Archive for the narrativa Category

anTeNe-Se na VaLiSe inConSpuRcáVeL (parte Ii)

Posted in Art, arte, Arte engajada, artes plásticas, Carlos Pessoa Rosa, conto, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, Musica cubana, narrativa, prosa ficcional, semiótica, Silvio Rodriguez, Valise 2010, Valises on 29 junho, 2010 by Marco Aqueiva

PITANGAS IMPLODEM MÊNSTRUO 

por Carlos Pessoa Rosa

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lances de escada avançam sobre a língua de fogo. o rei debulha grãos de idéias sobre o tapete vermelho enquanto a mulher rosna melancolias e roça ostras no fundo de saco. há uma chuva melancólica de fim de tarde que abraça o vazio contendo em seu corpo a morte. que túmulo receberá o corpo sorumbático de um rei sem coroa enquanto a mulher gralha a melancolia transgênica em fim de tarde?

(úmida tarde onde repousa um véu crepuscular e o homem é espremido como pasta de dente. de seu interior sai o branco das baratas.)

ao longe estradas descansam mundanas. no céu desponta a Lua diante dos dedos do cego de Diderot. ah, delírios dos impertinentes! da ferradura de Baco, da papoula incandescente da loucura, do pó branco que avassala a ordem das palavras. é da mulher o mênstruo incontido do gozo; do homem a umidade das uretras virgens. há uma escada que sobe sobre as chamas a caminho do inferno, um rei uma rainha um homem uma mulher nos óvulos da noite que nenhuma criança ou poeta alcançam nesta orgia de palavras frases imagens soltas.

(mão de obra é a orgia incandescente da escravidão quando as mãos de miseráveis ardem no calor das injustiças.)

vasculha basculha entorse dor de dente mão no bolso bueiro. plúmbea chove
urubus e rosas. pitangas implodem mênstruo, o clitóris adocicado da boceta dos deuses. o imaginário frestas raios porvir. há uma ave migrante de solo pátrio estrangeiro e a cruz no chamamento. plúmbea chuva ostras e rastros. pássaros gorjeiam gozos. umidade no campo ora. o sino cala a igreja onde Deus imola e o poeta masturba palavras. há palavras soltas no pasto, loucura de Eros, cobra em posição de bote, no aguardo. não demora carrapatos festejam o sangue quente de quem venceu tânatos e as heras continuam a agarrar-se nas paredes.

(natal ao miserável é consumir a falta. dois cães aguardando restos seria mais aceitável, mas são seres humanos os dois de cócoras roçando o fundo de latas na calçada.)

cúmulus em tarde ensoluada, o vento descansa no prado, tudo é silêncio nos galhos e copas das árvores. em algum lugar homens guerreiam (por aqui nem uma bala perdida). cercas blocos argamassa vagas não arredam pé do descanso. meu corpo como churrasco nos vãos dos mistérios, noite se achegando fria à caça de sonhos e pesadelos, arremedos do que na vida claustrofóbico. o diabo arranca água e duas luas de um coco. ao longe o apito de um trem, de uma estrada de ferro inexistente…

(e os viajantes na impossibilidade de um destino.)

 

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Imagem: Marco Aqueiva

Da VaLiSe de Adam Ant

Posted in Art, arte, conto, literatura, Literatura 2010, Literatura Brasileira, literature, narrativa, semiótica, Valise 2010 on 9 fevereiro, 2010 by Marco Aqueiva

 

Por Carlos Pessoa Rosa

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Odeio o sujeito. Mas seu rosto é fotografia na parede da memória. Ao chegar, eu já me encontrava imobilizada. Nua. Meu corpo suado debaixo de um cone de luz. Já não apertava mais as coxas para esconder o sexo. Mataram qualquer expressão de vergonha. As pernas abertas como as da prostituta que aguarda a próxima moeda; como o cofre da infância. Um metro e sessenta; não mais. Não me esqueço dos passos do coturno, e da valise que depositava sobre a mesa velha e engordurada. Como esquecer o nariz rosáceo e as enormes sobrancelhas negras… As mãos pequenas a abrir a valise sadicamente, com a lentidão das lesmas. De lá retirava o chicote, o alicate, agulhas de diversos tamanhos, velas, fósforos, gel condutor e chumaços de algodão que enfiava em minha boca para que não gritasse. Quando todos os recursos não me levavam a alcaguetar algum companheiro, abria a braguilha, retirava o pau duro – excitava-se com a tortura – e o levava até minha boca. Naquele dia… Ah! Naquele dia, olhava a valise, havia lá um dente e uma unha que me arrancara um pouco antes… Colecionava nossos pedaços. Decidida, mordi com tanta raiva o membro, que guardei comigo sua glande. Hoje vivo em uma cadeira de rodas, fruto do espancamento que se seguiu. O que senti? Ouça The Ants-Whip in my valise. Há um chicote na minha valise oh yeah/Who taught you to torture? Quem te ensinou a tortura?/ Quem te ensinou?Who taught you to torture?

 

The Ants-Whip in my valise

cOsmOs na VaLiSe

Posted in Art, arte, conto, literatura, literature, Metalinguagem, narrativa, semiótica on 31 março, 2009 by Marco Aqueiva

Arte: collage por Marco Aqueiva à base de gaia e imagem obtida em http://lacomunidad.elpais.com/atrapadordesuenos/2008/6/15/el-aleph-borgesgaia

 

Cosmos

por Fátima Brito

 

         Nurater, terranu, arunater, ertarun… Tantas foram as minhas tentativas infrutíferas de compreender o significado daquela palavra que optei por temporariamente desistir dela. Não me dizia nada. Ela não me dizia em absoluto NADA. Nada. NADA. Saltei as palavras que a sucediam, tropeçando em busca de alguma que me comunicasse algo, um fio qualquer de sentido. Mas nada, nada era o que me restava. Todas me eram insignificantes. Sim, eu as lia sem dificuldade e as pronunciava em voz alta. Algumas vezes tive a impressão de ouvi-las ecoando no apartamento semivazio no alto da avenida Paulista. Adquiriam forma, batiam nas paredes creme e voltavam ameaçadoras para mim. 

         Eu permanecia longas horas de meu dia exercitando-me nessa busca mesmo sem acreditar na possibilidade de sucesso. Quando cansado, sentava-me diante da TV, recostava-me nas almofadas do largo sofá azul e permanecia em silêncio bebendo as saídas das bocas daquelas figuras que também me eram estranhas. Transitava com dificuldade por todos os universos em que tentava me inserir. Quando essa verdade me caía como uma agulha penetrando todo meu corpo a partir do centro da cabeça, eu optava por desistir.  Dirigia-me, após longuíssimos passos, a uma das tantas janelas que me punham em contato com o mundo, e permanecia ali, parado, durante tanto tempo que me esquecia de mim até que o calor do dia nascendo, ou o frio da noite chegando anunciava a mim mesmo minha existência. Então me dirigia até a geladeira, o microondas ou o chuveiro, de acordo com a necessidade mais premente.

         Nessa rotina que durou longos anos, aprendi a contar os passos. Da sala de jantar ao quarto, do quarto à biblioteca, da biblioteca à cozinha, da cozinha ao banheiro social, do banheiro social à biblioteca, da biblioteca à área de serviço, da área de serviço à sala de visitas, da sala de visitas à de televisão, da de televisão para alguma das janelas daquele espaço assombrado que era só o que sentia meu.

         Por todos esses ambientes, palavras escritas desafiavam-me. Ao longo dos anos, fui preenchendo cartazes com centenas delas. Quando o sulfite e a cartolina acabaram, comecei a arrancar páginas dos livros e de tantos outros documentos que habitavam aquele universo. Arrancava-as ora com pesar, ora com raiva. Então, escrevia palavras quaisquer, ouvidas desatentamente nas emissoras de TV e de rádio, nos CDS, nos DVDs, na minha mente insistente, onde elas se reproduziam sem qualquer utilidade a não ser a de confundir-me sempre mais. Às vezes, por total falta de opção saía caminhando com o telefone sem fio, ouvindo a voz eletrônica abstrusa estranha abstrusa absurda. E ria, ria tanto, mas tanto e tanto e tão contente de  não ser mesmo de uma pessoa a voz metálica afinal assustadora que vinha dali. Ria para desafiá-la, afinal ela jamais me alcançaria. De verdade? Sabia ser inalcançável. Eu não queria isso. Mas não tinha como fugir. Nenhuma voz me alcançaria por um tempo tão longo tão longo… tão longo. E tantas vozes ressoavam soavam em mim sem significado. Olhava com ódio até os quadros na parede, e quanta ânsia tive de destruir cada um dos livros que ocupavam as prateleiras daquela biblioteca tão grande, herança de família. Sim, eu permanecia entupido de palavras. Mas era só. Não mais sabia as que me pertenciam. Permaneci angustiado por essa ignorância durante algumas longas vidas.

         Essa relativa escuridão poderia ter me garantido tranquilidade, paz e até alegria. Mas não. Não me deu nada disso. Jogou-me em uma jaula na qual de quase nada valiam minha visão e minha inteligência. Sim, lógico, era sempre possível contar os passos e até quantos carros ou transeuntes passavam lá embaixo.  Do silêncio de minha janela isso era sempre muito possível. Mas era pouco para mim. Assim, segui anos de minha longa existência tentando reencontrar verdadeiramente as palavras. Agora, quase no final da vida, não devo e não quero mentir. Não consegui, mas, ainda que piegamente (você sabe o que é isso?), orgulho-me de ter insistido sem outros receptores além de mim mesmo numa empreitada absolutamente inútil para o século. Quero carregar comigo palavras que afinal me pertencem. Nada mais tenho.  Obrigado.

 

PerVERsões na VaLiSe – enTÃO o DESfecho !

Posted in Antropofagia, Art, arte, Belo escatológico, conto, escatológico, literatura, literature, narrativa, Pós-antropofagia, Perversão, semiótica on 14 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

conclusao-1

Os assassinos e o juiz

por Carlos Pessoa Rosa

 

Atentos aos cantos e às imagens santas, poucos peregrinos reparavam o conteúdo da banca improvisada. Os não tão fiéis, diante da carne em início de putrefação, faziam o sinal da cruz sussurrando cruz-credo e seguiam o séquito em veneração às imagens cristãs, mais devotos que antes.

O que poderiam fazer ali três sanguinários, frios assassinos, com as partes de duas – que me permitam os mais pudicos – putas que encontraram na rua e esquartejaram como não se faz nem com um animal, com as mãos ainda sujas de sangue, distantes da fé que escorria diante dos olhos, fiéis nunca os mesmos, como as águas de um rio?

Procuravam o diabo segundo a receita do sujeito dos batuques do terreiro que frequentavam, único modo de expurgarem a praga que caíra sobre eles. Disse-lhes o mirrado de branco e charuto vagabundo na boca, em transe: vai fio, pega duas muié de rua, separa as parte e dê de cumê aos rato, a sobra coloqui na rua onde vai passá a pocissã, o que o diabo aparece…

A carne apodrecia quando um dos sectários aproximou-se dos três, observou atentamente os pedaços, remexeu até encontrar o que procurava. Os companheiros entreolharam-se e, tal como falavam a mesma língua, tiveram idêntico pensamento: afinal, o que faria o diabo com a buceta de duas putas?

Quando a coisamá, sem chifre ou rabo, perguntou-lhes o preço, o mais velho foi logo dizendo, como haviam sido orientados no terreiro, que Era de graça, pagamento de dívida, prá não si preocupá. O comprador seguiu, então, sentido contrário ao culto, sendo observado pelos três que ainda acreditavam ver o rabinho balançando no ar, mas que um longo casaco não permitiria enxergar. Satisfeitos, assim que o diabo desapareceu na dobra da rua, certos que haviam liquidado a dívida com o capeta, jogaram todo o resto no bueiro próximo e saíram dali para um boteco, onde tomaram algumas pingas e o acerto foi uma dezena de balas no corpo do dono.

Não saberiam, nem precisava, que o sujeito era um fiel respeitador do dízimo, assíduo nas missas, respeitado publicamente e profissionalmente, dono de um martelo que fazia cumprir a lei com rigor, mas que tinha lá sua perversão. Leitor de Guillaume Apollinaire, não o pensador, mas o escritor de “As onze mil varas”: Aqui jaz o príncipe Vibescu/ Único amante das onze mil varas/ Valeria, melhor, passante, saiba disto, / Desvirginar as onze mil virgens.

Como o livro chegara até ele, já não sabia, mas era certa, à época, a timidez e a dificuldade de se aproximar das mulheres. Aquele parágrafo no livro, despertou-lhe estranhas fantasias com cadáveres: Mony espancou então aquele traseiro que se revolvia e cujos lábios da buceta engoliam e vomitavam celeremente a coluna cadavérica.

Muitos crimes cometidos em causa própria, enterrou no calabouço, com réu julgado e condenado por ele mesmo, mas inocente. Foi a oferta de venda de cadáver plastificado pelo médico alemão Gunther Von Hagens que levantou a possibilidade de não correr tantos riscos diante de uma tara que se transformara em uma possessão, com necessidade diária de satisfazê-la. Conseguiu, então, junto aos pares, argumentando interesse científico e médico legal, um estágio no serviço do patologista, o que lhe permitiu conhecer toda a técnica.

Voltou decidido a plastificar vaginas, teria seu problema resolvido, o que não esperava era encontrá-las à venda na rua, durante a procissão, vendida por três sujeitos de índole assassina, conhecia-os pelo cheiro e a expressão que carregavam no rosto, aquele ar de sujeito sem tempo, tão própria dos coveiros, mas que, diferentemente destes, nada lhe cobraram para ter o objeto de desejo. Em casa, retirou o casaco, levou as duas vaginas para uma oficina no fundo do quintal, retirou o ar presente na carne e plastificou o sexo das duas putas.

Os marginais foram presos meses depois, incertos de terem vendido a carne ao diabo, dúvida desvendada no dia do julgamento. Tinham diante deles, dando o veredicto, aquele que pensavam ser o capeta…

Moral da história: Um cu deve ter cheiro de cu/ E não de água de colônia…

 

conclusao-3

A VaLiSe de uma personAGEM quASe aNÔNIMa

Posted in Art, arte, literatura, literature, narrativa on 2 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

regarder_solitaria

Arte: Marco Aqueiva à base de Magritte e Paul Delvaux

por Carmen Silvia Presotto

 

13h00, 20 de outubro de 2006. Do outro lado do continente, escuto sons diversos. Miro meus olhos nos passantes. São diversos, também em cores e tamanhos. São diferentes e, como se eu fosse uma lente, objetivo meus olhos até me deparar com três pessoas.

Miro melhor, ao fundo está a personagem que acabo de conhecer.

Ela se veste com um casaco preto. Na cabeça, usa um chapéu tipo bolo de noivas, em várias camadas. Em suas mãos está uma sacola, que de quando em quando é aberta. Aparenta uns 80 anos, algo no ar me sopra seu nome: Simone.

Seus olhos buscam escapar dos meus. Parece saber que um escritor é uma porta que se desvia do senso comum, alguém que se deseja ao trocar de tempo.

Na catedral toca o sino.

E Simone me faz lembrar de quando ela era uma jovem de 19 anos, que ficava horas sentada, sempre no mesmo banco, talvez desta mesma praça à espera de seu amado, listado para as forças da SS…

Aproximo mais meus ouvidos e a escuto murmurar que começaram a namorar quando assistiam Cantando na Chuva, por ironia, um filme americano que depois a fez desistir de todos seus sonhos.

Sim, porque eles, certamente, eram os mocinhos que unidos aos ingleses desembarcaram na Normandia e que depois, quando tudo já estava findando, vieram pelo sul da Itália para salvar a Europa… É, provavelmente, encontraram-se com Sergei no Front.

Enquanto meus olhos a focavam, caíam algumas lágrimas. Pergunto-lhe o motivo e ela conta que por muito tempo deixou de ir ao cinema. Fala Nada de Novo no Front, Julgamento em Nuremberg  e eu lhe falo de Mediterrâneo.

Com filmes, atualizamos nossas telas, fronteiras sob os reflexos que choviam de seus olhos. Juntas recordamos quando na  guerra Spencer Tracy, entre outros, cortaram os arames farpados para comemorarem um natal, assim como os italianos que nunca chegaram à Guerra, para das margens do mediterrâneo nos mostrarem como a guerra tem hora, data e agenda marcada.

Simone se alegra, segue conversando, conta-me que há pouco seu terapeuta recomendou que revesse ao Desembarque da Normandia, pois isso a ajudaria a lembrar do esquecimento. Congelando Dunquerque, todos seriam europeus e que tudo vivido seria como um filme, uma tela feita de vidas.

Ao sentir um longo suspiro, pergunto-lhe por sua família. E ela me fala que depois de Sergei, não se encantou por mais ninguém, que ainda guarda suas cartas e abraça a bolsa que segura em seu colo. Olhando longe, fala que a última recebida, fora em Janeiro de 1944.

Desconfiada, curiosa para ver sua sacola, ela me pressente e a agarra com as duas mãos, dizendo-me que ali está sua vida.

Como assim, pergunto?

A minha família, o meu grande amor, a minha esperança, tudo está aqui entre estas alças.

Espero uns minutos. Ofereço-lhe um cigarro. Ela aceita. Ficamos mudas, esperando o tempo acontecer. Ao terminarmos o cigarro, entre fumaças, ela vagarosamente abre a sacola e dela vai desvelando seu templo.

Primeiro, mostra uma moça junto a um jovem de olhos azuis e cabelos negros em lindos trajes. 

Ao mirar a cena, deduzo serem eles, olho para ela e sinto seu olhar amargurado, confirmando o que depois a despiria: uma menina de trança e com sardas num lindo avental xadrez que segue falando, e esta é Íris, minha irmã menor.

Aos poucos, vai abrindo suas comportas, expondo a mim suas entranhas, até chegar a foto de um casal mais maduro, seus pais.

No exato momento da foto que me mostrara, pergunto o que fazia aos 19 anos. Ela responde que estudava para ser arquiteta e, então, estourou a guerra e teve que ir trabalhar como voluntária da Cruz Vermelha.

Convido-a para outro café. Desta vez, sentamos em uma mesa e percebo que ela puxa uma cadeira a mais, e ali deposita sua sacola.

Ossos, penso eu… Vida me diz ela, parecendo ler meus pensamentos.

Ao me ver anotando, retrai-se. Falo-lhe que é para lembrar mais tarde do que ela deseja esquecer e juntas sorrimos.

Nesse momento, já estávamos cúmplices.

Chega o café, enquanto Simone me fala que nascera perto de Nuremberg, em Wolkersdorfen, 30 quilômetros do centro da cidade e que sua gente era de uma família tradicional de tecelãs, faziam tecidos para chapéus.

Bávaros, brinco eu?

Sim, diz ela, bávaros, em camadas e segue recontando sobre sua vida. Diz que teve duas irmãs e um irmão, sendo ela a mais velha e  que com a vinda da guerra foram morar em Luxemburgo, nas terras que eram de seus avôs maternos.

Lá, começaram a viver da colheita de aveia. Mas, que em 1939, viera para cá, aponta a praça da Catedral, onde conhecera Sergei, um francês-judeu, que também estudava arquitetura e que começaram a namorar.

Emudece uns segundos, logo diz que a SS terminou com tudo.

Surpreendo-me com uma alemã falando mal do que viveram, digo isso a ela e escuto: eu sempre fui européia, humana… porém, durante um tempo, este ser alemão foi algo maior, até o chegar dos norte-americanos.

Pergunto o porquê do banco da praça?

Ao que me responde, que nunca mais quis casar, pois passou a se dedicar à família e que ali  é como o corredor de sua casa, ali corre toda a sua vida, todo o tempo, o vivido e o que sempre esteve por vir e não veio.

Como?

Sim, diz ela!

Sento-me aqui neste banco para viajar como se meu corpo fosse a máquina de outro tempo, onde meus olhos pilotam as horas junto a sacola que carregam minhas mãos.

Chega um pombo, ela o alimenta e, como se eu não existisse, segue falando a ele, que talvez devesse anotar meu endereço, perguntar meu nome, mas para quê?

 

Levanto-me, tem momentos que somos demais. A uma história, às vezes, somos um simples vento…

VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO ii

Posted in Art, arte, literatura, literature, narrativa, provocações, semiótica on 18 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Marco Aqueiva a partir de imagem de Tirésias e Odisseu por Johann Füssli e foto de túnel obtida em  http://www.zeroblur.com/blog/2008/01/215

Édipo: “Tirésias! Tu que tudo percebes

         do mais claro ao mais denso dos mistérios

         alto nos céus ou rasteiro na terra,

         hás de sentir, mesmo sem poder ver,

         a desgraça que assola esta cidade…

         Eis, profeta, por que te procuramos

         como última defesa e salvação.”

trad. Geir Campos

 

Que é, pois, o escritor, a olhar à frente, os sentidos despertos?

 

Um olhar que apenas renomeia as coisas e não sabe mais à provocação?

 

Faça também sua

VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO

 

por Tânia Du Bois

 

          Você já ouviu falar na cidade de joão ninguém? É a cidade onde todos mandam, ninguém obedece e poucos respeitam.

          Noel Rosa, em tempos passados, compôs uma letra com o nome de João Ninguém. O poeta teve sensibilidade para compreender o que estava acontecendo à sua volta; foi capaz de traduzir naquela música o seu tempo social. Trabalhou duro a palavra para tentar mostrar o que estava acontecendo em uma cidade saída da Revolução de 1930, num país carente da palavra. Ele soube usá-la para definir o movimento das palavras para com a música:

 

                                         “João Ninguém

                                          Que não é velho nem moço

                                          Come bastante no almoço

                                          Pra se esquecer do jantar

                                         Esse João nunca se expôs ao perigo

                                         Nunca teve um inimigo

                                         Nunca teve opinião.”

 

           Mas, nos tempos atuais, é a cidade em que o povo escuta música em volume excessivo, nos carros, nas ruas, até altas horas; os carros são estacionados de qualquer maneira, em qualquer mão. Nas lojas, parece que cada dono faz o seu próprio horário de atendimento. Não há policiamento. As casas são assaltadas à luz do dia. A novidade é que, agora, os ladrões escalam prédios e até matam para roubar. Os supermercados fixam preços de acordo com a temporada; O saneamento básico é feito e refeito. E como é a cidade de joão ninguém, não são tomadas providências, nenhuma atitude sobre absolutamente nada. Tudo é permitido, tudo podem.

           Álvaro Mutis, poeta colombiano, mostra-nos que a força das armas não contempla a permanência, ao contrário, leva à destruição e ao esquecimento; a ilusão do progresso como atos a reconfigurar a terra em novas formas de compartilhamento:

 

                                      “Senhor das armas

                                       ilusórias, faz tanto tempo

                                       que o olvido trabalha

                                       teus poderes

                                       que teu nome, teu reino

                                       e torre, o estuário

                                       as areias e as armas

                                       se apagaram para sempre…”

 

          E como vivem os forasteiros nessa cidade? Eles entendem que a cidade de joão ninguém é protegida pela natureza. Que o Sol é glorioso e a Lua quando bate no mar reflete os sonhos. Que o entardecer se confunde com as telas de Ivan Freitas. Que o mar é verde como a esmeralda, como pinceladas de Sansão Pereira. Que os pescadores pertencem à tela de Elias Andrade.

          E que, ainda, sentar no terraço e apreciar a paisagem na companhia de Mário Quintana, Jorge Luis Borges e Saramago faz com que consigam esquecer que essa cidade pertence a joão ninguém. A brisa chega com Cecília Meireles e cada momento de “Isto ou Aquilo” é desfrutado com muita sabedoria.

          Assim vivem os forasteiros na cidade de joão ninguém, tentando unir as letras ao povo, dando-lhes lápis e papel para perceberem a realidade; desafiando a cidade a arranjar um amor, uma palavra, como em Pedro Du Bois:

 

                                              “Ante todos

                                              nenhuma resposta.

 

                                              Entre todos

                                              algumas promessas.

 

                                              Tordos

                                              pássaros existentes

                                             em outras terras.”

 

Uma VaLiSe para parTida

Posted in Art, arte, conto, Jacek Yerka, literatura, literature, narrativa on 15 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Arte: Jacek Yerka

por Ana Luíza Penha

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Foi encontrada  uma valise de tamanho médio, branca sem ranhura e sem destinatário, necessária abri-la para conhecer seu conteúdo. Em face disto é preciso testemunhas, há prognósticos aqui no Balcão. Que tal fazermos uma aposta sugerem alguns.

Alguém entre os mais sábios e sensatos de mãos magras e delicados dedos pondera. Não nos pertence nada e nem dela advindos.

Noite e dia ela na terceira prateleira, entre chapéus, embrulhos, bolsas  com frutas desenhadas, livros pálidos, e documentos perdidos.

Cada dia resplandece sua brancura, fará falta  depois de alguns dias vendo-a ali simples e majestosa ao alcance de todos, sem, no entanto,  provocar cobiça.

Nenhum odor dela emana.  Nenhuma marca indicando peso demais para seus domínios. Em não sendo procurada no tempo devido, o ajuntamento é realizado ao fim de uma tarde de poucas lembranças. 

Um dos  presentes, com ar  monárquico, sugere uma cerimônia, sua textura de pelica macia  e seu modelo estilo “bolsa do doutor” impõe  respeito. Baixam-se as portas, há um segredo a ser desvendado e agora. Eis o  impasse como violar segredos, pensou-se em dinheiro, roubo de jóias de família, atiçou-se a ganância dos que brincando pedem para dividir.

Em torno da mesa gasta, com um bisturi e perícia é rompido o lacre, aparecendo varias caixas, e dentro delas outras tantas  e ao fim, em uma minúscula delicada, o segredo  revelado, com uma breve frase: “Te amo, perdoe-me por não poder estar perto como deseja, te deixo esta para sempre que partir pense  em voltar,  mas, se já não significo nada, esqueça-a num canto qualquer.
Do seu grande e eterno amor.”