Archive for the prosa poética Category

VaGaBONdageS, andaNÇaS & VaLiSeS

Posted in Art, arte, conto, literatura, literature, Nicolau Saião, prosa poética, semiótica on 11 março, 2009 by Marco Aqueiva

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(Texto original em francês seguido da tradução ao português)

 

Vagabondages

por Jules Morot

 

 

  Mes voyages sont faits d’hasards et d’ombres. Ou d’ombres et d’hasards, car la somme et la séquence des facteurs c’est parfois arbitraire. Ou ce ne sera pas ainsi?

   Au moment cela n’importe pas, maintenant ce qu’il faut d’évoquer sont les grandes présences des forêts en passant par moi, sur moi, sur ma tête, mes pieds, mes mains et mes épaules. Le vêtement qui m’habille et que de temps en temps  me laisse à nu, la mer dont je me rappelle toujours dans cet après-midi ensoleillé, à cette fin d’après-midi quand une étoile brillait déjà dans le ciel, le banc de jardin où je me suis assis un jour dans une petite terre d’Espagne, les grands feux allumés dans la montagne, les buchers qui me fascinaient, qui me laissaient surpris, car je n’connaissais pas encore le feu et son innombrable architecture pleine de terreurs et d’enchantements, la voix du vent là dehors, par les chemins de la montagne solitaires comme des fleurs dans un bois qu’on ne sait bien où il se place.

  Mes voyages sont faits d’amertume parce qu’ils ne tourneront plus jamais. Les voyages sont comme un rocher dans une forêt en silence au matin. Une forêt où des animaux sont nés et des animaux sont morts, la douceur d’un rayon du soleil ou du clair de lune sur le dos d’un loup ou d’une inconcrète apparition.

  J’ai ta main et j’n’ai pas ta main. Des images m’encerclent et sont des choses qu’ existent, du pain et de l’eau apportée des places plus éloignés et qui nous habitent. C’est mon eau intérieure, l’eau qui tu exsudes, l’eau que j’ai bu dans ton coeur, ce sont tes yeux que maintenant je ne reconnais pas, la lueur du passé.

  Les maisons qui courent à mon contour, le roulement soudain de tambours d’un train perdu et cette voix de femme en disant à l’autre, la plus jeune, la plus voyante: “C’était là notre chambre, te rappelles-tu? Ont été tant des fois que nous avons nous placé à la fenêtre, le père était encore vivant”. La mémoire qui se cache pour toujours dans un petit recoin du cerveau, comme un portrait humble au coin d’une table dans une salle très ancienne.

 

  Mes voyages sont faits de tout ce qui nous soutient et nous abandonne dans les grandes randonnées, au long d’un fleuve ou d’un désert.

  Mes voyages sont comme des livres aimés et égaux aux crimes d’un autre, quelqu’un qu’existe et n’existe pas, quelqu’un qui habite à mon intérieur et dans la poitrine que je conserve encore plongé dans ce temps, dans l’autre temps, dans tous les temps de l’univers.

in “Le mardi gras”

 

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Andanças

Tradução de Nicolau Saião

 

 

  As minhas viagens são feitas de acasos e de sombras. Ou de sombras e de acasos, pois a soma e a sequência dos factores  por vezes é arbitrária. Ou não será assim?

  Não importa de momento, agora o que é preciso evocar são as grandes presenças das florestas passando por mim, por sobre mim, por sobre a minha cabeça, os meus pés, as minhas mãos e os meus ombros. A roupa que me veste e que de tempos a tempos me desnuda, o mar que sempre recordo, naquela tarde ensolarada, naquele fim de tarde quando uma estrela já luzia no céu, o banco de jardim onde me sentei um dia numa pequena terra de Espanha, os grandes lumes acesos na serra, as fogueiras que me deslumbravam, me deixavam surpreso, pois ainda não conhecia o fogo e a sua incontável arquitectura plena de terrores e de encantamentos, a voz do vento lá por fora, pelos caminhos da montanha, solitários como flores num bosque que não se sabe bem em que lugar fica.

  As minhas viagens são feitas de amargura por não mais voltarem. São como um rochedo num bosque silente na manhã, um bosque onde animais nasceram e animais morreram, a doçura de um raio de sol ou de luar sobre o dorso de um lobo ou de uma inconcreta aparição.

  Tenho a tua mão e não tenho a tua mão. Imagens rodeiam-me e são coisas que existem, o pão e a água trazida dos lugares mais remotos e que nos habitam. A minha água interior, a tua água que ressuma, que bebi no teu coração, os teus olhos que já não reconheço, o fulgor do passado. As casas que correm ao meu redor, o rufar repentino de um combóio perdido e aquela voz de mulher dizendo para a outra, a mais nova, a mais vistosa: “Ali era o nosso quarto, lembras-te? Tantas vezes que nos pusémos ali à janela, ainda o Pai era vivo!”. A memória que se esconde para sempre num recantozinho do cérebro, como um retrato humilde ao canto de uma mesa numa sala muito antiga.

  As minhas viagens são feitas de tudo o que nos ampara e desampara nas grandes caminhadas, ao longo dum rio ou dum deserto.

  As minhas viagens são como livros amados e iguais aos crimes de outro alguém que existe e não existe, um alguém que mora dentro de mim e do peito que ainda conservo mergulhado neste tempo, no outro tempo, em todos os tempos do universo.

 

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Arte: Marco Aqueiva ao fogo de Van Gogh

 

Uma valise nas entrelinhas do palco

Posted in literatura, literature, manoel de barros, prosa poética on 4 setembro, 2008 by Marco Aqueiva

  

Qual o lado da noite que umedece primeiro.

 

                   por José Geraldo Neres

                  

E disse assim: conduza meu corpo. Confio em você, já disse isso antes. Não devia. O risco é todo seu, não me culpe depois. Aperte um pouco mais. Mais.  A luz está atrapalhando. Acompanhe a luz. Não preciso disso. Piedade? O público e as crianças não conhecem essa palavra, piedade. Hoje, quero ser o outro, o que perde o corpo, e se deixa afundar na escuridão. O palco é assim? Não. Não há retorno. É engraçado, não consigo esquecer um verso de Manoel de Barros: Não serei mais um pobre diabo que sofre de nobrezas. O que há de engraçado nisso? Nada, apenas deu uma vontade de rir. Quando colocava os pés no palco do teatro, ria: era o medo. Controle-se. Já que gosta desse poeta, lembre também dessas palavras: o dia vai morrer aberto em mim. Por que isso agora? Não queria conhecer o outro lado da luz, me acompanhar na cegueira? Você chegou na hora exata. Não tenho relógio. O homem é um poço escuro. Procure uma saída. Talvez esteja ao seu lado, mas quem pode garantir isso? O abandono me protege. Chega de poesia. Se controle. É a última vez que aviso. Posso sair e ninguém sentirá minha falta, nem saberão que você ficou aqui. Quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada. O público ou a criança? Não sei. O que é ser criança? Não tive infância. Nasci no palco. Palco. Por que não responde? Estou falando com você. Você está aí? Não sinto sua respiração. Lembre-se do poeta: não pode haver ausência de boca nas palavras. Sou um erro da natureza? Tenho cicatrizes. Não faz sentido ter sentido. Não preciso do fim para chegar até você. Onde é a saída? Atrás do meu sorriso existe dor, e medo. Importa-se? Ainda não está escuro. Não venha falar que sua força vem de suas derrotas. Não está escuro. Não é verdade. Meu corpo está exposto e dormente. Não esconda suas feridas. Não tenho mais que cem palavras, nunca entrei num cemitério, nem dancei na chuva, e nem me lembro como cheguei neste lugar. Não sei rezar. Crianças, é preciso? Solte um pouco mais o corpo. Um pouco mais. O corpo. Reconhece essa voz? Não tenha medo. Caminhe. Caminhar. Não pense em anjos. O escuro enfraquece os olhos. Incline o corpo. Sei onde está a saída, sou muitas pessoas. O palco desenha vozes no meu corpo. As crianças pensam que sou uma árvore. Encontrei uma parede. Uma repetição de paredes. Paredes. Paredes. Onde está a janela? Meus olhos. Qual a razão de possuir olhos? Crave as suas garras e abandone esse disfarce de sombras. Deixe suas unhas perderem-se na minha pele. Não te culpo de nada. Estamos entre quatro paredes, e em nossos corpos nascem as raízes da distância. Conduza meu corpo.

 

 

 

Livre diálogo com a poesia de Manoel de Barros.

 

Crédito de imagem: Collage à base de René Magritte, por Marco Aqueiva