poder estar perto como deseja, te deixo esta para sempre que partir pense  em voltar,  mas, se já não significo nada, esqueça-a num canto qualquer.
Do seu grande e eterno amor.”

Uma VaLiSe de Veludo Azul

Posted in Art, arte, conto, literatura, literature, narrativa, semiótica on 14 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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 Guy Girard, Les Clés de la volaille

  

por Fátima Brito

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Embalando minha surrada bolsa vazia, caminhava, tentando assassinar meu absurdo discurso. Sentia-me quase invisível no alvoroço da 25. Era para lá que ia quando não suportava a intensidade com que aquelas palavras ocupavam minha mente. Lá a confusão do ir e vir incessante, das cores das vitrines e dos passantes com seus estilos os mais variados libertavam-me de mim. Só o caos de formas e  de palavras alheias cruzando o mesmo espaço neutralizava a agitação infernal com que me debatia desde o início da adolescência.

         Mas naquele dia eu estava verdadeiramente insuportável. Desde o amanhecer, a saudade me empurrava para as palavras de minha  uterina impotência. Sempre me soubera de tal modo incapaz que a única dúvida que jamais experimentei foi a de que, no mundo, nada verdadeiramente me pertencia. Nada exceto a impotência.  Talvez por isso minha relação com ela fosse tão difícil. Passei parte de meus quase trinta anos a acalentá-la como quem tenta inutilmente aquecer-se a si próprio, em uma noite fria de estrelas inacessíveis. Passei a outra parte deles a rejeitá-la, como quem se julga capaz  de improvisar cobertores de lã grossa em noites também frias de estrelas tão próximas como os próprios olhos em um espelho. 

Antes de descer para o café, no espelho próximo à escada, vislumbrei o nó na garganta, persistente.  Por mais um dia, ele me negaria a possibilidade de comunicar-me com aqueles estranhos que tentavam ser gentis comigo: irmãos do segundo casamento de papai, ele próprio e sua jovem esposa. Descendo lenta a escada, ele invadiu-me novamente. Mais alto que de costume, e com um ritmo que desconhecia.

         A sua voz. A sua voz. Ela não é só sua. Entrou em mim e me toma por completo, aprisiona a minha voz, aveluda minha vida vazia, entupida de poros que nem mais liberam o bafo dos destilados importados  com que me anestesio às escondidas. Não posso me lembrar de sua voz, mas ela acompanha minha solidão noturna, minha solidão diurna como um veludo azul ocupando minha boca até o limite da falta de ar. Ela sufoca-me, mas eu a quero. Abraço o veludo como se fosse a sua voz que quero macia acalmando meu medo. Sempre o mesmo medo de morrer sem encontrar você, sem ver seus olhos me olhando, sem ouvir sua voz dirigida a mim, só a mim, verdadeiramente a mim. Preciso de sua voz porque para mim ela não é imaterial é como fosse seu corpo de onde vim e para onde quero ir,  deitar-me no veludo azul que embalou meu sono de infância.

 Quero gritar perguntando ao mundo para onde você foi, se morreu ou se não morreu. Diga-me por que me deixou aqui com eles. Sozinha num berço do qual não consigo me libertar e de onde só ouço canções de ninar que nunca existiram. Sei que talvez você não exista mais, mas a sua voz certamente resistiu e viaja pelo espaço contando histórias de escravos acorrentados que morriam olhando as estrelas. Talvez você tenha me contado alguma dessas. O que carregou sua voz para longe de mim? Vou encontrá-la jogada à sarjeta, ou em algum prostíbulo de luxo.  Preciso encontrá-la. Eles não querem me dizer nada sobre você, mas vou encontrá-la. Ouço tudo de novo. Ouço as perguntas que fiz, e ouço o silêncio indiferente deles. Mas não ouço sua voz macia e pausada. Também ela vive me abandonando. Então  vejo de novo seus olhos de cílios longos olhando para mim, dizendo-me algo. Tento em vão traduzir o movimento de seus lábios.

         Dessa vez, o discurso foi interrompido antes de seu fim quando cheguei à mesa. Cumprimentos e olhares costumeiros. A rapidez necessária ao contato mínimo. A tentativa de comunicação: garantia de consciência tranqüila. O meu intransponível silêncio. A despedida muda, e sem volta.

Saí pela porta da frente acompanhada  de palavras e  impotência. Caminhei pelas ruas certa de que algo ocorreria, e de que não seria eu o agente da transformação. Em meio ao discurso, então um pouco desconexo, reconhecia só existirem dois rumos possíveis: encontrá-la ou perder-me de meu inferno. Do alto de minha dor, sabia que isso poderia significar perder-me de mim.

Nesse estado, como uma autômata, mergulhei na 25  onde, pela primeira vez em quase vinte anos, misturei-me com tudo. E, apesar das vozes, quase senti prazer. Lembro-me de que  foi exatamente nesse momento, quando intuí a possibilidade de ser feliz, que aconteceu. Quantos anos foram necessários para sentir-me viva de novo?

Devagar do alto das minhas costas, ela veio descendo.  Muito afiada e meticulosa, vinha como quem não tem pressa e eu fui acalmando-me, cedendo à sua força, sentindo-me a um só tempo preencher-me e esvaziar-me

         Gostosamente lento, o silêncio começou a surgir quase como uma brisa morna espalhando-se no velho veludo azul. Parece que tudo foi recuperando seu lugar e os ventos começaram a soprar lentos em uma só direção. Mas ao redor, em uma outra dimensão, tudo continuava igual: os ambulantes com as bocas agitando-se rápidas, as vitrines com sua elegância fingida, as calçadas tomadas por crianças agarradas às suas mães. Todos prosseguindo no medo de se perder. Tudo quase igual.

 Mudava o ritmo, tudo era muito lento como se o mundo quisesse parar. Eu, eu também mudava enquanto meu sangue se esvaía: não tinha mais medo de perder-me de você, de mim. O bafo da bebida aos poucos foi dando espaço para a certeza de estar absolutamente sem raízes. Sentia-me balançando ao som de músicas infantis embalando pequenos móbiles azuis. Os movimentos alternando-se eram toda a  liberdade que sempre quis. Eles poderiam mudar de novo e de novo, a qualquer momento, à medida que surgissem novas músicas, ocupando o espaço do discurso compassado.

         No momento em que alguém apanhou com suavidade meu corpo e, quase flutuando, levou-o para um tecido estendido debaixo de uma árvore florida, comecei a ouvir uma voz intraduzível, dizendo-me que tudo ficaria bem, que eu jamais ficaria sozinha, que eu já poderia falar. Sorrimos. Era outono e senti uma folha deitar-se em meu ombro esquerdo. A morte, bem-amada, dava boas-vindas para a vida que me apresentaria a novas palavras.

 

 

A VaLiSe do PROFESSOR II

Posted in Art, arte, concurso, narrativa, semiótica on 7 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

valise-professor-das-primeiras

Arte: Marco Aqueiva

 

 

Dando continuidade à publicação dos vencedores do concurso “O que há na valise do professor?”, temos o prazer de anunciar os alunos, do Colégio Atibaia, autores dos melhores textos na categoria NARRAÇÃO, segundo avaliação do júri. São eles:

 

– Ana Paula Scoparo – 9° ano

– Rodrigo Grosso Bourganos – 9º ano

 

É assim com imensa satisfação que parabenizamos os vencedores pela expressividade de seus textos, bem como todos os participantes pela disposição e empenho na atividade.

 

Por fim, cabe a nós agradecermos em especial o acolhimento da proposta pelos membros do júri, integrado por  

 

– Carlos Pessoa Rosa

– Carmen Presotto

– Nilza Amaral

– Pedro Du Bois

– Tânia Du Bois

 

que de pronto se dispuseram a pôr seus sobejos talentos a serviço da descoberta de novos talentos.

  

O diário do professor

 

por Ana Paula Scoparo – 9° ano

       _____________________

 

 

Roberto entrou na sala de aula, com a cara amarrada de sempre, largou sua valise sobre a mesa e disse:

– Abram seus livros na página trezentos e dezoito.

         Carolina, que estava dormindo até então, levantou a cabeça inconformada.

– A não… Aula de história!

Roberto ignorou, sabia que seria assim até o fim da aula. E foi. Mal conseguiu fazer a turma copiar o quadro e deu uma explicação longa e cansativa.

         Finalmente o sinal do recreio tocou. Roberto saiu da classe, mas deixou sua valise lá. Carolina estranhou: o professor não largava de sua valise!

         – Olha só gente, a valise do professor!

         – Vamos aproveitar e ver as notas. – disse Marcelo, o aluno mais esperto da sala.

         – Deixa de ser bobo! Nós vamos procurar coisas mais interessantes…

         Gabriela pegou a mala com força e a abriu. Lá no fundo ela encontrou um caderninho preto. Carolina, entusiasmada, arrancou-o da mão de sua amiga e começou a ler:

“Dois de outubro de 2008

Eu não sei o que dizer, os meus alunos não me respeitam e acho que também não me suportam. Se a vida tivesse me dado outra maneira de eu conseguir dinheiro… Mas apesar de tudo eu adoro os meus alunos. Isso não importa mais, eles tiram notas muito baixas e eu acho que vou ser demitido em breve.”

 

         Os alunos abriram suas bocas até onde elas nunca haviam chegado antes. Eles perceberam, finalmente, que a maneira com que tratavam o professor o havia  afetado mais do que o esperado.

         No dia seguinte, haveria prova. Eles elaboraram um plano.

                                              

                                                         ***

 

         Uma semana depois, Roberto entrava na sala de aula sorrindo pela primeira vez. Um sorriso que até doía de olhar para o branco dos dentes.

         – Turma, estou muito satisfeito com o resultado da classe na prova.

         Carolina sorriu também.

         – Que bom, professor! Espero que o senhor saiba que gostamos muito de você, e não queremos que vá embora.

Diante do resultado da prova e da postura do professor, ela viu que valera a pena ter estudado tanto com seus colegas. Deixaram de ir a uma superfesta que um amigo de outra sala organizou, mas o seu professor era mais importante.  Apesar de não terem prestado atenção em todas as aulas, todos aprenderam muito com ele.  Além de coisas como a Segunda Guerra Mundial, aprenderam uma lição que vão levar para o resto de suas vidas.

         Roberto lembrou de seu diário e teve uma visão. Agora ele era o professor mais feliz do mundo.

 

 


Professor – Profissão ou Missão

 

por Rodrigo Grosso Bourganos – 9º ano

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Era o primeiro dia depois das férias do meio do ano em uma escola particular do estado de São Paulo. Os alunos se encontravam e ”colocavam o papo em dia”, pois não se viam desde Junho.

         Todos entraram na sala de aula logo que ouviram o som do sinal, avisando que a primeira aula estava prestes a começar.  Eles sentaram em suas carteiras e tiveram uma surpresa.

         Um tipo baixinho e esquisitinho, portando uma valise surrada e fora de moda, entrou na sala. Usava óculos ”tampa-de-garrafa”, tinha uma peruca na cabeça e um bigodão na cara. Sim, era muito estranho. O homem abriu a boca e disse, sorrindo, com uma voz esganiçada:

         – Bom dia! Sou o novo professor de matemática e meu nome é professor Barbosa.

         A reação de todos já era esperada. Começou a zoação’, todos falavam da sua estatura e da sua peruca, e principalmente da voz esganiçada, que, logo do fundo da sala, Zezinho começou a imitar. A classe continuou caçoando do pobre professor, que,  parado, olhava a todos.

         Permaneceu em silêncio por alguns poucos minutos, e apenas com um olhar, conseguia, pouco a pouco, ganhar o silêncio. Então disse:

         – Pessoal, caçoem de mim à vontade, sei que sou estranho, mas quero que pensem um pouco, antes de caçoarem de mim, que estou aqui para ajudar a todos! Estou aqui para que no dia em que vocês terminarem a escola, consigam passar em um bom vestibular para poderem conquistar um bom emprego! Estou aqui para passar meus conhecimentos para vocês não para torná-los em repetidores de informações, mas sim formadores de idéias! Seres capazes de raciocinar e optar pelas melhores atitudes! Estou aqui para ajudar. Pronto, agora, se quiserem, podem continuar caçoando.

         A classe não esperava ouvir algo assim daquele homem de voz esganiçada. Desde aquele dia, eles mantiveram um ótimo relacionamento com o professor, e conseguiram extrair dele tudo o que ele estava pronto a lhes dar para crescerem como indivíduos melhores.

 

Numa VaLiSe ?

Posted in arte, literatura, literature, narrativa, semiótica on 25 outubro, 2008 by Marco Aqueiva

por Dirce Lorimier

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De minha valise onde guardo recordações simples, de gente sem nenhuma erudição, me lembro que ela sempre repetia a mesma ladainha. Casara sem amor, para livrar-se da enxada. Isto ela repetiu durante décadas. Um dia, logo pela manhã, ele saiu e só retornou de terno e gravata, embalado num caixão. Ela não chorava. Estava atônita. Mas não fora por isto que sempre havia esperado?

Naquele caixão foi embora uma grande parte dela mesma. Com quem iria implicar agora? Quem aguaria as plantas, quem compraria frutas fresquinhas, logo pela manhã? Quem arrumaria a sua cama à noite, tirando a colcha rendada e colocando no jeito os seus travesseiros e a sua camisola?

Ela foi se tornando feia, sempre mais feia, sem vida, morria um pouquinho todos os dias. “Eu não sabia que ele servia para alguma coisa…” E morria um pouquinho todos os dias.

E morreu. Não sem antes recomendar que a fizessem repousar junto dele, sem nenhuma separação.

“Eu tenho medo de ficar sozinha” – justificava ela, no prolongamento de sua angústia de morte. “Não me deixem sozinha”.

Mais uma vez, ela venceu. Morto há apenas quatro anos, o que restou dele foi depositado numa pequena urna branca, encostada num canto, e ela se esticou todinha na amplidão do 6609. Uma tempestade dirigia o coro dos ramos dos chorões, cujas mútuas chicoteadas e o riscar dos raios davam um tom macabro ao requietório. Ao fim da sinistra cerimônia uma névoa tranqüila embalava aquele campo silencioso.  

Arte: Marco Aqueiva a partir de Paul DELVAUX e imagens do blog http://diaounoite.blogspot.com/