Archive for the Opressão Category

Na VaLiSe de SaMueL BeCkeTT

Posted in Absurdo, Art, arte, Ato sem palavras, Crítica, Desumanização, literature, Opressão, Samuel Beckett, teatro, The narrow way, Youtube on 15 abril, 2012 by Marco Aqueiva

 Ato sem (muitas) palavras

                                     por Marco Aqueiva

 

Ele vivo. No limite ainda vivo. Sem poder sair. Condenado e vivo. Todo dia ele ainda. Ele ainda vivo. Todo o dia ele menos ele. Todo dia eles sempre. Todo o dia eles que fecham. Todo dia eles fecham. O mesmo. Eu mesmo. Eles dizem que ainda vivo. O espaço, o mesmo tempo parado. O espaço fechado, sem saída. Nesse espaço eu, fora eles. Foram eles que sempre riscaram o limite. Eles dizem que vivo. Eles põem e tiram coisas. Trilos sempre. Trilos sempre se pronunciam. Plantam a mesma sombra diária e lá vêm trilos. Quem me diz que posso? Oferta-se inacessível a água da vida sob trilos. Como posso? Eles sempre riscaram o limite. A ação possível. Eu não arrisquei nada. Ainda vivo? Eles querem me fazer crer. Eles querem me fazer crer que estou vivo. Que estou vivo e o retorno é sempre possível.

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MAReMAR KAFkaNIAno

Posted in conto, Kafka, Liberdade, literatura, literature, Opressão, semiótica on 11 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

kafka-kfkaniano

por Carlos Pessoa Rosa

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Resolvi mudar o rumo… Sem olhar para trás. Ficar longe das vaidades inúteis. As últimas economias serviram para comprar a passagem. Tiracolo, uma valise. Leve, muito leve. Carrego o essencial, poderia dizer. Se bem que isso nada diria aos outros. Aliás, meus interesses nunca sincronizaram com o comum. Só não esperava por isso. Um sujeito fardado indicando-me um longo corredor. Faço com a cabeça que não concordo. Sinaliza para outro segurança. Achei melhor pegar o atalho. Depois do corredor, um balcão com outro segurança, o sujeito ordena que abra a valise. Perda de tempo, digo-lhe. Inútil tentativa de levá-lo a desistir. É minha função, vamos, abra logo a valise, responde-me, rispidamente. Ao abri-la, percebo certo desconforto no rosto do homem. Afinal, o que é isso? Nada… Como nada, qual o sentido disso? Nenhum… O senhor está a brincar comigo? Não! Então, o que significa isso? O que o senhor carrega nessa valise? Respiro fundo antes de responder: o silêncio. Pare de brincar comigo! Não estou brincando, é tudo o que sobrou de meu passado… O senhor será detido! Detido por carregar o silêncio… o senhor está louco? Detido por não informar adequadamente o que está carregando nessa valise. Mas já lhe disse que carrego o silêncio. O senhor está querendo gozar de mim? Seguranças, levem esse homem, ele está detido. Ainda tentei que me esclarecesse o crime… Preso por não informar ao fisco o que está carregando, sonegação de informação e, possivelmente, de imposto, além do fato de o silêncio não fazer parte da lista de possibilidades da bagagem de qualquer viajante. Apreenderam a valise para averiguações e me jogaram dentro de outro silêncio, o dos presídios, uma sala fria, de cores frias, junto de outras pessoas também detidas, mas não por carregarem uma valise onde se encontrasse o silêncio pessoal. Não demorou para me chamarem. Da valise, restos de couro e o fecho sobre a mesa. Um homem gordo, de rosto rosado, olha-me com desconfiança. O senhor é um terrorista, descobriu uma arma invisível, nos mostre como detectá-la e prometo que o libero. Digo-lhe que ninguém conseguirá apalpar ou enxergar o meu silêncio, que ele não fará mal a ninguém… O senhor talvez seja um terrorista muito bem treinado. Vamos deportá-lo! Não podem fazer isso comigo, gastei minhas últimas economias… Não temos opção. Então, devolva-me o que restou de minha valise. Viu? Praticamente confessa que há algo muito importante nessa valise. Já disse, só carrego meu silêncio. A valise ficará retida para novas averiguações. Sem minha valise eu não saio daqui, vocês terão que me matar. Mataremos, então!

(Mas não sem me devolverem o silêncio, formato de uma valise, está sobre a mesa, que eu pego e saio atravessando as paredes. Ao redor, o silêncio das profundezas, absoluto… kafkaniano.)         

Arte: Marco Aqueiva