Archive for the Paul Klee Category

VaLiSeS meta-PoéTicAs Xxi

Posted in Art, arte, artes plásticas, João Cabral, literatura, Literatura Brasileira, literature, Metalinguagem, Paul Klee, Poética, poema, poesia, Poetry, semiótica on 17 maio, 2009 by Marco Aqueiva

Paul Klee_highway_valises copy

 

A Lição de Poesia

por JOÃO CABRAL DE MELO NETO

 

1

Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2

A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3

A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis – naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

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Imagem: Paul Klee tratado à base de Valises por Marco Aqueiva

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Mais uma VaLiSe à InfÂncia

Posted in Art, arte, artes plásticas, conto, literatura, Literatura Brasileira, literature, Paul Klee, semiótica on 13 maio, 2009 by Marco Aqueiva

paul klee

 

CAIXA DE MEMÓRIAS – O BALÃO

Por HENRIETTE EFFENBERGER

  

No dia em que completei oito anos, meu pai me surpreendeu com um presente inesquecível: um balão enorme, nas cores amarela e preta, onde estava escrito o meu nome e a data 29.06.1960.

Estávamos no quintal da casa de meus avós quando ele me sugeriu que escrevesse uma cartinha a São Pedro e me disse que,  quando o balão chegasse ao céu, o santo porteiro ficaria tão feliz que atenderia todos os meus desejos.

E enquanto meu pai e seus amigos finalizavam os ajustes necessários no balão, sentei-me na soleira da porta da cozinha e redigi o que acredito tenha sido minha primeira correspondência (descontando-se, é claro, as cartinhas que já tinha escrito ao Papai Noel!).

Lembro-me de ter caprichado na letra e atendendo às freqüentes solicitações (!) de minha saudosa professora, D. Mathilde Teixeira de Moraes, pingado todos os is e cortados todos os tês. Desenhei florzinhas e patinhos nos cantos da página e mostrei a carta a meu pai aguardando, ansiosa,  que ele a lesse. No entanto, ele a dobrou e me disse: isso é uma correspondência particular, vamos deixar que São Pedro a leia. Não vou negar que fiquei desapontada, esperava um elogio se não pelo texto, pelo menos aos desenhos.

Percebendo meu desapontamento, meu pai me explicou que correspondência é uma coisa preciosa e ler a correspondência endereçada à outra pessoa é tão feio como espiar pelo buraco da fechadura ou ouvir atrás das portas.

Saímos todos: meu pai, seus dois amigos e eu, colocamos o balão na carroceria da camionete de três rodas e fomos até o aeroclube, que naquela época chamávamos de campo de aviação, para soltar o balão. Meu coração sacolejava mais do que a camionete que meu pai apelidou de “mamangava”, enquanto seguíamos pela estrada de terra poeirenta e esburacada.  Não sei se eu tremia de frio ou de emoção naquele início de noite de inverno. Sei que a estrela Dalva já faiscava quando o balão finalmente saiu do chão, começou a ganhar o céu e foi subindo, subindo, subindo, levando com ele meu recado a São Pedro.

Quando o perdemos de vista, retornamos à camionete e fomos jantar no Copacabana, agora só meu pai e eu.  Pedi frango a passarinho, ele bife à parmegiana e de sobremesa ambos tomamos sorvete de chocolate, com calda quente.

Há mais de dez anos meu pai morreu. Recentemente vasculhando em seus guardados alguma referência ao mesmo aeroclube, no qual ele se brevetou em 1945, encontrei a cartinha que escrevi a São Pedro: Querido São Pedro: Feliz aniversário pro senhor também estou mandando este balão de presente que foi meu pai que fez pra mim e pro senhor. Eu queria muito que o senhor fizesse o meu pai e a minha mãe morar junto comigo de novo e queria também aquela caixa de lápis de cor de 4 partes. Obrigada da sua querida Henriette

E eu, que até então imaginava que São Pedro não gostava de balões, entendi que ele não atendeu meu pedido porque minha cartinha tinha sido interceptada. Entendi também porque, no dia seguinte, meu pai me deu outro presente de aniversário: a caixa de lápis de cor, com quarenta e oito cores.

                        Do livro Linhas Tortas (2008)

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Imagem: Paul Klee