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PeRFoRMaNCe do CoLeTiVo QuaTaTi

Posted in Art, arte, clarice lispector, Coletivo, literatura, Literatura Brasileira, literature, QUATATI, teatro on 13 setembro, 2012 by Marco Aqueiva

NÓS NO MUNDO – POLIFONIA DA REALIDADE

 

Por Fáttima BRITTO e Marco AQUEIVA

– EU.

– VOCÊ.

– NÓS.

– TODOS NÓS!

– CHEGAMOS AGORA.

– E O QUE TEMOS MESMO A DIZER?

<<<  PAUSA  >>>

– VIDA TODA LINGUAGEM.

– FRASE PERFEITA SEMPRE.

– TALVEZ VERSO.

– VIDA LINGUAGEM? FRASE PERFEITA?

– GRANDE SERTÃO SIM! VEREDAS E RIOBALDO.

– EU. VOCÊ. NÓS. TODOS NÓS!

<<<  PAUSA  >>>

– TODOS NÓS EM PLENA TRAVESSIA.

– TODOS NÓS UM PEQUENO GRANDE QUATATI SAINDO DA TOCA…

– CRUZANDO ENCRUZILHADAS,

– VISLUMBRANDO PONTES.

– MAS SINHÁ VITÓRIA NÃO CONSEGUIA ENXERGAR PONTES… NEM CAMA…

– E “DIADORIM ERA MAIS DO ÓDIO QUE DO AMOR?”

–  E O QUE PENSAM  OS QUATIS ATIRADOS ÀS MARGENS, POR CARROS VELOZES, VOANDO POR ESTRADAS ESBURACADAS EM NOITES ESCURAS?

– O SANGUE QUENTE ESFRIANDO NO ASFALTO.

<<<  PAUSA  >>>

– E LUÍS DA SILVA CAMINHANDO ENTRE MULTIDÕES, PRONTO A ENFORCAR-SE COM A PRÓPRIA GRAVATA? O QUE PENSAVA?

– GRACILIANO DESCOBRIU UM DENTRE MILHÕES… MILHÕES QUE HOJE ESTÃO ESPIANDO AS PRÓPRIAS GRAVATAS, AMEAÇANDO SAIR DE CENA…

– SIM, SIM. HÁ SEMPRE CRIMES E CASTIGOS MESMO QUE NÃO EXISTA CULPA.

– HÁ MESMO FRASES PERFEITAS?

– NÃO SEI.

– TALVEZ VERSOS.

– MAS HÁ AS SERRAS ALÉM DAS CIDADES ENTULHADAS DE TECNOLOGIA E DE SEUS VAZIOS.

– SIM. HÁ AS SERRAS ONDE CORREM CRIANÇAS DESCALÇAS E FAMINTAS…

– PERFEITA?

– NÃO SEI. TALVEZ VERSOS.

– ESPEREM!  MIREM, VEJAM: O MAIS BONITO

– O mais importante e bonito do mundo é isto:

– que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando.

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– COMO ASSIM? HÁ TANTOS COMO PAULO HONÓRIO AFOGANDO-SE EM SOLIDÃO!

–  E  TANTO DE DOM CASMURRO NA OFICINA DE HOMENS SE FAZENDO

– HOMENS SE FAZENDO NA OFICINA?

– HOMENS SE FAZENDO CASMURROS BONAPARTES, ÁTILAS POR TODA PARTE

– BUSH (TOSSE) BUSH

– ROSE BUSH

– DEATH BUSH

– 11 DE SETEMBRO

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– NÃO FAÇA RODEIOS

– HOMENS SE FAZENDO CAMINHO

– UMA BANDA PODRE, UM LUGAR INDESEJÁVEL ONDE NÃO ESTAMOS

– UMA ERRADA QUE NÃO SE ESPERA CONHECER

– E BEM OU MAL CONHECEMOS

– SEM QUERER VER A PRÓPRIA VERDADE NOS OLHOS CIGANOS, DE RESSACA…

– MAS HÁ A POESIA, QUE É A NOSSA CACHAÇA DE TODO DIA…

– E HÁ O SONO, A BREVE MORTE DE CADA NOITE…

– MAS DE QUE VALE O SONO SE HÁ VOCÊ E EU E NÓS NESSE GRANDE POÇO DE AREIA MOVEDIÇA?

– MAS TAMBÉM  HÁ SEMPRE PALAVRAS EM QUE  PODEMOS NOS APOIAR…

– SIM. HÁ SEMPRE PALAVRAS. SEMPRE HAVERÁ PALAVRAS!

– SEMPRE HÁ COMÍCIOS POSSÍVEIS: ABAIXO A INSÔNIA DO DESEMPREGO!

– ABAIXO A INSÔNIA DA LUTA SEM SUSTENTAÇÃO

– INADIÁVEL E PERDIDA

– ABAIXO A INSÔNIA DA CONTA A PAGAR!

– E A INSÔNIA DO AMOR IMPOSSÍVEL…

– HÁ SEMPRE PALAVRAS E  ESPERANÇA…

– SIM! HÁ  SEMPRE ALGUÉM ESPERANDO, ESPERANDO, ESPERANDO…

– MAS GODOT…? GODOT TALVEZ NÃO VENHA NUNCA, E TUDO PARECE CADA VEZ MAIS ABSURDO!

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– MEU AMIGO, ESQUEÇA ISSO. HÁ SEMPRE MAIS MISTÉRIOS ENTRE O CÉU E A TERRA…

– DO QUE JULGA NOSSA OPORTUNA FILOSOFIA?

– PAREM PAREM COM ISSO! NÃO VIVEMOS EM TEMPOS DE FILOSOFIAS…

– NÃO SOMOS HOMENS DE FILOSOFIAS? POR QUÊ?

– POR QUÊ? SIM, POR QUE SE SOMOS FEITOS DA MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS SONHOS?

– O QUÊ? QUEM É FEITO DA MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS SONHOS?

SILÊNCIO

– UM PEQUENO GRANDE QUATATI: OLHOS FAMINTOS, PATAS ÁGEIS, SANGUE A SER RECOLHIDO DO ASFALTO; EM BUSCA DE PONTES E PONTES…

– EM BUSCA DE PONTOS QUE FORMEM FIGURAS, QUE FORMEM SENTIDOS…

–  SINHÁ VITÓRIA, DIADORIM,  LUÍS DA SILVA, PAULO HONÓRIO, DOM CASMURRO, BUSH

– BUSH NÃO!

– TIREMOS OS TANTOS BUSHES DA ROSEIRA

– E DESTA FLOR DE AUDITÓRIO

– AUDITÓRIO EM FLOR, FLORAÇÃO DE SONHOS

– VIDA TODA LINGUAGEM, OFICINA DE SOLIDÕES E SONHOS INCOMUNICÁVEIS

– SINHÁ VITÓRIA, DIADORIM,  LUÍS DA SILVA, PAULO HONÓRIO, DOM CASMURRO, CAPITU, JACINTO,  VOCÊ, EU, NÓS, TODOS NÓS…

– E HÁ MACABEIAS E FABIANOS…

– SIM… SINHÁ VITÓRIA  TINHA UM SONHO: SONHAVA COM UMA CAMA. FABIANO NÃO TINHA LINGUAGEM E  SEQUER SONHAVA EM TÊ-LA. SABIA QUE JAMAIS PODERIA TÊ-LA…

– MAS O VAQUEIRO TINHA MEDO, MUITO MEDO…

– MEDO DO PATRÃO QUE LHE TIRAVA AS MOEDAS E SUGAVA O SANGUE DA PELE VERMELHA DO SOL DO SERTÃO.

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– TER MEDO É VIVER PELA METADE?

– TODO O MAL DO MUNDO VEM DE NOS IMPORTARMOS UNS COM OS OUTROS?

– O GRANDE E TRISTE ALBERTO CAEIRO. APENAS UMA FACETA…

– PESSOA FOI 50? FOI 70? MÁRIO DE ANDRADE FOI 350?

– É NÓS? E NÓS QUANTOS SOMOS?

– SOMOS TANTOS E TANTOS E TANTOS E SOMOS ATÉ A CLARA CLARICE

– QUE DISSE, TALVEZ EM UMA TARDE DE OUTONO, RODEADA DE GATOS,  UM POUCO ANTES DE MORRER, ACOSSADA POR UM CÂNCER, EM 1977:

– “SIM, MINHA FORÇA ESTÁ NA SOLIDÃO.”

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– DOCE E DURA CLARICE, VIDA TODA LINGUAGEM

– TODA LINGUAGEM, SONHOS POR COMPARTILHAR

– UM GALO SÓ NÃO CANTA O AMANHÃ.

– Um galo sozinho não tece uma manhã:
– ele precisará sempre de outros galos.
– De um que apanhe esse grito que ele
– e o lance a outro; de um outro galo
– que apanhe o grito que um galo antes
– e o lance a outro; e de outros galos
– que com muitos outros galos se cruzem
– os fios de sol de seus gritos de galo,
– para que a manhã, desde uma teia tênue,
– se vá tecendo, entre todos os galos.
– E se encorpando em tela, entre todos,
– se erguendo tenda, onde entrem todos,
– se entretendendo para todos, no toldo
– (a manhã) que plana livre de armação.
– A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
– que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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– CHEGAMOS AGORA. E O QUE TEMOS MESMO A DIZER?

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Na VaLiSe de SaMueL BeCkeTT

Posted in Absurdo, Art, arte, Ato sem palavras, Crítica, Desumanização, literature, Opressão, Samuel Beckett, teatro, The narrow way, Youtube on 15 abril, 2012 by Marco Aqueiva

 Ato sem (muitas) palavras

                                     por Marco Aqueiva

 

Ele vivo. No limite ainda vivo. Sem poder sair. Condenado e vivo. Todo dia ele ainda. Ele ainda vivo. Todo o dia ele menos ele. Todo dia eles sempre. Todo o dia eles que fecham. Todo dia eles fecham. O mesmo. Eu mesmo. Eles dizem que ainda vivo. O espaço, o mesmo tempo parado. O espaço fechado, sem saída. Nesse espaço eu, fora eles. Foram eles que sempre riscaram o limite. Eles dizem que vivo. Eles põem e tiram coisas. Trilos sempre. Trilos sempre se pronunciam. Plantam a mesma sombra diária e lá vêm trilos. Quem me diz que posso? Oferta-se inacessível a água da vida sob trilos. Como posso? Eles sempre riscaram o limite. A ação possível. Eu não arrisquei nada. Ainda vivo? Eles querem me fazer crer. Eles querem me fazer crer que estou vivo. Que estou vivo e o retorno é sempre possível.

Hamlet na VaLiSe

Posted in Hamlet, literatura, literature, Magritte, poesia, Poetry, semiótica, Shakespeare, teatro on 23 abril, 2009 by Marco Aqueiva

magritte

 

Valise ficcional baseada na cena em que Hamlet e Horácio

observam o coveiro trabalhar.

 

por Régis Closel


Hamlet diz:
Que ofício mais nobre tem aquele senhor, Horácio.
Prepara o último quarto que deitamos para dormir.
Um leito para onde nada levamos, nem somos nós
Perdoados pela terra, que nos oferece aos vermes.

Nascemos com um grande grito e muita alegria,

Despedimo-nos em total silêncio e choro ao redor.

Morrer é apenas isso? Entregar tudo que temos

Àqueles que não cuidarão como nós, enquanto vamos
a Terras da viagem sem volta, o descanso desconhecido.

Quem lembrará que o nobre Hamlet viajou às pressas
Com as despesas pagas pelo próprio irmão??
O que ele carregou para a terra? Nada além do silêncio?
Ou aquilo que não pôde levar junto deixou comigo?

E sem dormir e sem agir não consigo dar a meu pai o descanso.

Somos aquilo que eles deixam em nós: muito mais que bens,
muito mais que posses e criados, meu querido Horário.
Carregamos na vida tudo aquilo que os outros nos deram para suportar.
Faremos isso quando for a nossa vez, como foi feito através dos tempos.
Um homem não é nada sem que deixe para o outro, algo para que ele possa ser lembrado.
Sem essa bagagem, de que viveriam grandes homens? Não de ossos nem de pó.
Vivem de algo mais que o ser humano. Algo mais discreto que o silêncio…

 

*-/*-/*-/*-/*-/*-/*-

Imagem: Magritte

REVEJO A TRISTE VALISE DO POETA FEDERICO

Posted in Garcia Lorca, literatura, literature, narrativa, poesia, teatro on 25 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

por  Pedro Du Bois

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História recontada

de cantos escuros

submersos aos tempos

recuperados

na estética

 

ética

forma de rememorar

personagens

abreviados de nós

 

o mito transfigurado na realidade

de sonhos transformados em nuvens

férteis na imaginação das crianças

 

o homem em marcha

canta

conta

refaz o caminho

 

refeito o trajeto, o tiro

que matou o poeta

 

o dia

e a noite se faziam escuros.

 

(de As Pessoas Nominadas)

Toda a literatura numa valise

Posted in literatura, literature, narrativa, poesia, semiótica, teatro on 11 agosto, 2008 by Marco Aqueiva

 

Toda a literatura cabe numa valise? Uma valise é, reiteramos, nunca um objeto per si. A valise é menos um objeto que um símbolo, portadora que é de um conhecimento sobre nós mesmos e sobre nossos semelhantes. Valise por onde uma parte significativa da totalidade pode desvelar-nos a nós mesmos por meio da ficção ou daquele autor de que nos servimos com prazer e admiração. Por esse pressuposto estendem-se os caminhos traçados por este projeto até o momento.

 

Completamos com esta 35 postagens, mais de 50 textos publicados, em que, para cada texto tem sido associada uma imagem, com toda sensibilidade, e arbitrariedade não fosse a verdade residir no poço de nós mesmos. Às colaborações de textos ficcionais (poesia e prosa) em que a valise é tema, acrescentamos há pouco a proposta de escrever sobre a valise de um autor, desvelando-lhes os segredos.

 

Convém ainda provocar: – Toda a literatura pode mesmo caber numa valise? Parafraseando algum grande autor, toda a biblioteca de Alexandria coube na frasqueira daquele que guarda a sorte deste mundo mal segura. Toda a literatura enunciada cabe na valise daquele que anuncia seu prazer pela literatura, elegendo seus autores preferidos e experimentando, no branco da página e da linguagem, os mistérios cerrados na valise. Mistérios da natureza humana.

 

Participem escrevendo seja uma valise ficcional, absolutamente desgarrada de quaisquer restrições ou limites, seja um texto de leitor apaixonado por um autor cuja valise se quer desvelar.

 

Nesta data registramos as colaborações de Dirce Lorimier e Aparecido José Carlos Nazário, que estréiam no Projeto.

 

Boa viagem!

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A VALISE DE NELSON RODRIGUES

por Aparecido José Carlos Nazário

 

Nelson Rodrigues, tendo em mente a crítica social que sustentava a virulência de seus textos, levaria em sua valise um “vestido de noiva” pertencente a uma jovem “bonitinha, mas ordinária”, a qual, durante sua trajetória, mesmo tendo sido “engraçadinha”, carregava o veneno de uma “serpente”. Além desse vestido, Nelson levaria também uma dose de veneno letal que serviria para exterminar os bons desejos de uma sociedade que não compreendia que apodrecia em decorrência da utilização de uma máscara que a impulsionava a um mundo de fantasias que parecia confortável em sua estrutura. No entanto, o veneno que Nelson portava em sua valise, acompanhado do vestido que desencadeava as mais variadas lembranças, ajudava a   conscientizar esse extrato social de que a vida era como ela deveria ser.  Nenhum profeta poderia salvar do mal aqueles que já tinham se condenado devido às práticas inconsequentes que apareciam retratadas em um “álbum de família” desbotado pelo tempo. Certamente, devido ao peso de sua crítica, Nelson carregaria a responsabilidade do incômodo, além da inquietação e do desconforto que provocaria em seus leitores, os quais seriam transformados pelo simples fato de abrirem a valise e se depararem com o vestido, uma vez que os planos da realidade, memória e alucinação lançariam a eles um novo desafio ao tentarem compreender o universo labiríntico no qual seriam inseridos.         

 

por Dirce Lorimier

———————-

A frasqueira

 

Não é propriamente uma valise.

É uma frasqueira vermelha, novinha ainda.

Está fechada há dezenove anos.

Não me atrevo a abrir.

Temo rever a fortuna que Laura guardou ali.

 

Brigou comigo, a pequenina, e disse que ia embora.

Até nunca mais.

Por quê? ora por quê! Isto não importa agora

O que importa, como me ocorreu naquela manhã,

Encarando aqueles olhos irados e vermelhos,

É que se desabrochava ali a personalidade de uma mulher

Obstinada.

 

Hoje quando me refiro à frasqueira, ela apenas sorri.

Não demonstra desejo de abri-la.

Sei que a maior fortuna que guardou ali

Foi uma peninha branca que ela perseguiu no parque,

Brigando com o vento que a levava cada vez mais longe dela.

Ainda vejo suas perninhas grossas, bem torneadas

Correndo pelo gramado, querendo me presentear com aquela

Pena voadora.

 

Seus lindos cabelos loiros eu os vejo ainda dançando pelo parque…

Finalmente, ela venceu e me entregou sorrindo o meu troféu. 

Havia uma avó feliz.

 

Mas naquela manhã de domingo a menina se impôs como uma

criança determinada.

Lembro também que ali estão algumas jóias

da Arábia Saudita.

“Todas as jóias que você ganhou do seu namorado, vó!

É tudo meu! A peninha branca também!”

 

Sementes coloridas, verdes, vermelhas…

O que mais tem ali?

Ali está presa para sempre a nossa eterna cumplicidade

uma criança determinada e às vezes egoísta

uma vovó que aprendeu a ver nos pequenos gestos

motivos para olhar para trás e sorrir.

 

 

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Crédito de imagem neste último texto: Romain polgatroïd em

flickr.com/photos/xyotiogyo/2411311170/

 

 

 

A valise

Posted in literature, teatro on 18 julho, 2008 by Marco Aqueiva

 

por Paulo Sacaldassy

________________

 

NA SALA DE UM APARTAMENTO, UM HOMEM FALA AO TELEFONE.

 

Homem – A gente leva tudo na minha valise!… Cabe, sim!… Ela é bem espaçosa!

 

ENTRA A EMPREGADA COM UM ESPANADOR NA MÃO, LIMPA OS MÓVEIS. O HOMEM CONTINUA AO TELEFONE.

 

Homem – Você precisa ver! Ela é linda!… Americana… Tô te falando!… Já dormi várias noites em cima dela!… Ela agüenta o tranco!

 

A EMPREGADA PÁRA DE LIMPAR E PRESTA A ATENÇÃO NO HOMEM, QUE AINDA FALA AO TELEFONE.

 

Homem – Não, não aconteceu nada com ela!… Olha só, a gente faz assim: Eu ponho as minhas coisas na frente dela e você põe suas coisas atrás dela… É… Se você preferir, eu ponho atrás e você na frente!… É um pouco apertado, mas ela agüenta!… Claro! Já falei pra você!

 

A EMPREGADA FAZ CARA DE ESPANTADA.

 

Homem – Então tá fechado!… Vou pegar a valise e já passo aí pra te pegar!… Um abraço!

 

O HOMEM DESLIGA O TELEFONE.

 

Homem – Que foi, Maria?

Empregada – Não foi nada, não, seu Zé Roberto!

Homem – E que cara é essa?

Empregada    – É que…

Homem – Deixa eu ir que já estou atrasado!

 

O HOMEM SAI.

 

Empregada    – Ai, meu Deus! Como é que pode um homem tão distinto que nem seu Zé Roberto trair a Dona Ana Maria? Logo com uma Americana!… E a safadeza? Ele, o amigo e a Americana! Cruz credo! (Se benze)… Coitada da Dona Ana Maria!

 

ENTRA A MULHER.

 

Mulher – Coitada por quê?

Empregada    – Não foi nada, não!

Mulher – Como não? Você acha que sou uma coitada por nada?

Empregada    – Sabe o que é, dona Ana Maria…

Mulher – Não sei, Maria! Não sei!

Empregada    – Foi sem querer que ouvi a conversa. Eu juro que não queria!

Mulher – Que conversa?

Empregada    – Deixa pra lá, dona Ana Maria. Deixa pra lá!

Mulher – Desembucha, Maria! Coitada por quê?

Empregada    – O seu Zé Roberto tá traindo a senhora!

Mulher – O quê?

Empregada – E ainda tá fazendo safadeza com a Americana e com o amigo!

Mulher – Que Americana? Que amigo?

Empregada – Foi assim, ó! Eu vinha entrando pra passar os espanador nos móvel, quando ouvi o seu Zé Roberto falando no telefone.

Mulher – O que é que tem?

Empregada – Eu ouvi ele falá pro outro que tem uma americana lindona! Que já drumiu num sei quantas noites em cima dela. E se outro quiser, pode colocar as coisa, na frente, ou atrás dela!

Mulher – Que conversa é essa, Maria?

Empregada – Como é mesmo o nome da Americana?

Mulher – E ele falou o nome?

Empregada    – Falou sim! É que não consigo me alembrar! Acho que é Vasile!

 

A MULHER RESPIRANDO ALIVIADA.

 

Mulher – Não seria, valise?

Empregada – Isso! A senhora conhece ela?… Ai, meu Deus (E SE BENZE)

Mulher – Valise não é gente, Maria! Valise é uma mala pequena!

Empregada – A senhora tá brincando!

 

ENTRA O HOMEM TRAZENDO UMA VALISE.

 

Mulher – Olha aí o Zé Roberto com a valise!

Homem – Que é que tem, a valise?

Empregada – Mas… E aquela conversa no telefone?

Mulher – (APRESENTANDO) Maria! Valise!… Valise! Maria!

Homem – Alguém pode me explicar o que tá acontecendo aqui?

 

A EMPREGADA OLHA ADMIRADA PARA A PEQUENA MALA.

 

Mulher – Vamos que eu te acompanho. No caminho, te explico!

Homem – Vamos eu tô atrasadíssimo! Até a volta, Maria!

Empregada – Inté!

 

O HOMEM E A MULHER SAEM.

 

Empregada – Diacho! Mania que esse povo da cidade grande tem de colocar nome difícil nas coisas! Mala é a mala, uai! Mas, quer saber de uma coisa? Deixa eu cuidar da vida, senão acabo perdendo o emprego!

 

A EMPREGADA SAI DE CENA, PASSANDO O ESPANADOR NOS MÓVEIS.

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Crédito de imagem: Horst P. Horst for Hanes “Round the Clock” 1987
 http://blogdofavre.ig.com.br/2008/06/horst-p-horst-suas-fotos-de-moda-sempre/