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Poets in New York

Posted in Chico Buarque, Ferreira Gullar, Garcia Lorca, literatura, literature, poema, poesia, Poesia espanhola, Poetry, Poets in New York, provocações, Raimundo Fagner, semiótica, Terrorismo de Estado, Valise 2010 on 5 junho, 2010 by Marco Aqueiva

Federico GARCIA LORCA, fuzilado pelos franquistas em 1936, como profeticamente registrou seu compatriota GOYA, nasceu em 5 de junho, em uma remota Espanha de cais deprimido e regras inacianas.

Entre junho de 1929 a março de 1930, Lorca esteve em Nova York. Sob os efeitos da Grande Depressão de 29 escreveu talvez os poemas de temática social mais contundentes da lírica ocidental.

Uma pequena medida da sensibilidade e força destes versos vemos na interpretação de Leonard Cohen, na postagem anterior.

Veja-se agora que poema certeiramente pungente, na tradução de Ferreira Gullar, acompanhado de interpretação de Chico Buarque e Raimundo Fagner.

A Aurora

A aurora de Nova Iorque tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de pombas
que explode as águas podres.

A aurora de Nova Iorque geme
nas vastas escadarias
a buscar entre as arestas
angústias indefinidas.

A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe
porque ali a esperança nem a manhã são possíveis.
E as moedas, como enxames,
devoram recém-nascidos.

Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham:
não haverá paraíso nem amores desfolhados;
só números, leis e o lodo
de tanto esforço baldado.

A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade
e as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones
como se houvessem saído
de um naufrágio de sangue.

 

… ou maLaS sem aLçaS

Posted in crônica, Liberdade, literatura, literature, provocações on 2 abril, 2009 by Marco Aqueiva

giorgiodechirico

Giorgio De Chirico

Viagem para o centro do poder, ou malas sem alças.

por Nilza Amaral

  

O Poder deslumbra, insinua, “ambush”, cativa, demanda, desmanda, vislumbra, domina, escraviza, corrompe, corrói, impele, repele, angaria,  arrecada, consome.

O Poder tem armas: mata, desnuda, estupra, desfigura, maquia, finge, dita, desdita, embrutece, humilha, dobra.

O poder elimina a sociedade, e o indivíduo. Anula o homem, estatela.

O poder reflete inércia, depressão, brutalidade. O mundo gravita em torno do Poder.

O trono do poder refulge, atrai, convida, alucina. Os meios para o poder são todos válidos: a usurpação, a enganação, as trocas, as armação, a religião, a fraqueza humana. A Natureza esvazia-se de sensibilidade, enche-se de hostilidade. Vinga-se. Transforma-se. O Poder é passageiro. O tempo do Poder não é o nosso tempo. É o tempo dos deuses. O Poder é o brinquedo dos deuses. Até que eles se cansem e transformem o Poder em Decadência. Essa substituta do Poder é a razão e a consequência dos poderosos. E chega-se a uma verdade: toda ação tem uma reação contrária. A reação é o Caos.

Porém, àquele estadista nada disso importava, ou achava que com ele  jamais aconteceria, afinal estava pensando no Povo, ignorando, ou querendo ignorar, que o Povo é a mola propulsora do Poder; é pelo Povo que os heróis se arriscam, se sobrepujam, é com  o aval dele, que se enfrentam.

Em se expondo, se infiltrando, trazendo para si a atenção do mundo, proclamando que sua única intenção era salvaguardar a cidadania de uma população sofrida e esquecida pela humanidade, apoiado pelos órgãos da paz mundial que talvez com a melhor das intenções buscavam um líder para seus propósitos  ou uma justificativa para sua existência.

Sua figura tornou-se conhecida da população, todos admiravam aquele homem desprendido, belo como um deus que largava o conforto de seu lar, a vida cômoda que conseguira, para dedicar-se a pessoas desconhecidas, do país desconhecido  apenas lembrado como um depósito de miseráveis.

Na verdade  o Estadista não percebia a manipulação de sua mente agindo sub-repticiamente,  muito menos desconfiava que seguia a máxima antiga de “em terra de cegos quem tem um olho é rei”. Não, ele  não se aproveitaria do Poder se o conquistasse. Pensava nas crianças abandonadas pelas ruas das cidades, órfãos da guerra sem sentido, que explodira naquela minúscula nação que morria de fome. Muitos lutavam  ali  pelo Poder de ditar as regras de como distribuir felicidade na terra de ninguém.

Impulsionado pela febre que acomete o corpo, pela excitação e pela ambição, inspirado pelas leituras shakespeareanas, pelas aventuras épicas de heróis medievais, julgou-se um novo salvador. E assim arregaçou as mangas. Escolheu adeptos, nacionalizou empresas estrangeiras, construiu centros médicos, oficializou o ensino e a saúde. O Povo não questionava porque aquele homem que passou a chamar de protetor lutava por ele,  e não pelos carentes de seu país tão necessitados quanto ele. Ele possuía a resposta: solidariedade entre irmãos da mesma raça.

O Povo entusiasmado pela expectativa de uma vida melhor, aclamava e aplaudia. Contra a massa não há resistência. Principalmente a massa sofrida e espoliada. O tempo ajudava. Tudo muito rápido.

Instala-se o novo Poder. Exalta-se o herói. As riquezas do país baseiam-se na produção de alimentos  e nas pedras preciosas que proliferam nos veios das montanhas. Em nome do Estado todo o extrativismo permanece no país.

O mundo exterior exige eleições. Querem o Poder da democracia. O Poder da economia baseada no valor faccioso do dinheiro. Na importação e exportação. A resistência provoca invasões e proclama direitos. A necessidade da guerra para a paz exige resposta.

O Poder enfraquece. O Povo exige direitos. O estadista está só. A solidão do Poder instala-se, e o herói perde o momento certo de dizer não. O país está à beira do Caos.

Novo salvador, novas regras. O Povo tem novas esperanças. Novas valises. Novas viagens.

 

VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO ii

Posted in Art, arte, literatura, literature, narrativa, provocações, semiótica on 18 novembro, 2008 by Marco Aqueiva

ao-futuro1

Arte: Marco Aqueiva a partir de imagem de Tirésias e Odisseu por Johann Füssli e foto de túnel obtida em  http://www.zeroblur.com/blog/2008/01/215

Édipo: “Tirésias! Tu que tudo percebes

         do mais claro ao mais denso dos mistérios

         alto nos céus ou rasteiro na terra,

         hás de sentir, mesmo sem poder ver,

         a desgraça que assola esta cidade…

         Eis, profeta, por que te procuramos

         como última defesa e salvação.”

trad. Geir Campos

 

Que é, pois, o escritor, a olhar à frente, os sentidos despertos?

 

Um olhar que apenas renomeia as coisas e não sabe mais à provocação?

 

Faça também sua

VaLiSe de ProVOCAÇÕES ao FUTURO

 

por Tânia Du Bois

 

          Você já ouviu falar na cidade de joão ninguém? É a cidade onde todos mandam, ninguém obedece e poucos respeitam.

          Noel Rosa, em tempos passados, compôs uma letra com o nome de João Ninguém. O poeta teve sensibilidade para compreender o que estava acontecendo à sua volta; foi capaz de traduzir naquela música o seu tempo social. Trabalhou duro a palavra para tentar mostrar o que estava acontecendo em uma cidade saída da Revolução de 1930, num país carente da palavra. Ele soube usá-la para definir o movimento das palavras para com a música:

 

                                         “João Ninguém

                                          Que não é velho nem moço

                                          Come bastante no almoço

                                          Pra se esquecer do jantar

                                         Esse João nunca se expôs ao perigo

                                         Nunca teve um inimigo

                                         Nunca teve opinião.”

 

           Mas, nos tempos atuais, é a cidade em que o povo escuta música em volume excessivo, nos carros, nas ruas, até altas horas; os carros são estacionados de qualquer maneira, em qualquer mão. Nas lojas, parece que cada dono faz o seu próprio horário de atendimento. Não há policiamento. As casas são assaltadas à luz do dia. A novidade é que, agora, os ladrões escalam prédios e até matam para roubar. Os supermercados fixam preços de acordo com a temporada; O saneamento básico é feito e refeito. E como é a cidade de joão ninguém, não são tomadas providências, nenhuma atitude sobre absolutamente nada. Tudo é permitido, tudo podem.

           Álvaro Mutis, poeta colombiano, mostra-nos que a força das armas não contempla a permanência, ao contrário, leva à destruição e ao esquecimento; a ilusão do progresso como atos a reconfigurar a terra em novas formas de compartilhamento:

 

                                      “Senhor das armas

                                       ilusórias, faz tanto tempo

                                       que o olvido trabalha

                                       teus poderes

                                       que teu nome, teu reino

                                       e torre, o estuário

                                       as areias e as armas

                                       se apagaram para sempre…”

 

          E como vivem os forasteiros nessa cidade? Eles entendem que a cidade de joão ninguém é protegida pela natureza. Que o Sol é glorioso e a Lua quando bate no mar reflete os sonhos. Que o entardecer se confunde com as telas de Ivan Freitas. Que o mar é verde como a esmeralda, como pinceladas de Sansão Pereira. Que os pescadores pertencem à tela de Elias Andrade.

          E que, ainda, sentar no terraço e apreciar a paisagem na companhia de Mário Quintana, Jorge Luis Borges e Saramago faz com que consigam esquecer que essa cidade pertence a joão ninguém. A brisa chega com Cecília Meireles e cada momento de “Isto ou Aquilo” é desfrutado com muita sabedoria.

          Assim vivem os forasteiros na cidade de joão ninguém, tentando unir as letras ao povo, dando-lhes lápis e papel para perceberem a realidade; desafiando a cidade a arranjar um amor, uma palavra, como em Pedro Du Bois:

 

                                              “Ante todos

                                              nenhuma resposta.

 

                                              Entre todos

                                              algumas promessas.

 

                                              Tordos

                                              pássaros existentes

                                             em outras terras.”