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Duas valises entre a morte do poeta e a glória do herói olímpico

Posted in Jogos Olimpicos, literatura, literature, narrativa, Olimpiadas, Pequim 2008, poesia, semiótica on 23 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

A Morte do Poeta

por Cláudia L. Moraes

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Dia desses ganhei uma valise mágica. Lá, coloquei tanta coisa: milhares de sonhos; fantasias envelhecidas e nunca usadas, confissões absurdas de como matar o gato da vizinha que faz um barulho danado à noite, a vontade de que o príncipe que tenho ao meu lado volte a ser sapo e se perca numa lagoa qualquer, ou, até mesmo, beijar um novo sapo para transformá-lo em príncipe, quem sabe. Ah! A delícia da conquista. Achei que deveria guardar dentro da tal valise os meu medos todos: de escuro, de distâncias, de ficar sozinha e o pior deles, o de perder a consciência do mundo que me cerca. Coloquei lá dentro as minhas saudades, meus luares, minhas estrelas, meus amores, meus versos inquietos e, por que não, minha mente de poeta? Pronto! Percebi que tudo o que eu tinha e sentia havia ido para dentro da valise. Fiquei vazia. Então, me joguei dentro dela, que simplesmente desapareceu.

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Uma valise entre o mortal e o herói olímpico

 

 

  

 por Marco Aqueiva

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Chegaram a mesma hora à vila olímpica. Reconheceram-se prontamente para captar de súbito a transformação de ambos. Na fotografia muda da infância, que ele ainda guardava sob silêncio ultrapassado subitamente por uma sensação esquisita e inominada, sempre habitou outra mulher em outra cidade. Ele nascera para a vida. Ela para a glória. Mas se ela antes extremava seu olhar para um novo futuro, para outra direção, que não a da vida acanhada em si mesma, amesquinhada ao redor de marido, filhos, lazer aos domingos com os sobrinhos e a sogra, vida acanalhada sob certezas e ninharias, onde teria então ficado a pré-história da atleta vencedora que outrora carregava no prazer de cada momento todo o corpo e horizonte de que precisava? Não seria eu que a desceria da glória. Fingi que não a reconheci. Em minha valise ainda hoje permanecem os úmidos vapores da velha fotografia contra a lente rachada de meus óculos.

 

 

 

 

Duas provas para o rito humano

Posted in Jogos Olimpicos, literatura, literature, narrativa, Pequim 2008, poesia, semiótica on 8 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

por Marco Aqueiva

JOGOS OLÍMPICOS OU JOGOS PÍTICOS ?

A terra é redonda, e porque todos os caminhos levam a Delfos, omphalos do mundo, até os de Běijīng 2008, Bárbara, com um brilho que tornava ainda mais arredondados seus olhos, sugeriu que recriássemos, aqui no Valise, os Jogos Píticos, paralelamente aos Jogos Olímpicos de Pequim. Propôs, com seu vaporoso verde-roxo: – por que não podemos, concomitantemente às competições esportivas na China, promover um certame que teste o limite do engenho e arte?

 

E porque é melhor convergir do que entrar em confronto, comecei dando asas violetas ao cenário maduro. Disse-lhe: rebentemos logo pela prova dos 800 metros. Alguém talvez pergunte: Por que os 800 m? A terra é redonda, como os arredondados contornos suaves de Bárbara, e seus oito admiradores atuais ainda a disputam com fome, litorais, ferraris, ilhas, iates, istmos, continentes. Se olharmos ao chão, diz esta bela mulher, é porque a vertemos em sangue. Se mirarmos o alto, é porque entrevemos encontros, passagens, agosto, por uma guerra corporal e amargo exílio.

 

Por outro lado, boa parte de nossos autores atletas, deixando a metafísica no túmulo, já trariam os louros das conquistas na testa imortal. Os autores atletas vivos que decidem participar não escondem um certo incômodo, pois não têm ainda a imortalidade, e sabem que o futuro depende muito mais de contemplação que de alongamento. Uma única vez encontrei Sade e Sá-Carneiro disputando a mesma prova. Quando Bárbara soube, precisei consultar atentamente seus olhos baços para perceber seu choro.

 

Sem uns jogos físico-místico-poéticos, mal suportaríamos o mundo rebentando em seu fluir e refluir a sala e sofá.

 

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por Ana Luiza Burlamaqui

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A MALA DA ASSISTENTE

 

 

Alguns insensatos  sugerem, esqueça esta mala que  arrasta por mais de três décadas em alguma esquina.

 

Propositadamente esqueça-a e não olhe para trás para não transformar-se numa estátua de sal , lave as mãos e siga em frente.

 

Por vezes , quando a dúvida me abarca ao final do dia e revejo as trilhas do ontem, decido que é chegado o ponto final .  Assim como a canção, “cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é”. Apartar-me  de tudo e deixar que alguma pirata de rua lance mão dos segredos dela.

 

Psiu, alguém, você aí, Senhor , Senhora, dama da noite, crianças, adolescentes, por favor dêem conta desta mala e suas verdades.

 

Dos pares de  meias desgastadas pelas longas caminhadas de rua,  dos abraços incompletos pela mutilação da vida, das dores do mundo, dos órfãos da miséria, da escuridão da caverna da ignorância, dos jalecos brancos manchados de sangue pela indiferença, dos presos  em casa, dos  soltos  sem destino,  dos inocentes homens  nascidos na solidão do lixo  das  calçadas.

 

Dos viciados na corrupção, dos desejosos de mudança, dos irmãos que fazem a guerra pelo poder. Dos que esperam e não são atendidos. Dos quem nunca foram bem-vindos. Das leis que não se cumprem, da violência  que encobre a poesia  e a beleza de um dia quente de sol.

 

Por favor não corram errantes, em zigzag pelas calçadas.

 

Há uma mala extraviada, perdida, sem endereço certo,  uma herança de mais de trinta anos esperando para ser libertada do destino de guardar as  coisas do mundo deixada por uma mulher de cabelos de fogo.

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Crédito de imagem: Duchamp