Archive for the Perversão Category

PerVERsões na VaLiSe – enTÃO o DESfecho !

Posted in Antropofagia, Art, arte, Belo escatológico, conto, escatológico, literatura, literature, narrativa, Pós-antropofagia, Perversão, semiótica on 14 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

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Os assassinos e o juiz

por Carlos Pessoa Rosa

 

Atentos aos cantos e às imagens santas, poucos peregrinos reparavam o conteúdo da banca improvisada. Os não tão fiéis, diante da carne em início de putrefação, faziam o sinal da cruz sussurrando cruz-credo e seguiam o séquito em veneração às imagens cristãs, mais devotos que antes.

O que poderiam fazer ali três sanguinários, frios assassinos, com as partes de duas – que me permitam os mais pudicos – putas que encontraram na rua e esquartejaram como não se faz nem com um animal, com as mãos ainda sujas de sangue, distantes da fé que escorria diante dos olhos, fiéis nunca os mesmos, como as águas de um rio?

Procuravam o diabo segundo a receita do sujeito dos batuques do terreiro que frequentavam, único modo de expurgarem a praga que caíra sobre eles. Disse-lhes o mirrado de branco e charuto vagabundo na boca, em transe: vai fio, pega duas muié de rua, separa as parte e dê de cumê aos rato, a sobra coloqui na rua onde vai passá a pocissã, o que o diabo aparece…

A carne apodrecia quando um dos sectários aproximou-se dos três, observou atentamente os pedaços, remexeu até encontrar o que procurava. Os companheiros entreolharam-se e, tal como falavam a mesma língua, tiveram idêntico pensamento: afinal, o que faria o diabo com a buceta de duas putas?

Quando a coisamá, sem chifre ou rabo, perguntou-lhes o preço, o mais velho foi logo dizendo, como haviam sido orientados no terreiro, que Era de graça, pagamento de dívida, prá não si preocupá. O comprador seguiu, então, sentido contrário ao culto, sendo observado pelos três que ainda acreditavam ver o rabinho balançando no ar, mas que um longo casaco não permitiria enxergar. Satisfeitos, assim que o diabo desapareceu na dobra da rua, certos que haviam liquidado a dívida com o capeta, jogaram todo o resto no bueiro próximo e saíram dali para um boteco, onde tomaram algumas pingas e o acerto foi uma dezena de balas no corpo do dono.

Não saberiam, nem precisava, que o sujeito era um fiel respeitador do dízimo, assíduo nas missas, respeitado publicamente e profissionalmente, dono de um martelo que fazia cumprir a lei com rigor, mas que tinha lá sua perversão. Leitor de Guillaume Apollinaire, não o pensador, mas o escritor de “As onze mil varas”: Aqui jaz o príncipe Vibescu/ Único amante das onze mil varas/ Valeria, melhor, passante, saiba disto, / Desvirginar as onze mil virgens.

Como o livro chegara até ele, já não sabia, mas era certa, à época, a timidez e a dificuldade de se aproximar das mulheres. Aquele parágrafo no livro, despertou-lhe estranhas fantasias com cadáveres: Mony espancou então aquele traseiro que se revolvia e cujos lábios da buceta engoliam e vomitavam celeremente a coluna cadavérica.

Muitos crimes cometidos em causa própria, enterrou no calabouço, com réu julgado e condenado por ele mesmo, mas inocente. Foi a oferta de venda de cadáver plastificado pelo médico alemão Gunther Von Hagens que levantou a possibilidade de não correr tantos riscos diante de uma tara que se transformara em uma possessão, com necessidade diária de satisfazê-la. Conseguiu, então, junto aos pares, argumentando interesse científico e médico legal, um estágio no serviço do patologista, o que lhe permitiu conhecer toda a técnica.

Voltou decidido a plastificar vaginas, teria seu problema resolvido, o que não esperava era encontrá-las à venda na rua, durante a procissão, vendida por três sujeitos de índole assassina, conhecia-os pelo cheiro e a expressão que carregavam no rosto, aquele ar de sujeito sem tempo, tão própria dos coveiros, mas que, diferentemente destes, nada lhe cobraram para ter o objeto de desejo. Em casa, retirou o casaco, levou as duas vaginas para uma oficina no fundo do quintal, retirou o ar presente na carne e plastificou o sexo das duas putas.

Os marginais foram presos meses depois, incertos de terem vendido a carne ao diabo, dúvida desvendada no dia do julgamento. Tinham diante deles, dando o veredicto, aquele que pensavam ser o capeta…

Moral da história: Um cu deve ter cheiro de cu/ E não de água de colônia…

 

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Perversões na VaLiSe IV

Posted in Antropofagia, Art, arte, conto, escatológico, literatura, literature, Perversão, semiótica on 12 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

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Arte: Marco Aqueiva à base de olhares focados em Buñuel, Santa Maria Egipcíaca e Opalão.

(3) Sob os olhos do terceiro

por Carmen Presotto

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Um abraço insuspeito nossa amizade.

 

Triste, no entanto, no corpo apenas as marcas do duelo…

 

Éramos três

era um Opala Preto

era um domingo à noite

 

Nas ruas, apenas os que abominam o Fantástico

ou enrolam as bandeiras suadas do futebol…

 

É!

 

Como dizer a eles que, mesmo sofrido, pior era nossa Solidão dividida a três.

 

Ela, nem mesmo Opala tinha para recontar os mal-ditos encontros de lataria.

Isso mesmo!

eles são os mesmos que em segundos a delatariam, ou mulher não seria isso: um tiro alvo ao serial 3d?

Então,mesmo que doa, assim, ela Existe…

 

Bem, há os que não assistem o sempre-fantástico e preferem outras peladas, mas desses não temos mais do que rastros dos amortecedores… e quer saber?

 

Já está tarde, amanhã, é uma palavra sempre de nativaIdade e numa época em que o sexo não tem mais réu…, deixemos tudo com Nelson Rodrigues.

 

Sim!

 

Ao escrever, guisadinho e feijoada d’elas, ainda faremos canapés de olas bem calçadas, em Ondas Fantásticas…

 

Perversões na valise III

Posted in Art, arte, conto, escatológico, literatura, literature, Pós-antropofagia, Perversão, semiótica on 10 dezembro, 2008 by Marco Aqueiva

 

 

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(2) Sonhos do segundo

Cunhé cunhé cunhé cunhé. Minha vó, dá perninha de moça pra mim comer. Só tem papo de anjo, filhinho. Mas falta calda de fruta. Assim, fiozinho, quando serpente der o bote no descampado verde, traga melão, melancia, moranguinho. Antes vá lá no chão batido e pegue uns trocinhos de carvão. Não se esqueça de pôr seu narizinho de ciclope e levar a klaxon de seu avô carcamano. Põe dez real de gasosa que ninguém segura o opalão.

 

Alegria, alegria, não vim ao mundo pra ser pedra. Ninguém segura este opalão. Cracatá cracatá cracatá – melão melancia moranguinho – asa de galinha miúdos e toucinho. Cracatá cracatá cracatá. Não vim ao mundo pra ser pedra. Ninguém segura este opalão.

 

Encontrou dois enormes melões com olhos de crack, mais um figura de falências e protestos. Foi em frente dispensando a ambição robusta.

 

A melancia caiu-lhe no capô ameaçando a visibilidade. Deitou-lhe fora já na floração da vulva. Como ir além se as paisagens não se vêem tamanho o pandeiro aberto?

 

A terceira invadiu-lhe a mata resumida da tela. Sorriso, lagartixo e espadachim, fartando-se atracado a moranguinho. Chupou-lhe o penacho os bigodes e os pêlos de onde saiu ainda menino ainda pálido e magro, ainda em seu opalão preto, atrás de sua história. Atrás das frutas, com olho torto nos passarinhos e no pomar.

 

Alegria, alegria, sempre diz Eros. Pão com ovo ou banana no pão.

Não vim ao mundo para ser pedra. Cunhé cunhé cunhé cunhé.

Texto e Arte: Marco Aqueiva