Archive for the Nicolau Saião Category

Os recessos do poeta: uma homenagem a Fernando Pessoa

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Nicolau Saião, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 1 julho, 2009 by Marco Aqueiva

Nicolau_O tradutor_homenagem Pessoa

Arte: Nicolau Saião

VaLiSeS meta-PoéTicAs XxxI

Posted in Art, arte, artes plásticas, José Carlos Breia, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Metalinguagem, Nicolau Saião, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 19 junho, 2009 by Marco Aqueiva

Saião para Breia

 

Dicionário

por JOSÉ CARLOS BREIA

 

 

Este é o livro

onde as palavras

cristalizam.

 

Do livro agora aberto

–         do preciso rigor das suas linhas,

retiro algumas dessas formas frias.

 

Rodeio, lento, a sua geometria.

Paciente, procuro, ponto-a-ponto

a cruz axial em que se animam.

 

Os pequenos cristais

revelam ângulos, planos

que a sua dura forma escurecia.

 

Secreto,

fecho depois o livro em que o poema,

recomeçado sempre,

ausente fica.

_______________________

Imagem: Nicolau Saião

Un sombrero en la VaLiSe

Posted in Art, arte, artes plásticas, fotografia, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Mayte Bayón, Nicolau Saião, poema, poesia, Poetry, semiótica on 7 junho, 2009 by Marco Aqueiva

tn

 

Imagens e poema por NICOLAU SAIÃO

                     (4 flashes de Mayte Bayón)

 

 

Chapéu

 

 

Serve para quase tudo: para honrar, desonrar

os planetas, as putas, os homens.

 

4

Como uma alma disforme, já foi visto

esmagado sob o cu de uma duquesa

sentada num canapé, distante

e distraída. Como a luz, também pode

ser uma figura de retórica.

Levou tiros, rolou

no pó dos pátios, entrou

brutal nas sinagogas; e é sempre um elemento

combinado, composto

de círculos e recordações. Às vezes

tira-se o chapéu se a carteira não presta.

Nunca se concluiu

se verdadeiramente foge às responsabilidades: contudo

é animal capaz para o deserto

de baixo ou de cima

livre na velha terra dos dicionários

ou dos cactos. Raramente é tão-só uma ilusão

ou miragem.

 

tn2

Se nos cai da cabeça

por mera distracção

ou golpe de vento

há sempre alguém que o pise ou o apanhe

o chapéu é que já não é o mesmo

porque entretanto aprendeu muito

sobre como se comportar em sociedade

ou na rua.

                                   

É muito raro ficar

na cabeça dos mortos

ao contrário da camisa

que é de uso obrigatório. Rola sempre

para o lado da aurora

aos arrancos ou com grande doçura

como uma estrela

pendurada

 

num cabide.                                        

 

 

in “OS OBJECTOS INQUIETANTES”

 

3

UMa VaLiSe para queM nãO vai LOnge cOrrendO

Posted in Art, arte, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Nicolau Saião, poema, poesia, Poetry, semiótica on 25 maio, 2009 by Marco Aqueiva

Nicolau Saião_Primavera[1]

 

UM POEMA

por PEDRO MOTA REIS

 

Não se vai longe correndo

não se vai longe

a carne é fraca

o vento quebra ao nosso lado   as visões  os sinais

as presenças de gente e de lugares  de grandes

árvores solitárias

de portas que se abrem e de rostos sobre o seu

rodapé   de suas cicatrizes na madeira em que se bate

não se vai longe

dói por dentro a memória

o desejo

os grandes passos  as passadas ferindo lume

chispas mordentes de cavalo ou de avestruz no deserto

nas ruas imprecisas

mortalmente atentas

 

Não

não se vai longe

o peito ressoa

a mão grita

o olho soluça

e é por dentro um motor sufocando nas bermas

o nosso crescimento implume

 

Por isso é necessário

e vivente como andar de coruja ou leopardo

como rapariga apaixonada num café de vila remota

ir devagar

passo a passo

devagarinho como um ribeiro na pradaria   entre

árvores de fruto e plantas campestres

pé ante pé

com os dedos adejando  com os lábios

rebrilhando

e soletrar fragmentos de uma palavra serena

sonora

breve

 

Ir devagar

como se adormecêssemos

como se habitássemos um bosque

 

como se de novo chegássemos à primeira luz.

 

De Arte Fluvial. Coimbra, 2007.

*)*)*)*)*)    ****   (*(*(*(*(*

Imagem:  Nicolau Saião

De uma VaLiSe AtLâNtiCa, o AlenTejo Cá

Posted in Art, arte, artes plásticas, João Garção, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Nicolau Saião, poesia, Poetry, semiótica on 30 abril, 2009 by Marco Aqueiva

_alentejo-revisitado

 

_alentejo-revisitado-2

 

por Nicolau Saião e João Garção

VaLiSeS paRa OLhAR DançAR e foLgAR

Posted in Art, arte, artes plásticas, João Garção, José do Carmo Francisco, Nicolau Saião, poema, poesia, Poetry, semiótica on 20 março, 2009 by Marco Aqueiva

Textos por José do Carmo Francisco      

_a-grande-viagem1

João Garção, A grande viagem – cartão para tapeçaria

 

Olhar o monte 

 

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas. 

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

 

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

 

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.  

 

Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

 

Vejo o monte quando olho para ti.

 

 

 

_lucifer-no-alentejo

Nicolau Saião, Lúcifer no Alentejo

 

Dança comigo

 

(sobre um óleo de António Carmo)

 

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

 

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiro, soltos, e o olhar que os comanda, firme. 

 

Não sei dançar. Nunca dancei mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

 

Não, como é lógico, para dançar mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

 

 

VaGaBONdageS, andaNÇaS & VaLiSeS

Posted in Art, arte, conto, literatura, literature, Nicolau Saião, prosa poética, semiótica on 11 março, 2009 by Marco Aqueiva

van-gogh_feu

(Texto original em francês seguido da tradução ao português)

 

Vagabondages

por Jules Morot

 

 

  Mes voyages sont faits d’hasards et d’ombres. Ou d’ombres et d’hasards, car la somme et la séquence des facteurs c’est parfois arbitraire. Ou ce ne sera pas ainsi?

   Au moment cela n’importe pas, maintenant ce qu’il faut d’évoquer sont les grandes présences des forêts en passant par moi, sur moi, sur ma tête, mes pieds, mes mains et mes épaules. Le vêtement qui m’habille et que de temps en temps  me laisse à nu, la mer dont je me rappelle toujours dans cet après-midi ensoleillé, à cette fin d’après-midi quand une étoile brillait déjà dans le ciel, le banc de jardin où je me suis assis un jour dans une petite terre d’Espagne, les grands feux allumés dans la montagne, les buchers qui me fascinaient, qui me laissaient surpris, car je n’connaissais pas encore le feu et son innombrable architecture pleine de terreurs et d’enchantements, la voix du vent là dehors, par les chemins de la montagne solitaires comme des fleurs dans un bois qu’on ne sait bien où il se place.

  Mes voyages sont faits d’amertume parce qu’ils ne tourneront plus jamais. Les voyages sont comme un rocher dans une forêt en silence au matin. Une forêt où des animaux sont nés et des animaux sont morts, la douceur d’un rayon du soleil ou du clair de lune sur le dos d’un loup ou d’une inconcrète apparition.

  J’ai ta main et j’n’ai pas ta main. Des images m’encerclent et sont des choses qu’ existent, du pain et de l’eau apportée des places plus éloignés et qui nous habitent. C’est mon eau intérieure, l’eau qui tu exsudes, l’eau que j’ai bu dans ton coeur, ce sont tes yeux que maintenant je ne reconnais pas, la lueur du passé.

  Les maisons qui courent à mon contour, le roulement soudain de tambours d’un train perdu et cette voix de femme en disant à l’autre, la plus jeune, la plus voyante: “C’était là notre chambre, te rappelles-tu? Ont été tant des fois que nous avons nous placé à la fenêtre, le père était encore vivant”. La mémoire qui se cache pour toujours dans un petit recoin du cerveau, comme un portrait humble au coin d’une table dans une salle très ancienne.

 

  Mes voyages sont faits de tout ce qui nous soutient et nous abandonne dans les grandes randonnées, au long d’un fleuve ou d’un désert.

  Mes voyages sont comme des livres aimés et égaux aux crimes d’un autre, quelqu’un qu’existe et n’existe pas, quelqu’un qui habite à mon intérieur et dans la poitrine que je conserve encore plongé dans ce temps, dans l’autre temps, dans tous les temps de l’univers.

in “Le mardi gras”

 

                            +_+_+_+_+_+_                   +_+_+_+_+_+_

 

 

Andanças

Tradução de Nicolau Saião

 

 

  As minhas viagens são feitas de acasos e de sombras. Ou de sombras e de acasos, pois a soma e a sequência dos factores  por vezes é arbitrária. Ou não será assim?

  Não importa de momento, agora o que é preciso evocar são as grandes presenças das florestas passando por mim, por sobre mim, por sobre a minha cabeça, os meus pés, as minhas mãos e os meus ombros. A roupa que me veste e que de tempos a tempos me desnuda, o mar que sempre recordo, naquela tarde ensolarada, naquele fim de tarde quando uma estrela já luzia no céu, o banco de jardim onde me sentei um dia numa pequena terra de Espanha, os grandes lumes acesos na serra, as fogueiras que me deslumbravam, me deixavam surpreso, pois ainda não conhecia o fogo e a sua incontável arquitectura plena de terrores e de encantamentos, a voz do vento lá por fora, pelos caminhos da montanha, solitários como flores num bosque que não se sabe bem em que lugar fica.

  As minhas viagens são feitas de amargura por não mais voltarem. São como um rochedo num bosque silente na manhã, um bosque onde animais nasceram e animais morreram, a doçura de um raio de sol ou de luar sobre o dorso de um lobo ou de uma inconcreta aparição.

  Tenho a tua mão e não tenho a tua mão. Imagens rodeiam-me e são coisas que existem, o pão e a água trazida dos lugares mais remotos e que nos habitam. A minha água interior, a tua água que ressuma, que bebi no teu coração, os teus olhos que já não reconheço, o fulgor do passado. As casas que correm ao meu redor, o rufar repentino de um combóio perdido e aquela voz de mulher dizendo para a outra, a mais nova, a mais vistosa: “Ali era o nosso quarto, lembras-te? Tantas vezes que nos pusémos ali à janela, ainda o Pai era vivo!”. A memória que se esconde para sempre num recantozinho do cérebro, como um retrato humilde ao canto de uma mesa numa sala muito antiga.

  As minhas viagens são feitas de tudo o que nos ampara e desampara nas grandes caminhadas, ao longo dum rio ou dum deserto.

  As minhas viagens são como livros amados e iguais aos crimes de outro alguém que existe e não existe, um alguém que mora dentro de mim e do peito que ainda conservo mergulhado neste tempo, no outro tempo, em todos os tempos do universo.

 

+_+_+_+_+_+_

Arte: Marco Aqueiva ao fogo de Van Gogh

 

AníBaL e aS mOsCaS FiLóSofaS na VaLiSe

Posted in Art, arte, artes plásticas, conto, literatura, Literatura Portuguesa, literature, Nicolau Saião, semiótica on 2 março, 2009 by Marco Aqueiva

 pastarela-008

 

Imagem e texto por NICOLAU SAIÃO

 

 

ANÍBAL E AS MOSCAS FILÓSOFAS

 

 

   Estava há sete semanas naquele quarto de hospital e principiava a chatear-se.

   Todos o tratavam muito bem – alguém lhe emprestara mesmo uma telefonia – mas o certo é que começava a sentir-se ligeiramente aborrecido.

   Não era que a enfermeira não lhe trouxesse a comida quentinha a horas certas, nem que o dr.Varela lhe faltasse com a sabedoria médica. Não. Toda a gente era realmente muito simpática, mas ele principiava a ficar um bocado… frio.

   A partir da terceira semana começara a segredar para si próprio ideias que apanhava ao calhar. E, caso estranho, pensava, pensava muito, pensava como nunca havia pensado: pensamentos gordos, mesmo suculentos, que lhe deixavam na boca um sabor esquisito e galopante, como se fossem comboios molengões andando sobre carris podres. Não estava a gostar nada daquilo.

  Além do mais, de noite o quarto enchia-se de vagas correrias, vagas risadas…

  Virou-se para o outro lado.

  O pára-choques apanhara-o exactamente em cheio no sítio onde as costelas dizem adeus ao estômago. Acordara depois, de súbito, numa cama descompassada com formigas e abelhas a passearem para baixo e para cima a toda a altura do esqueleto, suaves, venenosas. A cabeça muito bem entrapada repousava virtuosamente sobre uma almofada branca. Em volta, tanto quanto se lembrava, uns fantasmas abusadores deambulavam num leva-traz peculiar zurzindo o ar ambiente com uma lengalenga que nem por ser em voz sumida era menos estarrecedora.

   Depois foi-se habituando.

   O dr. Varela chegava ao crepúsculo, ou ao nascer do sol, com os óculos muito calmos e mudos a apontar na sua direcção: pegava-lhe no pulso, rosnava sabiamente, abanava a cabeça e, antes de sair, escrevia qualquer coisa num papel. Ele por momentos pensava que o dr. Varela tinha um pacto secreto com o seu aborrecimento, mas está-se a ver que era só impressão.

   A enfermeira, como é natural, vinha mais vezes. Tinha um nome impronunciável, olhava aos ziguezagues e era magra e penugenta. Cheirava a relógios bem lubrificados e nunca se ria. Também não devia ter de quê, pensava ele, mas tudo aquilo lhe fazia nervos.

   A enfermeira era ferozmente cumpridora. Uma boa profissional: puxava-lhe a roupa para o pescoço se o topava destapado, metia-lhe pastilhas entre os beiços, a horas correctas ajudava-o a assoar-se e a fazer mais coisas. Enquanto ele teve os braços em gesso, deu-lhe a papa com um clarão de bondade nos sobrolhos perfeitamente assustador.

   O termómetro que sempre transportava no bolsinho da bata constituía uma realidade imprópria.

   Saía depois de o olhar com satânico interesse enfermeiral. Antes de fechar a porta a sua mão traçava no ar um círculo cinzento e agressivo

   A esposa visitava-o três vezes por semana, mas isso já não o arreliava por aí além. Ficara imunizado por dezassete anos de matrimónio. Já estava mais que familiarizado com o seu narizinho de coruja egoísta e com a sua voz que a passagem do tempo tornara rascalhante. Limitava-se a ficar calado, com os olhos bem fixos no meio do tecto. Às quatro da tarde a esposa abandonava a partida e ia-se com o seu passo de flamingo de noventa e oito quilos. Ele fingia que não era nada com ele.

   Foi no dia em que lhe tiraram as últimas ligaduras que ele viu as moscas.

  Eram duas, esvoaçando solenemente na meia sombra com um ar tranquilo e respeitável. Tinham o aspecto de moscas de sociedade, talvez já grisalhas dos anos e ele por uns segundos raciocinou que até nem se espantaria se lhes visse bengala e gravata.

   Durante vários dias as moscas não lhe largaram o quarto.

   Eram moscas filósofas. As suas conversas, num tom muito fino e discreto, eram do mais alto interesse e centravam-se sobre os grandes temas do universo: o Homem, o Tempo, a Infância, todas as coisas – enfim – que horrorizam ou causam prazer, o Mundo, o Amor e a Morte. Um nunca mais acabar de problemas maravilhosos e inextrincáveis.

   A ele o que mais o danava era o seu arzinho superior, como fingindo que nem por ele davam: como se ele fosse um retrato decrépito que para ali estivesse. E, no entanto, elas bem sabiam que ele não perdia pitada das conversas, com os punhos o mais possível cerrados.

   Começou a detestá~las. Precisamente no dia em que lhe tiraram o gesso da perna direita.

   No entanto, por orgulho, nunca tentou imiscuir-se nas suas conversas. Ainda não descera  tão baixo.

   Na tarde seguinte, tarde de visita conjugal, as moscas falaram do Ser e das metafísicas, Falaram também das estrelas e seus prestígios, dos barcos à deriva nos mares antigos, dos astrónomos e dos reis dos países afastados. Ele sofria tanto que foi com renovado alívio que viu a cara-metade abandonar a cena da sua tortura.

   Com pasmo e raiva estendeu o braço e abriu a telefonia. Adormeceu ao som dum fadinho picado em surdina.

   E sonhou sonhos esquisitos de defuntos e bosques imensos, de catedrais e aranhas.

   Acordou ao crepúsculo. Em cima da mesa estava uma bandeja com vitualhas. Nada se ouvia. Nem…o voar de uma mosca.

   As moscas tinham partido. Durante o seu sono pela tarde fora, tinham decerto voado através da janela entreaberta buscando diverso poiso, concerteza sempre debatendo entre si as coisas belas e incríveis. E ele sentiu de súbito vontade de partir tudo, pois já lhes havia jurado p’la pele: quando estivesse de posse de todos os seus meios físicos, ele lhes diria. Haveria de as ensinar com decisão: ficariam, até, sem vontade de tasquinhar o mais apetitoso bocadinho de excremento!

   Mas o certo era que haviam partido. Inexoravelmente. E nada, pensou, poderia fazer!

   O crepúsculo, cinematográfico e devorador, entrava aos gargarejos para dentro do quarto. Do outro lado da porta uns passos conhecidos crepitaram com energia.

    O dr. Varela entrou, com os óculos muito serenos.

   Com uma branda emoção a palpitar progressivamente na garganta ele deu por si a notar, cheio de deliciosas comichões, que a cara do dr.Varela era mesmo, mesmo parecida com a da mosca mais faladora. 

 

___________________

  

in “A mala de viagens”

da segunda parte “A mala estranha

 

 

Três VaLiSeS à InFâNciA iii

Posted in Art, arte, artes plásticas, literatura, literature, Nicolau Saião, poesia, semiótica, Valises on 15 fevereiro, 2009 by Marco Aqueiva

estorias-da-branca-de-neve-de-a-mala-dos-bonecos1

Nicolau Saião – Estórias da Branca de Neve

 

               OUTONO

       

por NICOLAU SAIÃO

 

Em certos dias

não há quase nada que nos console.

Talvez só uma lembrança

de uma rua ou de uma casa

daquelas especiais

que havia quando éramos adolescentes

e enquanto tomávamos uma bebida

no café onde já nos deixavam estar

seguros da nossa importância

de pequenos pássaros aventureiros

olhávamos pensando

que quem lá morava

devia ter sem dúvida uma vida cheia de sonho.

 

Em certos dias

o grande mistério fica mudo

e o frio nem cheira a alfazema e rosmaninho

e só conseguimos falar a nosso respeito

anichados pelos recantos.

 

É bom haver requinte nas pequenas coisas

meter a mão no bolso

e achar uns tostões perdidos

saber que um gato é não mais que um pretexto

para dormirmos a sono solto

Mas a primeira coisa que avistamos

nesses dias sem agasalho

é muitas vezes só a voz dos meses

o choro dos dias santificados

 

Ou o cheiro dos frutos comidos há anos

e que agora   frementes   se afastam de nós

enquanto a nossa sombra   sem fazer barulho

se coloca de mansinho  lentamente  devagarinho

 

bem junto da porta   p’ra poder ir-se embora.

 

    ———————————

    in “A mala de viagens

     da primeira parte de “A mala dos anos