Archive for the Pedro Du Bois Category

recontAmoS AS VAliSeS

Posted in Art, arte, Crítica Literária, literatura, Literatura Brasileira, literature, Pedro Du Bois on 11 dezembro, 2009 by Marco Aqueiva

NÚMEROS RECONTADOS

por Tânia Du Bois

            O que carregamos nas valises das nossas vidas? Ao findar o dia não termos esquecido de efetuar os pagamentos. Mas, do sorriso e da bondade que não contamos, será o caso do dia? Recontamos os números? Ou pesamos a valise?

            Ordenamos, classificamos, quantificamos, qualificamos e recordamos os fatos através dos números, que tornamos marcas da vida, como encontramos no livro de Pedro Du Bois, Números Recontados.

            Números são importantes na vida; recontamos nossa trajetória através de calendários. Datas são o questionamento do dia-a-dia. Nascimentos, aniversários e mortes. Quando menos se espera, a palavra dita é número: multiplicação da vida; partilhada com os amigos; o sentido simbólico aprisionado em tantas datas, pois os números ocupam um lugar reservado no tempo: passado, presente e futuro – em bifurcações de tantas outras vidas contabilizadas que nos acompanham.

 

            “É cedo rapaz // undécima hora / composição atrasada / na partida //  vida inquieta / trocando os trilhos / descarrilando a passagem / induzindo novos caminhos // É cedo rapaz / verdadeira hora / de  revelações / e acomodações.”

            Passado tempo, os números ocupam o primeiro lugar nas atividades diárias; a sociedade em mudança transforma tudo em senhas; códigos secretos para abrirmos a nossa valise.

            Passado tempo, nada muda na contagem dos dias, apenas retemos na memória a história como se apresenta no caminho (multiplicação da vida), na espera continuada que faz de você eternidade em que vive esses anos todos.

 

            “Robusto ao nascer / dois anos prodígio / falando palavras, fazendo          contas // quatro alfabetizado / sete, expressando-se em inglês / dez, boa  pontaria / atirando em passarinhos e galinhas / doze penugens no rosto / prenunciando a barba, bigode e pentelhos // dezesseis, emancipado para ser comerciante / não foi nem mesmo ambulante // dezoito, eleitor por obrigação / vinte e um, esvoaçante / na maioridade / não tivesse sido emancipado aos dezesseis // vinte e quatro, travesti / prazeres e   trabalhos / em domicílio, hotéis baratos / vinte e sete, defunto.”

            Vidas viciadas, dependentes dos números.

            Somos o dízimo da sociedade? Recontamos as valises?

            Ou somos incontáveis sonhos de horas perdidas?

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Desvelando a VaLiSe de Pedro Du Bois

Posted in Crítica, literatura, literature, Pedro Du Bois, poesia on 16 outubro, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Tânia Du Bois

                      “A mão risca as palavras e delas me alimento na
                      avidez com que sou consumido em vida”.

 

         Desvelar a valise de Pedro Du Bois é estar embebido de poesia. É se sentir engajado, como o poeta vive a sua vida, na literatura. Em outras palavras, é cantarolar, suspirar arte, cuja beleza o traduz em cada poema.

            Du Bois se redescobriu escritor com expressões sedutoras que designam seus belos poemas: “… Não há pecados em tuas mãos”. Ele dignifica a poesia com a capacidade que tem de observar, estender o pensamento e o coração aos fatos, e os explicar à luz do homem.

            Observar e registrar são processos diferenciados em que os poemas demonstram a beleza de que os registros são os únicos ingredientes da escrita. Os registros são em verdade necessidades, enquanto a observação se constitui na qualidade inata do pensamento diante dos fatos. Como revela a poetisa Manuela Dipp: “A poesia de Pedro não espera por ele, nem Pedro penseiro espera a poesia. Eles simplesmente encontram-se num ponto lúdico de convergência. Pedro não brinca com as palavras, Pedro as entretém, nesse interminável jogo chamado literatura”.

            O Pedro poeta registra, revela o que sente e do que participa. É onde o grande escritor se inicia, com versos cortantes, palavras de reflexão formando uma narrativa poética com força e originalidade. “Não há/como roubar/o tempo/que não/nos pertence”.

Iva Mikalosky, ao retirar o véu dos poemas de Du Bois, cita: “Nos poemas, Pedro abre o seu coração e seduz nossa imaginação, musicando e coreografando palavras, mostrando-se um criador que está em sintonia com o tempo”.

            Não me furto em dizer que a escrita de Du Bois é a da contundência, fluidez e precisão, e não apenas pelo pendor da escrita sagaz e moderna; como ele se refere, “Aprendi com Borges a bifurcar os caminhos. Ir e voltar. Não ir, e mesmo assim voltar”. Ele consegue colocar ganchos que nos dão o que pensar, fazendo-nos refletir a importância dos problemas existenciais. Como nas palavras de Danilo Neuhaus, “Passear pelas gaiolas do Pedro é uma maneira de descobrir o poder das nossas asas e as razões do nosso triste canto. Passeando por esses versos vamos reconhecendo aqui e ali as gaiolas que nos cercam e que talvez um dia possamos abrir”.

            Se seus textos permanecem é porque ele olha o homem sobre várias perspectivas, mas de forma semelhante, embora opte por retratar a vida, mostrando a força literária dos bons poemas.

 

Em quais palavras
materializamos a espera?
E a angústia quanto espera?

 

O poeta sabe que as palavras
fazem melhor o esperar
enfraquecem a angústia
tiram a culpa
apressam o tempo.

 

De quantas palavras
seria feita a espera?

 

            As palavras de Pedro levam ao encantamento, nos enriquecendo com a sua poesia. Ela não silencia: fala. Como comentou Jorge Geisel, “Com a tua poesia basta o silêncio, a reflexão como aplauso à obra”.

Arte: Marco Aqueiva a partir do trabalho Rocky Landscape, de Paul Klee.